A dor – um convite para o Sim
Estamos familiarizados, em Psicanálise e em Psicologia, de maneira geral, a entender o termo fixação como um recurso psíquico que denota dificuldade de seguir adiante. No senso comum, para nos referirmos a esse sentimento, usamos a palavra “apego”. Apego a uma idéia, a um lugar, a uma pessoa ou ao que quer que seja, que nos impede de estar qualitativamente “presentes” no mundo.
Presença, no sentido heideggeriano, diz de uma qualidade de presença que não é
impessoal. Segundo Heidegger (1993), quando, freqüentemente, dizemos “eu”, estamos falando do que não somos, pois, na ausência de uma sensorialidade sensciente, que, em silêncio, contacta o clamor do si-mesmo, resta apenas uma presença de-cadente, como qualifica esse autor.
A presença decadente é “uma presença que, quando diz ‘eu’, tem a tendência de se compreender a partir do mundo das ocupações” e que “passa por cima do conteúdo
fenomenal da pré-sença” (Heidegger, 1993, p. 116. Destaque meu).
As fixações, sejam elas escolásticas ou emocionais, os apegos, enfim, cortam-nos do fluxo da vida, do numinoso. Por vezes, somos salvos desse estado límbico, dessa
presença decadente, quando, no limite do afastamento da fluidez no curso da vida, uma
dor nos toma. A dor, o desconforto, pode, então, ser manifestação, sinalização, denúncia
do corpo que aponta nossa negação, nossa recusa em dizer um verdadeiro “sim à vida”,
no sentido de não conspurcar esse clamor da presença, que clama, por si mesma, seu modo
Quando, pelo apego, negamos os dados de uma situação, estamos, de certa forma, isolando-nos. Algo em nós se fecha por essa negação; separa-se, fixa-se, e nos corta do fluxo da vida. Mantemo-nos agarrados à margem do Rio, do Rio Amarelo, do Rio da Vida. Estamos ainda dentro do Rio, mas não nos deixamos mais banhar em suas águas e seguir no fluxo, pois nos tornamos impermeáveis e enrijecidos.
Uma parte separada, uma fixação que não conseguimos integrar, parece levar, após um longo processo de racionalização e enrijecimentos, ao sofrimento e à dor. Ao longo de nossa vida, no entanto, construímos muitas negações, muitos lugares separados, muitas fixações.
A dor, quando se manifesta como fenômeno sensível-sensciente, como sintoma e sinal, pode ser um convite para iniciarmos o caminho de volta, o caminho em direção à reintegração na realidade essencial do Ser, à reintegração no fluxo da vida. Quando a dor se manifesta, quando o sofrimento é percebido como dor, podemos dizer que o processo de reintegração da “parte separada”, da “fixação”, está querendo começar.
Estruturalmente, o adoecimento – e aqui delimito o adoecimento que se circunscreve a determinadas escolhas existenciais – provém de uma fixação. Algo que não conseguimos digerir ou realizar e que nos corta o acesso ao presente vivo em nós.
Como o sensível nasce da relação entre o Ser e o Mundo, é o sensível que pode nos contar sobre essa relação a cada instante. Inicialmente, o sensível é fruto da subjetividade: somente o indivíduo pode encontrá-lo e nomeá-lo. Ele é totalmente incontestável, e, segundo Resseguier (Transmissão oral, 1991), essa é uma das primeiras manifestações do que a Filosofia Chinesa, em particular, denomina “o real”. Somente o sensível pode manifestar o instante vivo em nós (Heidegger, 1993).
Merleau-Ponty (1999, p. 227.), ao comentar sobre um caso de afonia, fala-nos sobre o que se poderia considerar uma visão essencial do corpo nos processos de adoecimento. Diz:
Se o corpo pode simbolizar a existência, é porque a realiza e porque é a sua
atualidade. Ele secunda seu duplo movimento de sístole e diástole. Por um
lado, com efeito, ele é a possibilidade para a minha existência de demitir-se de si mesma, de fazer-se anônima ou passiva, de fixar-se em uma escolástica. Na doente da qual falávamos, o movimento para o futuro, para o presente vivo ou para o passado, o poder de amadurecer, de entrar em comunicação com outros como que se travaram em um sintoma corporal, a existência amarrou-se, e o corpo tornou-se o “esconderijo da vida” (Destaque meu).
