• No results found

“ O Modelo de Jogo nunca está acabado porque o processo ao acontecer vai fornecer indicadores de modo a serem interpretados por quem o gere, no sentido de o ir gerindo para estimular uma melhor qualidade.” (Frade, 2003a)

Antes de passarmos por uma noção mais esclarecedora e contextualizada do Modelo de Jogo, parece-nos importante constatar que o

jogar que uma equipa produz não é um fenómeno natural, mas sim o resultado

de um fenómeno construído (por isso existem diferentes formas de jogar), sendo claramente diferente de outro jogar preconizado por outra equipa qualquer. Associado a esta construção surge o termo determinístico, já que no momento dessa mesma construção, sabemos o que queremos alcançar no futuro, ou melhor o que queremos construir.

Na verdade, facilmente percebemos que existem formas de jogar diferentes, pois cada treinador torna a sua Específica, dentro de um determinado contexto que lhe confere um conjunto de singularidades, dado que esse contexto varia entre clubes, entre cidades, entre países …, ou seja, não há contextos iguais.

24

Porém, também é importante estarmos conscientes da imprevisibilidade do futuro, sabendo que este pode contornar um pouco a nossa ideia inicial, fazendo com que esse jogar esteja em permanente construção, numa relação dialéctica entre treinador e jogadores, tendo em conta os problemas que vão sendo colocados a todo o momento.

Nesse sentido, afirmamos que a forma de jogar Específica que idealizamos e depois operacionalizamos através do treino estará sempre em construção, moldando-se determinados aspectos da ideia inicial, sem no entanto modificar a sua matriz, aquilo que a caracteriza e lhe confere singularidade. Ou seja, aquilo que queremos reforçar está relacionado com o facto de a ideia de jogo nunca estar acabada, daí o dizer-se que o Modelo de

Jogo nunca está acabado, está em construção. Trata-se, portanto, de moldar

certos aspectos que contornam a nossa ideia inicial sem descaracterizá-la.

Guilherme Oliveira (2006, p. III) afirma que “os treinadores transmitem

determinado tipo de ideias que querem que os jogadores assumam em termos de jogo, os jogadores vão receber essas ideias e vão reconstruir essas ideias. Por isso há uma criação de um Modelo …”.

Com o intuito de esclarecermos o assunto exposto nas linhas anteriores vejamos um exemplo: imagine-se que um treinador quer implementar na sua equipa a posse e circulação de bola como um comportamento/princípio no momento de organização ofensiva. Ele pretende que essa circulação de bola seja feita em toda a largura do campo, jogando de uma forma apoiada com passe curto e seguro, à procura de espaços para desorganizar a equipa

adversária. Contudo, o treinador transmite a ideia, vai trabalhando e percebe

que há um jogador que apresenta uma boa leitura/visão de jogo aliada a uma qualidade e precisão no passe longo. Então, o treinador pode aproveitar essa característica porque através dessa precisão no passe longo, o jogo tornar-se-á mais rápido. Por isso, através da alternância entre passe curto e passe longo, a velocidade da circulação de bola pode ser muito maior. Poderá aproveitar toda a largura do terreno e criar maiores desequilíbrios na estrutura defensiva do adversário.

25

Através do exemplo anterior percebemos que o treinador pode modificar certo aspecto do seu jogar sem perder identidade, ou melhor, modifica um detalhe no sentido de estimular uma maior qualidade e eficácia na procura de espaços para desorganizar o adversário. Então, percebemos que a ideia de jogo se vai modificando (nunca está acabada, está em permanente construção), não sendo necessário deixar de praticar o jogar que idealizámos inicialmente. Neste sentido, Guilherme Oliveira (2006, p. IV) adianta que a capacidade de compreensão do comportamento por parte dos jogadores é

muito importante referindo o seguinte: “Por isso, dou o princípio, eles

interpretam e há uma recriação. E o jogo é assim e por isso é que digo que é uma criação e não uma adopção”.

O que é importante é termos uma noção clara do que é o Modelo de Jogo de uma equipa e que este nunca está acabado, vai-se construindo, desconstruindo e reconstruindo (Castelo, 1994), devendo estar constantemente a ser visualizado, entendendo-se o futuro como elemento causal do comportamento (Frade, 1985).

O Modelo de Jogo em Futebol é normalmente mal entendido pelas pessoas. Fala-se dele como sistema de jogo implementado ou a estrutura inicial que a equipa apresenta em campo. No entanto, o Modelo de Jogo é muito mais do que isso, o Modelo é tudo (Frade, 2006).

Entendemos que um Modelo de Jogo é algo que identifica uma determinada equipa, não é apenas um sistema de jogo, não é o posicionamento e disposição dos jogadores, mas sim a forma como os jogadores estabelecem as relações entre si e como expressam a sua identidade, uma determinada organização apresentada em cada momento do jogo que se manifesta com regularidade.

