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Anchieta, identificando-se com a terra, fazia suas investigações sobre Botânica, Zoologia e a Geografia brasileira. Para tanto se valia da sua inteligência e curiosidade, revestido de uma autoridade invulgar. Uma de suas cartas em São Vicente em 1560, fala sobre a divisão das estações do ano, tal como se dá nos trópicos. Em outra explica a piracema ou a saída dos peixes nas épocas das inundações ou das cheias dos rios, em que os peixes nela são levados aos campos e em tempo de desova ali são apanhados com facilidade. Referia-se a um tipo de pesca chamada pira-iquê (pirakê), quando os peixes entram em lugares de pouca profundidade para desovarem e, os índios, após embriagá-los com timbó – líquido de uma planta jogada na água, os apanhavam.

Por guaraguá ou iguaraguá, segundo Anchieta, é o nome do peixe-boi; sucuriuba ou sucuryuba é a serpente amarela, ou aquela de escamas amarelas, as quais muitas vezes encontrou em suas caminhadas. Aponta o Jesuíta um conjunto de outros termos indígenas, como capyi-uara - capivara; jacaré; jararaca, serpente de bote venenoso; a boieininga, ou cobra que tem chocalho, ou seja, a cascavel; a boipeba: uma cobra cujo corpo é achatado; a boiroçanga, cobra fria, porque sua picada produz no corpo do homem um grande frio.

Anchieta registra entre as aves o guainumbi ou guanumbi: o “pássaro mimoso” que segundo os nativos era mensageiro de outras vidas e que passou a ser designado em língua portuguesa por o “beija-flor”. Guará era uma ave que, ao nascer, tinha as penas acinzentadas e, durante o seu crescimento, essas penas se tornavam brancas

para posteriormente serem vermelhas, na cor púrpura, quando adultas. Esse termo foi traduzido na língua portuguesa por “garça vermelha”. Nhandús são termos que, posteriormente, são traduzidos por avestruz ou emas.

O Jesuíta, em suas cartas, faz referência à medicina indígena por meio da descrição de árvores, frutos, raízes utilizadas para a cura, ou seja, elementos naturais a ipecacuanha ou poaia que significa raiz saudável. Também os demônios que acometiam os índios como o curupira, o boitatá e outros. (CASTRO, 1941).

2.6.1 Os jesuítas educadores

Os jesuítas, em suas tarefas diárias, também se ocupavam em elaborar cartilhas para o ensino das primeiras letras. Esse trabalho era manuscrito, isso devido à falta de livros. Também transcreviam orações e o próprio catecismo, traduzidos em língua geral, de modo que todos aqueles que se candidatassem ao trabalho colonial, na condição de membros da Companhia de Jesus obrigavam-se a conhecer a língua geral: instrumento de doutrinação e meio para o ensino básico. (MORAES, 1979).

2.6.1.1 Os jesuítas e o ensino básico

Faz-se necessário ressaltar ter sido o padre Vicente Rodrigues o primeiro mestre-escola do Brasil, de modo que, após quinze dias de sua chegada, já ministrava a sua primeira aula de ler e escrever. Assim os jesuítas procuravam adequar-se a vida do novo mundo buscando integrar-se à vida cotidiana e se fazer, ao mesmo tempo presentes na vida da comunidade. Dessa forma, logo pela manhã um sino chamava os fiéis à missa e à comunhão, antes que eles tomassem o caminho da roça ou das praias. Era ainda o sino que chamavam os curumins e as cunhãtens, bem como aos meninos reinóes - nascido no reino, mazambos - os estrangeiros nascidos no Brasil,

para as aulas de ler, escrever, contar, rezar e de bons costumes. Nessa acepção, a sala de aula jesuítica era heterogênea, cabendo ao mestre criar um ambiente de simpatia e entendimento entre as crianças tão distintas entre si. (CASTRO, 1941).

