olfato está impregnado com o aroma do podre. Seu cheiro é azedo; suas unhas, imunda; e sua barba crespa e falhada é suja.
Ana Paula Maia, em O trabalho sujo dos outros
Manuel da Costa Pinto (2004), ao introduzir o livro intitulado Literatura brasileira hoje, fala da dificuldade e do risco de se apresentar um panorama da literatura brasileira contemporânea, já que o surgimento e a repercussão de novos autores e obras estão tornando-se cada vez mais imediatas. Em vista disso, alerta que entre os sessenta autores que seleciona para o seu livro haverá contradições e formas de desenvolvimento únicas e, por isso, diferentes umas das outras, mas que, mesmo assim, possuem um campo de força comum, “ou seja, aponta para certas tendências ou dicções presentes em outros escritores, cujo número ultrapassa em muito os 60 capítulos aqui dispostos” (PINTO, 2004, p. 11).
Ao se referir, mais especificamente, à prosa brasileira, o autor aponta como seu campo de força o fato de essa produção estar pautada em um solo urbano, alertando, porém, que embora haja uma afinidade temática, não há uma homogeneidade nos estilos, visto que a liberdade individual do autor, proveniente de sua condição como sujeito moderno, permite a criação de “formas literárias que transitam entre os registros memorialístico, realista, metafísico, escatológico, fantástico e satírico” (PINTO, 2004, p. 84).
Ampliando essa questão, trazemos também os questionamentos de Beatriz Resende (2005) sobre o que seria a literatura recente da América Latina. Em um contexto de rápida e global circulação de conhecimentos pela via tecnológica, as fronteiras de alcance de uma produção podem ser rompidas se disponibilizadas em sites ou blogs, mesmo que sua aquisição seja fisicamente impossibilitada em determinados casos. Além disso, o crescimento das cidades sem uma melhora significativa nas condições sociais faz com que a questão urbana seja um tema recorrente nas narrativas. Mudanças como essas no cenário recente nos coloca diante de uma literatura latino-americana múltipla, com características próprias, ainda que nem sempre comuns aos diferentes autores:
Pluralidade, fertilidade e diferentes possibilidades de inovar vêm marcando a produção recente em todos os países da América Latina. De saída, se pode constatar que, ao falar de
América Latina e de latino-americanismo, estamos falando de identidades plurais, múltiplas, flexíveis, contraditórias por vezes. (RESENDE, 2005, p. 09)
Diante da multiplicidade de produções literárias, conforme apresentado anteriormente, não se pretende aqui chegar a uma padronização do que seria a narrativa recente, caracterizá-la ou mesmo esgotar as interpretações dos livros de Ana Paula Maia, mas analisar como, nas cenas selecionadas de sua obra, esse solo está indissociavelmente vinculado às figurações de corpo e à constituição de um homem-refugo/animal, o que nos remete a uma comparação inevitável com o que encontramos em Trilogía sucia de La Habana.
Assim como Pedro Juan Gutiérrez, Ana Paula Maia também possui uma espécie de
ciclo narrativo do refugo urbano, no qual relata o dia-a-dia de pessoas que lidam com profissões incomuns no universo literário e que, por trabalharem com aspectos mais sujos da sociedade, como o lixo, o esgoto e as vísceras de porcos, gados e corpos humanos, são invisibilizados por aqueles que dependem destes trabalhadores, mas desviam seu olhar quando os encontram.
A trilogia “Saga dos brutamontes” é constituída pelas novelas Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (2009) e O trabalho sujo dos outros (20091), ambas publicadas em um mesmo volume, e pelo romance Carvão animal (2011). Apesar de não fazer, oficialmente, parte da saga, De gados e de homens (2013) também traz a vida bruta do humano/animal ao narrar o cotidiano de Edgar Wilson, que lida constantemente com o sangue e as vísceras do gado que abate.
Com uma linguagem menos direta e crua32 do que a utilizada por Pedro Juan, a pornografia e a violência em Ana Paula Maia se constituem a partir da presença destes personagens que se embrutecem como resultado de seu contato com a sujeira e os refugos da cidade, transformando-se eles próprios em refugos humanos, como a própria autora indica em uma entrevista ao Jornal Rascunho (2011):
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A agressividade amena em sua escrita, se comparada a outras do mesmo período, e o valor que dá à amizade entre seus personagens faz com que alguns autores considerem sua obra como um retorno ao Humanismo/Romantismo do século XIX. Porém, como o foco desta pesquisa é a relação entre o corpo dos personagens e seu ambiente de trabalho, assim como os processos de animalização provenientes desse contato, o retorno ao sentimentalismo não será aqui enfocado.
Não estou interessada nisso, em bandido, em pivete. Estou interessada em uma outra violência, que é muito pior porque é gerada por trabalhos e profissões que as pessoas precisam ter. Alguém tem que recolher o lixo, abrir o asfalto, desentupir o esgoto. O cara tem que meter a mão ali no esgoto, sentir o cheiro, desentupir. Alguém tem de fazer o trabalho sujo. Trabalho nessa dimensão de violência, de brutalidade. (MAIA, 2011)
A escolha por esse tipo de violência faz com que sua obra se aproxime de uma pulp fiction, não como um gênero literário, mas uma forma de escrita. Sergio Fanjul (2012) explica que o termo surgiu nos Estados Unidos, na primeira década do século XX para designar revistas populares e baratas destinadas às classes médias e baixas escritas em papel igualmente barato, feito de polpa de celulose, material que teria dado origem ao termo pulp. Feita para ser lida e descartada, essa produção trazia “Monstruos de múltiples ojos, rudos detectives infalibles y alcohólicos, indios y vaqueros, tórridos romances imposibles, (...) y así hasta donde abarque una imaginación desbocada” (FANJUL, 2012).