O Modelo de Jogo diz respeito a uma ideia/conjectura de jogo

(Guilherme Oliveira, 2003a) alicerçada num conjunto de princípios4, regras de

4 No ponto seguinte referimo-nos também aos princípios do jogo e do modelo de jogo. Fica a

ideia que se trata de um conjunto de regras de decisão e normas comportamentais referentes à organização do jogo da equipa, nos diferentes momentos do jogo. Digamos que são comportamentos mais gerais (em cada momento do jogo) do jogar que o treinador quer criar.

26

acção e de gestão do jogo (Garganta, 2003), ou seja, um conjunto de ideias e princípios que determinam a forma de jogar Específica de uma equipa.

Desta forma, o Modelo de Jogo é constituído por princípios, sub-

princípios5, sub-princípios dos sub-princípios ou subsub-princípios6 …,

representativos dos diferentes momentos do jogo, que se articulam entre si, manifestando uma organização funcional muito própria, caracterizando a identidade de uma equipa (Guilherme Oliveira, 2003a). Daí que o Modelo de Jogo seja revelador de uma complexidade, na medida em que para se concretizar resulta de uma interacção de diferentes agentes.

Neste sentido, é fundamental que o treinador saiba muito bem aquilo que pretende em cada momento do seu jogar, definindo uma série de comportamentos e articulação entre eles, que vão permitir que a equipa apresente uma identidade Específica. Carvalhal (2001) acrescenta que o Modelo de Jogo depende de um sistema de relações que vai articular uma determinada forma de jogar, não uma forma de jogar qualquer, mas sim baseada numa estrutura específica. Podemos então referir que o Modelo de Jogo é, no fundo, um complexo de referências colectivas e individuais, concretizadas pela definição dos princípios de jogo concebidos pelo treinador e que serão depois adaptadas a um determinado contexto Específico.

Os princípios e sub-princípios a que nos referimos devem estar perfeitamente definidos e expostos aos jogadores para que todos entendam claramente o que o treinador pretende. A este respeito Guilherme Oliveira (2003b) refere que o Modelo de Jogo é essencialmente mental porque são os jogadores quem jogam e os jogadores têm interpretações, sendo que essas interpretações quando eles começam a estabelecer relações entre si, muitas vezes leva a que a compreensão seja independente. Deste modo, fazê-los compreender a mesma coisa e levá-los agir em função do mesmo ao mesmo tempo não é uma tarefa fácil e precisa de tempo. Para isso, é determinante que os jogadores tenham qualidade e sejam inteligentes, mas por outro lado é

5

São comportamentos mais específicos do jogar que o treinador quer criar.

6

São comportamentos ainda mais específicos, um nível de organização ainda mais inferior que o treinador pretende criar. Digamos que podem surgir do lado aberto que o Futebol contém, dos detalhes, da criatividade e até do lado estratégico.

27

imprescindível que o responsável da equipa, o treinador, consiga estabelecer uma linguagem comum entre as individualidades que são os jogadores da equipa. É muito importante que os jogadores entendam o que pretende e saibam exactamente aquilo que têm que fazer em cada momento do jogo.

No entanto, embora tenha que existir uma definição clara acerca dos comportamentos a apresentar em cada momento do jogo, o Modelo de Jogo não pode ser rígido. Ou seja, deve ser modificável dependendo do contexto em que está inserido, moldando-se tendo em conta aquilo que se pretende num dado momento.

Pode-se, então, depreender que o Modelo de Jogo é uma visão futura do que pretendemos que a equipa manifeste de forma regular nos diferentes momentos do jogo, ou melhor, o jogar que o treinador idealiza para a equipa. Carvalhal (2001) dá o seu contributo afirmando que o Modelo de Jogo constitui- se sempre como o futuro, aquilo que pretendemos alcançar e que estamos constantemente a visualizar, aquilo aonde pretendemos chegar, sendo a ideia de jogo que nos dá as coordenadas para poder trabalhar, para guiar e poder chegar ao nível máximo de jogo.

Como modelo que é, o Modelo de Jogo assume-se sempre como uma conjectura que está sistematicamente aberta a novos acrescentos, pelo que está em contínua construção, nunca sendo um dado adquirido, nem findo (Guilherme Oliveira, 2003a). Por outro lado, estando sempre em reconstrução e em constante evolução, o modelo final é sempre inatingível (Guilherme Oliveira, 2003a).

Assim sendo, temos que ter em conta todos estes aspectos que referimos anteriormente e reconhecer que a construção do Modelo de Jogo é um processo complexo que visa estabelecer um conjunto de orientações, ideias e regras organizacionais de uma equipa, com o objectivo de a preparar para reagir à variedade de situações que surgem durante a competição (Lucas & Garganta, 2002).

O Modelo de Jogo é algo que é definido e construído a partir das ideias sobre o jogo e concepção de jogo do treinador, considerando sempre as características dos jogadores que constituem a equipa e sobretudo o meio

28

ambiente em que estão inseridos, ou melhor, o contexto Específico que sustenta toda essa construção.

2.2.4. O processo de construção de um Modelo de Jogo de uma