Havia dias maiores, em que, jogando com os dois idiomas, tornava-se interessante ver curumins cantando e tangendo instrumentos musicais, a seu modo, faziam suas escaramuças, ou seus motins de guerra com arcos e flechas, pintados de várias cores, mas para louvar a Deus. Os meninos brancos, por outro lado, envolviam- se numa dança de escudos à portuguesa, ao som de viola, pandeiro, tamborim e flauta para entoar cantigas pastoris, tanto na língua indígena, quanto em português e castelhano. Essa prática de docência heterogênea visava a conquistar e a reeducar os pais. Por conseguinte, os jesuítas situavam o ensino além dos processos de catequização, lançavam as sementes da base da educação popular, espalhando a fé, a mesma língua, os mesmos costumes e, começava forjar a unidade espiritual, a unidade política de uma nova pátria.

Esses religiosos, portanto, descobriram no século XVI e aqui implantaram uma modalidade de ensino multicultural, pois entenderam que não poderiam educar povos distintos, com culturas diferenciadas por meio de uma prática unicultural, é necessário buscar meios diferenciados e abrangentes para lidar com culturas diferentes e torná-las homogêneas, esse foi o desafio dos jesuítas. Mas esses ensinamentos se perderam no tempo, de modo a ignorarem as diferentes matrizes culturais que implicam conhecimentos prévios diferenciados para aprendizagem do idioma português. (AZEVEDO, 1963 e CASTRO, 1941).

Mem de Sá em carta redigida em 1560 no Rio de Janeiro, faz referência a escolas em que havia trezentos e sessenta piázinhos, sabendo ler e escrever; logo o modelo pedagógico jesuítico era diferente. Em outro trecho, o governador geral faz remissão à Bahia onde o colégio de jesuítas estava presente em três aldeias, o modelo de ensino se matinha pelo princípio da inter-culturalidade:

Têm nelas suas casinhas, cobertas de palmas,... e também em cada uma ensinam aos filhos dos índios a ler, escrever, contar e falar português, que aprendem bem e falam com graça, ajudar às missas, e desta maneira os fazem polidos e homens. Em uma delas lhes ensinam a cantar e tem seu coro de canto de flautas para suas festas, e fazem suas danças à portuguesa com tamboris e violas, com muita graça, como se fossem meninos portugueses... (SILVA NETO, 1951, p. 34).

Os jesuítas trabalham com as crianças fazendo analogias e correspondências simbólicas entre o mundo cristão e as crenças nativas, do que muitas vezes derivou uma tupinização do catolicismo, ou uma tessitura de um complexo religioso híbrido. Tupã era o deus que, na mentalidade nova do curumim, o jesuíta faria evoluir para Deus cristão, anhangá seria o diabo para um índio já convertido. Assim, os Jesuítas vão traduzindo os valores do cristianismo para aqueles dos pagãos. Desta feita os nativos participavam das festas campesinas à sombra das mangabeiras ou dos jequitibás gigantes. Acompanhavam as procissões, nas danças e nas cerimônias entoavam cânticos ou hinos sagrados junto com os brancos, em língua geral que se tornava língua corrente, bem como durante a missa rezavam o Padre Nosso e a Ave Maria, também traduzidas nessa nova língua, estimulados à prática religiosa pelos jesuítas. (CASTRO, 1941).

O papel das crianças nas escolas primárias foi fundamental para a propagação da língua geral em seus lares, fossem tais escolas fixas ou ambulantes. Estas últimas circulavam com os jesuítas em suas peregrinações pelas aldeias e sertões, divulgando cartilhas, orações, peças de teatro por meio de textos manuscritos, que contribuíram para divulgar a língua geral e propagar a fé cristã na colônia. Observa-se que essa modalidade de ensino tinha por fundamento um plano de Estado elaborado por Nóbrega.

O padre Manuel da Nóbrega - desde que elaborou o plano de estudos em 1536, ano das Constituições da Companhia de Jesus, até sua morte em 1570 - havia

elaborado o ensino, segundo Fávero (2000, p. 89) da seguinte forma:

Aprendizado do português |

doutrina cristã | escola de ler e escrever

|

canto orfeônico | música instrumental ________________|________________

| | aprendizado profissional gramática

e agrícola latina

Ratio= curso de humanidades / curso de filosofia / curso de Teologia Viagem à Europa

Esse modelo de planificação, visando ao aprendizado da língua portuguesa como veículo da cultura e da ideologia cristã, topicalizava a prática da leitura e da redução como eixo fundamental da docência jesuítica. O canto orfeônico e às atividades referentes à música instrumental inseria a musicalidade, respeitada a cultura de cada povo, eram estratégias fundamentadas na aprendizagem. O plano de Nóbrega também privilegiava a formação profissionalizante como as práticas de agricultura, processos de lavrar a terra. Contudo, o português acabou aprendendo com o índio que

a cada cultura a terra deve ser limpa por meio do fogo, de forma que as queimadas passam a integrar a cultura da lavoura. (SERAFIM LEITE, 1938)

Ao colocar o aprendizado da gramática latina na mesma dimensão daqueles referentes aos das práticas profissionais, o Jesuíta concebe a ambas como meios para ensinar a língua e a cultura portuguesa.

