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SAMMENDRAG

In document InterCity Dovrebanen (sider 5-12)

Como contrapartida no projeto por parte da FAEPA/SENAR, foram previstos a realização de 6 cursos abrangendo toda a cadeia produtiva do arroz vermelho, a serem ministrados em 8 municípios de diferentes localidades na área do Vale do Piancó, com 50 participantes em média. Sendo os cursos: Elementos sobre Teoria da Organização, Associativismo, Gestão Rural, Guia de Certificação de Produtos Agrícolas, Como Produzir o Arroz Vermelho com Qualidade, e Irrigação por inundação (informações retiradas do Plano de Trabalho, do Projeto Arroz Vermelho FAEPA/SENAR).

Segundo Domingues Lelis, coordenador do Projeto, o Senar encontrou dificuldades para realizar os cursos, segundo ele, por falta de adesão dos produtores, entre os cursos realizados, os de mais expressão foram o curso para técnicos ministrado pelo Dr. Almeida – Embrapa, realizado em Itaporanga, em novembro de 2009; e o evento organizado pelo Instituto Nacional do Semi-Árido (INSA), que ocorreu na Câmara Municipal de Itaporanga, em novembro de 2010, consistindo em um

‘Planejamento Participativo e Boas Práticas de Produção para Agregação de Valor a Cadeia Produtiva do Arroz Vermelho’.

Os treinamentos foram realizados no Vale do Piancó tendo por finalidade a capacitação dos produtores envolvidos no projeto, porém observamos que estes visam um processo de produção padronizado a ser estabelecido no Regulamento para Uso da IG. Nesses treinamentos identificamos a tendência de modernização da agricultura, sob os moldes convencionais, priorizando a mecanização do cultivo, utilização de sementes melhoradas e métodos tradicionais de irrigação, que serão legitimados com a IG.

De acordo com Ploeg (2008) o modo camponês de fazer agricultura tem grande potencial de autonomia produtiva em vista da capacidade singular de mobilizar recursos em seu favor, mantendo as condições ambientais indispensáveis à atividade agrícola. Por isso o campesinato estaria apto a responder aos desafios da sustentabilidade, que

supõe profundo conhecimento dos ciclos da natureza e capacidade de coexistência com os mesmos, fundamento da perspectiva de convivência com o semiárido.

O autor advoga que enquanto os camponeses podem potencializar os atributos da natureza, a agricultura empresarial necessita submetê-la, uma vez que a variabilidade dos ciclos naturais afetos à agricultura dificulta a padronização do processo de trabalho, criando obstáculos aos incrementos da produtividade. Estas agriculturas caminham em direções opostas: enquanto para esta última o horizonte é o mercado-mundo, para a outra são os mercado locais. Entende-se assim que o modo camponês de fazer agricultura difere radicalmente do empresarial, pois no primeiro prevalece a busca de soluções locais para problemas globais, as quais se traduzem em incremento da renda local; e a outra trata-se de um estratégia erigida na articulação entre a base material e a social circunscrita localmente, sendo por si só, insurgente a lógica global.

Em suma, a artificialização do processo de produção agrícola é indissociável do processo de externalização que, por sua vez, esta diretamente ligada ao aumento da dependência. Porém, torna-se um imperativo para inserção nos sistemas agroalimentares globalizados, visto que a autonomia inerente ao fazer camponês fere os padrões de controlabilidade próprios do Império30 (PLOEG, 2008).

No processo de IG do arroz vermelho, vemos a tentativa de ‘artificialização’ da

produção através dos treinamentos e cursos realizados e definições no Regulamento de Uso da IG, esse processo interfere diretamente no modo camponês de fazer agricultura, enfraquecendo sua autonomia, como condição para adentrar aos mercados agroalimentares globalizados com a IG.

De acordo com informações advindas do grupo focal, os produtores de Santana dos Garrotes precariamente participaram dos cursos, de 30 agricultores presentes na reunião do grupo focal, somente 5 participaram de cursos oferecidos pelo Projeto Arroz Vermelho FAEPA/SENAR, e segundo o depoimento dos participantes, os cursos não correspondem à realidade dos produtores da região:

“eles defendem mais o lado das empresas, porque a gente tem uma experiência grande, mas aí eles vêm diz que tem que cavar poço, eletrificar, usar trator, mas aí me diz, como que a gente pequeno vai lucrar, com o tanto de gasto que aumenta?” (Manoel do Vale, agricultor de Santana dos Garrotes).

“só o curso não adianta pra gente aqui, precisa de uma máquina pra arear a terra, um açude que tem água pra irrigar, aí produz do jeito que

30O

eles ensinam...” (agricultor de Santana dos Garrotes, depoimento no grupo focal).

Desse modo, no projeto Arroz Vermelho Faepa/Senar, de forma geral, pouco se considera a realidade local e se procura soluções adequadas ao meio, como na perspectiva de convivência com o semiárido, onde são utilizadas tecnologias sociais de

baixo custo e alto aproveitamento, como barragens subterrâneas, bomba d’água popular,

ou seja, soluções alternativas às respostas convencionais que, certamente garantem maior autonomia e sustentabilidade ao agricultor. Em nossas pesquisas de campo quando questionado sobre as tecnologias sociais de convivência com o semiárido, ficou claro, em todos os momentos, o completo desconhecimento por parte dos agricultores, sendo suas informações e uso restrito às cisternas, em média uma por casa, contemplada pelo Programa P1MC (Programa de Formação e Mobilização para a Convivência com o Semi-Árido: um Milhão de Cisternas Rurais).

Detectamos um conflito político, que envolve o próprio projeto de IG, que pode ser o motivo dos agricultores de Santana dos Garrotes serem desfavorecidos nas ações do projeto. Para realização do cadastramento dos produtores pelo Projeto Arroz Vermelho FAEPA/SENAR, foi contratado um técnico da própria região, Francisco Batista dos Santos, engenheiro agrônomo de Itaporanga, que já possuía conhecimentos acerca da IG. Batista esteve presente durante todo o projeto como articulador local do próprio, sendo, portanto o porta voz da FAEPA, uma Federação da Agricultura que reúne os Sindicatos Patronais Rurais, e então defende os interesses vinculados a essa categoria.

Em Santana dos Garrotes, existe um Sindicato de Produtores Rurais, ligado à FAEPA, mas a Associação dos Pequenos Produtores de Arroz Vermelho está diretamente ligada ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais, e à figura de José Soares

Filho, conhecido como ‘Seu Dedé’, este como militante da Federação dos

Trabalhadores de Agricultura (FETAG) em defesa da agricultura familiar, conquistou grande antipatia (ou podemos dizer rivalidade política-ideológica) da FAEPA.

O que acabou acontecendo foi que de um lado se formou um grupo, interessado nas propostas de modernização e inserção no mercado através da IG, inserida no Projeto Arroz Vermelho FAEPA/SENAR. E de outro lado ficou um grupo expressivo de agricultores familiares que têm interesse na IG, mas pouco sabem sobre seu mecanismo, representado pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Santana dos Garrotes. Fazendo com que grande parte dos produtores de Santana dos Garrotes, município de

grande importância na produção do arroz vermelho e articulador internacional com a participação no Movimento Slow Food, fosse desfavorecido perante as ações do projeto.

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