Quando os irmãos Sucasas voltaram seu olhar para a Igreja Metodista, vidas foram atingidas. Uma delas foi a de um jovem chamado Anivaldo Padilha. A análise de documentação permite estabelecer a hipótese de que a edição do jornal Unidade enviada ao DOPS pelos irmãos Sucasas tenha feito com que o órgão de repressão da ditadura olhasse com maior atenção para o jovem metodista. Atenção esta que culminaria em sua prisão no início de 1970. A instauração do inquérito aconteceu exatamente um mês depois da provável data de entrada da edição do Unidade no DOPS. A acusação era de que Padilha era membro da “organização subversiva” AP (Ação Popular) 350:
Em 29 set 69 (sic), foi indiciado em Inquérito Policial instaurado pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS/SP), para apurar atividades de militantes da Ação Popular (AP). Foi apurado que o requerente participou de reuniões de caráter político, realizadas na Igreja Metodista, em São Paulo.351
Anivaldo Pereira Padilha era filho de Vivaldo Pereira Cintra, pedreiro, e Ana Padilha Cintra, operária da indústria têxtil. Tinha vinte e nove anos no momento de sua prisão. É mineiro, de São Pedro da União. Era membro da Igreja Metodista da Luz, na capital paulista. Tinha sido diretor do Departamento de Mocidade da JUGEC, presidente da
350 A Ação Popular era um movimento ligado à esquerda católica. Sua atuação se dava através da
conscientização de massas. Anivaldo é apenas um dos diversos casos de jovens metodistas da década de sessenta que, em nome da busca por uma Igreja mais encarnada na realidade nacional, optaram por se aproximar dos movimentos clandestinos de luta contra a ditadura. Outro exemplo mais contundente, mas pouco explorado a meu ver é o de Heleny Telles Guariba. Heleny nasceu em Bebedouro (SP) em13 de março de 1941. Era órfã de pai, sendo criada pela mãe e por uma tia. Era membro da Igreja Metodista Central de São Paulo. Foi professora da Escola Dominical e fez parte da equipe de Cruz de Malta. Extremamente culta, se formou em Filosofia. Fez curso de teatro na então Alemanha Oriental. Foi professora de Cultura Grega na Faculdade de Filosofia da USP, professora da Escola de Arte Dramática de São Paulo e da Aliança Francesa. Quando era ainda casada com Ulisses Telles Guariba Netto (professor de História na USP e filho de um general da reserva) hospedou Carlos Lamarca em sua casa. No final dos anos sessenta, fazia parte da organização clandestina VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), no setor de Inteligência. Em 1969 tentou sair da organização, mas retornou em 1970. Naquele mesmo ano, foi presa em São Paulo e torturada. Solta em 1971, voltou à militância. Foi presa novamente em 12 de julho de 1971, no Rio de Janeiro, vítima do conhecido Cabo Anselmo. Foi torturada na Casa da Morte de Petrópolis e seu nome consta na lista de desaparecidos políticos do Regime Militar. Cf. CARVALHO, Luiz Maklouf. Mulheres que foram à luta armada. São Paulo: Globo, 1998, pp. 107-119 e 413-415. Experiência bastante interessante para o pesquisador que deseja se aprofundar sobre sua trajetória é poder ler seu depoimento, escrito de próprio punho, no Arquivo do DOPS de São Paulo. Coincidência ou não, ele se encontra na mesma pasta do processo de Anivaldo Padilha. Cf. Família 50-z-9, documentos n° 13688 a 13669, pasta 76 do Arquivo do DOPS de São Paulo.
351 Cf. ASSIS, David Bernardes de. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA GABINETE DE SEGURANÇA
INSTITUCIONAL AGÊNCIA BRASILEIRA DE INTELIGÊNCIA. Brasília: 10 de Janeiro de 2001. Cópia de documento pertencente ao arquivo pessoal do senhor Anivaldo Padilha. A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) é a sucessora do antigo SNI (Serviço Nacional de Informações).
Federação de Jovens e era redator da revista Cruz de Malta. Profissionalmente, trabalhava como secretário regional para o Brasil da ULAJE. Cursava o primeiro ano de Ciências Sociais na USP (Universidade de São Paulo). Era um jovem ainda detentor dos ideais do Período de Engajamento da Igreja. A sua história é interessante não só por ter uma participação do velho bispo Isaías Sucasas. Nem só por demonstrar mais uma vez como a Igreja lidou com uma parte de sua juventude na época. Ela é interessante também por que sinaliza o início do fim do Período da Reação Conservadora.