Em seguida, continua descrevendo magistralmente como uma fixação nos corta
do fluxo da vida: “Para o doente, não acontece mais nada, nada adquire sentido e forma
em sua vida – ou mais exatamente, ocorrem apenas ‘agora’ sempre semelhantes, a vida reflui sobre si mesma, e a história se dissolve no tempo natural” (1999, p. 227).
Reforçando a idéia de sístole e diástole, de um abrir-se e um fechar-se para a vida, possibilidade sempre presente em nós, Merleau-Ponty (1999) afirma que, mesmo o corpo de um sujeito normal conserva o poder a cada instante de esquivar-se. Em pleno engajamento no mundo, um sujeito pode recolher-se à sua vida anônima e fundir-se a uma dor ou a um prazer.
Justamente porque pode fechar-se ao mundo, meu corpo é também aquilo que me abre ao mundo e nele me põe em situação. O movimento da existência em direção ao outro, em direção ao futuro, em direção ao mundo pode recomeçar, assim como um rio degela (Merleau-Ponty, 1999, p.228. Destaque meu).
O corpo pode se tornar o esconderijo da vida, quando me fecho, ou pode me abrir para a vida, quando me abro. Como a vida luta pela vida, a dor pode ser uma tentativa de sinalização da própria vida, que diz: reintegre-me ao fluxo do Rio. Mas, como o homem tem um diferencial, tem uma “liberdade livre”, como o diz Kant (1997) – o que significa que o homem, além de estar submetido às leis naturais, pode criar suas próprias leis – temos, por essa “liberdade livre” do homem, o poder de recusar, o poder de nos fecharmos ao apelo da vida, ao apelo da dor.
Esse corpo sensível-sensciente, esse corpo fenomenal, expressa a realidade da relação homem-mundo presentificada. O passado, que não é passado quando ainda se encontra presentificado, parece registrar no corpo todos os momentos que não se fecharam, que não se concluíram, que não se completaram. O corpo manifesta (não só em sua forma anátomo-fisiológica objetiva ou física, mas, principal e inicialmente, em sua forma anátomo-fisiológica fenomenal ou sensível) nossa história. Segundo Merleau-Ponty (1999), não é um passado que se projeta no presente, mas um presente que desdobra um passado.
A possibilidade do encontro com o corpo na modalidade sensível dá-nos, então, a relação atual do Ser-no-mundo. Somente o encontro com o corpo sensível-sensciente nos dá um corpo em situação. Não o que eu fui, ou o que serei, mas o que sou aqui, agora, na
vigência total do momento presente. O encontro com o corpo sensível poderá descongelar
as fixações, e estas, uma vez degeladas, permitirão reconquistar a possibilidade de ser simplesmente o que sou e poder escolher por mim mesmo.
Mais notavelmente ainda no corpo que eu sinto do que no corpo objetivo ou físico é que essa história é contada. É no corpo de percepção que ela pode ser lida em sua atualidade, presentificando os danos que surgem quando referências exteriores, fixações
escolásticas, dirigem-nos sem sincronia com o Ser, fazendo terreno propício para nos
congelarmos, adoecendo-nos.
Os danos provindos desses congelamentos vão se estruturando e dificultando, a cada vez, nossa implicação mais plena nos atos da vida (Resseguier, Transmissão oral, 1991). Partes separadas, negações que não conseguimos integrar e que continuam presentificadas em nós, desenhadas em “lugares-espaço-temporais” de nosso campo vital,
manifestadas em registros de nossos corpos-sujeitos-fenomenais, comparecem. Nos
tecidos de nosso corpo fenomenal, a continuidade pode ser rompida. Podemos apresentar “fendas” no corpo sensível além das formalmente conhecidas no corpo físico.