Após 1570, houve a necessidade de alterações nesse plano de estudos excluindo-se os aprendizados profissionais, agrícolas e musicais (canto orfeônico e instrumental). Esse esboço de planejamento pedagógico data de 1586, após a consulta de homens sábios e experimentados no ensino, imprimiu-se como manuscrito em 1591, e promulgado depois da impressão definitiva, como lei da Companhia de Jesus, no dia 8 de janeiro de 1599. Nele havia certas ordenações, adaptadas aos diversos países devido às circunstâncias locais. Uma outra esfera de atribuição dos Jesuítas, no campo da educação, instituiu cursos superiores. (SERAFIM LEITE, 1938)

2.6.1.3 Os jesuítas e o ensino superior

O curso de “Letras” implantado no Brasil caracterizava -se por ser um ensino eminentemente literário de base clássica, que constituía o verdadeiro alicerce de toda essa estrutura do ensino jesuítico. Era dividido em três classes: Gramática, Humanidades e Retórica e destinava-se a formar o homem in litteris humanioribus. O curso de Filosofia e de Ciências, também chamado de artes, é dividido em três anos e tinha por finalidade a formação de Filósofo, por meio de estudos de Lógica, Metafísica geral, Matemática Elementar e Superior, Ciências Físicas e Naturais, além da Ética Teodicéia, ou seja, Argumentação Teológica. O aluno candidato ao sacerdócio, além dos dois primeiros cursos, faria o terceiro de Teologia e Ciências Sagradas, existentes

apenas nos seminários maiores e em casas prepostas à formação intelectual dos jesuítas. (SERAFIM LEITE, 1938).

O importante a ressaltar é que a formação intelectual oferecida pelos jesuítas e, portanto, a formação da elite colonial foi marcada por uma intensa rigidez na maneira de pensar e de interpretar a realidade. A formação religiosa era extremada, buscando com isso afastar seus pupilos das influências daquilo que é considerado nocivo. Quanto à formação dos professores, estes somente estariam aptos a ensinar, após os trinta anos, eram selecionados cuidadosamente os livros que exerciam rigoroso controle sobre as questões a serem trabalhadas, especialmente em Filosofia e Teologia.

Os cursos considerados inferiores, Humanidades, tinha por propósito o domínio de uma prática voltada para o estilo literário de autores clássicos. Com essa orientação, a formação da elite colonial adequava -se à política colonial, uma vez que a orientação universal jesuítica era baseada na literatura antiga e na língua latina e, no Brasil, esses cursos eram compostos de quatro séries para assegurar o domínio da gramática e de conhecimentos humanísticos, de modo a propiciar ao aprendiz domínio da expressão exata e clara associada à elegância e riqueza de uso de recursos retóricos, voltados para a persuasão. A complementação desses estudos era feita na metrópole. Desta feita a formação em Direito, Filosofia e Medicina, da grande maioria dos homens graduados do Brasil ocorria na Universidade de Coimbra, conforme aponta a história da intelectualidade brasileira no tempo do Brasil Colônia. (SERAFIM LEITE, 1938).

O privilégio do trabalho intelectual, em detrimento do manual, afastava os alunos dos assuntos e problemas relativos à realidade imediata. A grande parte da população era escrava e iletrada. Para os letrados, o mundo civilizado estava lá fora e servia de modelo para os modos de ser e de agir na colônia. Dessa maneira os letrados acabavam por rejeitar não apenas esta maioria iletrada, excluindo-os das decisões

político-sociais, de maneira a contribuir com a Coroa para exercer o domínio na colônia. Essa atitude mantém o traço de dominação: problema com o qual o Brasil, ainda, convive no século XXI. (SANTOS RIBEIRO, 1998).