Em fins de 1969, Anivaldo foi procurado por uma jovem cujo “nome de guerra” era Tereza, noiva de Renato Navarro, antigo líder da juventude metodista de Belo Horizonte. Tereza, que era filiada à AP, propôs a Anivaldo a criação de um grupo de membros da Igreja com o objetivo de estudar a situação social do país. Esse grupo acabou sendo formado por Anivaldo Padilha, Fernando Cardoso da Silva (presidente da Sociedade Metodista de Jovens da Igreja Metodista Central), Celso Cardoso da Silva (irmão de Fernando e ex- presidente da Federação de Jovens, membro também da Central), Domingos Alves de Lima (membro da Igreja Metodista Central) e Clara Amélia Evangelista (antiga presidente da Federação de Jovens da IV Região que estava vivendo em São Paulo).
As primeiras duas reuniões se realizaram na casa de Anivaldo, sob a liderança de Tereza. Porém, logo Tereza voltou para Minas Gerais, deixando como substituta “Alice” (“nome de guerra” de Eliana Taddei Bellini ou Eliana Taddei Rollemberg), também participante da Ação Popular. As reuniões lideradas por Eliana se realizaram na casa de Celso, pois Anivaldo partira em viagem para a Argentina, Chile, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
Em 28 de fevereiro de 1970, ao retirar um pacote, acompanhado de Eliana, na casa de um tio de Celso e Fernando, Anivaldo foi detido pela Oban (Operação Bandeirantes):352
Resumo das declarações prestadas por Anivaldo Pereira Padilha à Equipe de interrogatório preliminar “B1” no dia 1° de Março de 1970 às 18.55 horas... 4- Declarou o seguinte: ... que no sábado pela manhã, dirigiu-se em companhia de ELIANA, à casa do tio de Celso, à rua São Martinho, n° 116 para apanhar o pacote, quando foram presos...353
352 A Operação Bandeirantes foi uma organização surgida em 1º de julho de 1969, em São Paulo com o objetivo
de eliminar as organizações de esquerda. Foi patrocinada por banqueiros e empresários. Ela era formada por agentes da Polícia e das Forças Armadas. Porém sua liderança cabia ao Exército. A especialidade da Oban era a captura e o interrogatório de supostos subversivos. Este interrogatório por vezes incluía (embora de forma não assumida publicamente) a tortura. Os objetivos da Oban foram plenamente atingidos, levando o regime a instituir órgãos semelhantes, agora com outro nome: DOI – CODI (Destacamentos de Operações de Informação- Centros de Operações de Defesa Interna). Cf. JOFFILY, Mariana. Os Homens do Porão. Revista de História da Biblioteca Nacional Rio de Janeiro, n° 27, pp. 70-72, dezembro de 2007.
Os irmãos Cardoso foram presos no mesmo dia, em sua casa:
Resumo das declarações prestadas por Fernando Cardoso da Silva à Equipe de Interrogatório preliminar “B1” no dia 1° de março de 1970 das 13.30 às 16 horas. 1- Filiação- Abiezer Bento da Silva e Hermínia Cardoso da Silva 2- Residência- Rua Siqueira Campos n° 252, apto. 54 3- Local da prisão: sua residência...354
Clara Amélia e Domingos conseguiram fugir. O depoimento do pai de Domingos confirma a conhecida história da reunião de jovens na Central invadida pelos agentes da OBAN:
... 4- Declarou o seguinte:... que soube, no domingo, ter seu filho fugido da Igreja quando percebeu a chegada da polícia, que depois disso não soube do seu paradeiro...355
Porém, como foi dito no início deste tópico, a história de Anivaldo Padilha pode ser vista como um sinal do início do fim do Período da Reação Conservadora. Um sinal, aliás, bastante doloroso. O jovem metodista foi barbaramente torturado durante três meses. Ficou outros seis incomunicável na OBAN. A Igreja começou se sensibilizar:
“Houve um grande setor da Igreja que teve simpatia pelo meu caso. O Colégio de Bispos foi várias vezes me visitar na OBAN, minha família recebeu solidariedade e houve igrejas que, nas reuniões semanais de oração, sempre se lembraram do meu nome, obedecendo aos ensinos dos apóstolos. Tiago dizia: “Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. ” 356
Depois de quase um ano, Anivaldo Padilha foi libertado por falta de provas. Partiu para o exílio, só retornando com a anistia em 1979.
A prisão acabou mostrando a boa parte da Igreja que todos corriam risco. Seus próprios filhos começaram a ser atingidos. Era o início do fim.
Estranhamente, a referência a fatos tão marcantes ocorridos na Igreja Metodista Central de São Paulo são narrados de maneira bastante resumida nas páginas do diário do velho bispo.
também Família 50-z-9, documento 13766, pasta 76 do Arquivo do DOPS de São Paulo.
354 Cf. Família 50-z-9, documento n° 13780, pasta 76 do Arquivo do DOPS, São Paulo. 355 Cf. Família 50-z-9, documento n° 13753, pasta 76 do Arquivo do DOPS, São Paulo.
356 Cf. LESSA, Roberto Themudo. Anivaldo Padilha - Um metodista em Genebra. Expositor Cristão, São Paulo,