A acumulação de meios atos em nossa vida, atos em que não estamos implicados, parece criar uma “interferência”, que descentraliza nossa relação com o Ser. Uma presença “vaga”, sem implicação, sem cumplicidade, vai criando, a partir do limite, um sentimento de incômodo. Nossos atos perdem a possibilidade de espontaneidade e se tornam atos
calculados, cheios de ansiedade, cargas e antecipações, que reforçarão ainda mais a
ruptura entre o Ser e sua manifestação no Mundo. A existência, que co-nasce a partir da presença do sujeito da percepção e nos capacita a estar em situação, perde sua força.
Cortados do noúmenon (que é o fundamento de todos os aspectos formais, isto é, fenomenais de nossa vida), o espírito, que se faz presente no sujeito da percepção,
ausenta-se, como afirma Merleau-Ponty (1999). Sem suficiente contato com o sensível,
com esse noúmenon, com esse pano-de-fundo essencial, com esse fogo primitivo, a vitalidade de nossa vida diminui.
Porém, se o contato com esse noúmenon, com essa chama de vida, com essa terra natal não se perde, se o sujeito da percepção está forte e presente para ouvir o Ser, não me fixo em escolásticas, não me esfrio. Se a vida está forte em mim, posso deixar as coisas passarem, não preciso eliminar a morte, empurrá-la sempre mais para lá.
O eterno feminino – a sabedoria – manifesto, sobretudo, nos sentidos da sensação,
sensação interna e fome interna – está, porém, há muito desacreditado. Essas qualidades
não pertencem ao pólo lógico de uma racionalidade linear, portanto não podem ser
capturadas por enquadramentos totalizantes. Não estranhamente, a crise da Modernidade
exprime-se, cada vez mais, como uma falta de sentido. Sentido como direção e significado. Sentido como capacidade de sentir, de poder, sem ameaça, testemunhar a partir de
dentro.
Como sobejamente nos mostra Baudrillard (1976), vivemos uma era produtora de signos esvaziados, isto é, sem lastro no “real”, que se comutam indefinidamente. Vivemos obsedados pelo simbólico com signos já carregados de significação. É a era regida pelo código devorador do vivo, em que, por comutações infinitas, vivemos seu simulacro.
Por estarmos cada vez mais fixados em “ismos” de todo o tipo a nos roubar a fluidez, o estresse e a depressão comparecem como fenômenos comuns em nossa vida. Nacionalismos partidarismos, companheirismos, todos os “ismos”, enfim. Por outro lado, o uso crescente de drogas (legais e ilegais) pode ser a sinalização da necessidade urgente de resgatar o contato com o sensível, com o numinoso. As drogas provocam notável intensificação dos sentidos. São, evidentemente, uma via nefasta para esse resgate. Seu crescente consumo, porém, pode ser lido sob essa ótica.
Mediante o desequilíbrio produzido pela desarmonia entre nossa porção dionisíaca e nossa porção apolínea, não deveria causar estranheza que, em nossos encontros com o corpo sensível, com o “corpo como o sinto”, este se nos revele com uma anatomia surreal.
Nas palavras de Merleau Ponty (2000, p. 320):
Nessa camada originária do sentir que recuperamos sob condição de
coincidir verdadeiramente com o ato de percepção e de abandonar a atitude
crítica, vivo a unidade do sujeito e a unidade intersensorial da coisa, eu não
A dor e o adoecimento podem, então, ser a manifestação de um limite no corte do contato com o sensível. Se a fixação, se “a parte separada” me corta do enraizamento da vida, a dor, como um sensível difícil de ser ignorado, convida-me a reconsiderá-lo.
Desenraizados do vivo, porém ainda vivos, vivemos. Mas uma vida feita por contratos. Podemos até continuar mortos-vivos, movendo-nos de cá para lá, com nossos corpos físicos enquadrados pelos ditames exteriores. Mas nossos corpos sutis se deformam, pois o sabor que funda o saber da vida, possivelmente, já se terá ido. E se nos permitirmos uma pequena escuta do Ser, descobriremos que o realmente difícil e insuportável é manter