Mais tarde, começaram a receber o rótulo de pulp as obras que davam mais destaque para a ação do que para a experimentação estética, trazendo personagens sem complexidade, cujos músculos são mais valorizados do que o cérebro. Com essa perspectiva, eram apresentados casos de tortura, escravidão sexual, drogas, violência exagerada, temas considerados politicamente incorretos em outros contextos. Na Espanha, segundo Franjul (2012), produções deste tipo eram duramente criticadas pelo governo e por parte da população por conter erotismo e violência desmedidos.
Ricardo Barberena (2012) relaciona o rótulo de pulp dado à escrita de Ana Paula Maia à polpa de sangue, vísceras, bichos, violência e dejetos apresentada em suas narrativas. Em lugar desses monstros que provocam escândalo, Ana Paula Maia trabalha com os invisíveis monstros cotidianos das profissões relegadas aos que habitam uma franja de infra-humanidade.Na primeira novela da “Saga dos brutamontes”, o contato constante com as entranhas dos porcos abatidos faz com que a morte se banalize para Edgar Wilson e seu amigo Gerson, perdendo-se a distinção entre a polpa humana e animal. Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos apresenta uma cena33 em que o rompimento entre essas duas fronteiras se debilita claramente.
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Apesar de utilizar o termo “cena”, ressalvamos que “o caso do rim” ocupa em média dez páginas da
narrativa, mas não de forma contínua. A narrativa dos fatos vai desde o comentário sobre a necessidade de um rim novo, no começo da novela, até o desenlace sangrento e grotesco, já no final da obra.
Gerson está doente e precisa de um transplante de rim, mas não, necessariamente, de alguém desconhecido. Edgar Wilson sugere que o amigo resgate o rim que deu à irmã, a qual, por estar com câncer, não precisará dele por muito tempo. Os dois dirigem-se à casa de Marinéia, atual portadora do rim, solicitando-o de maneira tão naturalizada e carente de ênfase que a devolução do rim é reivindicada juntamente com um pedido para usar o banheiro. Na sequência, após anestesiá-la com um soco no maxilar, os dois começam a operação-resgate ao som de música sertaneja. Procurando sempre aproximar o processo operatório ao de abrir porcos, com o qual está acostumado a lidar diariamente, Edgar retira o rim junto com outros dois órgãos e Gerson os guarda em uma bolsa térmica. Mais tarde, ocorre a ação que concretiza a indistinção entre a polpa humana e animal: seu pai come o rim com cebolas, pensando ser um fígado de boi. Essa confusão ocorre também em Trilogía sucia de La Habana, quando várias pessoas comem, sem saber, fígados humanos roubados de cadáveres e vendidos como se fossem fígados de porcos.
Para Ricardo Barberena (2012), cenas como essa exemplificam a animalização do humano, visto que as ações de retirar órgãos humanos ou vísceras de animais são colocadas lado-a-lado, sem uma diferenciação clara entre elas:
O destrinchar dos porcos não se mostra distante das lacerações e profanações do corpo humano. Rasgar a carne da irmã é imprescindível. Digerir o rim do filho (e da filha) com cebolas é um mero descuido. O desossar dos porcos, dos cães e das pessoas estabelece uma perigosa vertigem na qual as lascas mutiladas se intercambiam sem que haja uma hierarquização entre os pedaços-do-humano e os pedaços-do-animal. (BARBERENA, 2012, p. 20)
Com a banalização da violência, tornam-se normais condutas como as representadas, que seriam brutais em outros contextos, mas que, na narrativa, são apenas “uma pasta de fígados, rins, tripas, porcos, pessoas” (BARBARENA, 2012, p. 20).
Paulo André Correia (2011) levanta a hipótese de que a exposição de sangue e vísceras na obra de Ana Paula Maia funciona também como “forma de revelar ao mundo higienizado seu lado sujo, escondido sob o véu da artificialidade” (CORREIA, 2011). Considerando tal proposição, podemos comparar o fazer narrativo da autora com o trabalho de revolvedor de merda, com o qual Pedro Juan se identifica, pois também ela adentra os espaços e temas mais incômodos para uma sociedade que se pretende civilizada.
Enquanto o autor do Ciclo Habanero o faz, principalmente, a partir de uma linguagem dura e do destaque dado ao sexo e à excreção em uma cidade em crise econômica e marcada pela extrema miséria, a escritora dos brutamontes o realiza através da exposição das vísceras, do sangue e do cheiro, dando protagonismo àqueles que limpam a imundície da qual todos querem livrar-se. Embora em lugares diferentes (o edifício de Centro Habana e os matadouros, p. ex.), ambos apresentam elementos do baixo corporal e aspectos desdiferenciantes que, por remeterem a uma pura existência biológica, podem fazer com que as fronteiras entre o humano e o animal praticamente desapareçam.
Para analisarmos esse processo em Ana Paula Maia, foram selecionadas as novelas
O trabalho sujo dos outros (2009) e De gados e de homens (2013), nas quais a autora da um particular destaque para dois espaços comumente esquecidos ou pouco mencionados em produções literárias: o depósito de lixo e o matadouro de gado bovino, nos quais trabalham, respectivamente, Erasmo Wagner e Edgar Wilson, semelhantes não apenas nas iniciais de seus nomes, mas também na forma como são vistos (ou melhor, não são vistos) pelas pessoas que os cercam.
Essas duas ilhas, assim como as profissões referentes a elas, podem ser colocadas em uma posição de dupla impossibilidade de existência, tal como Maingueneau (2010) posiciona a própria literatura pornográfica: todos sabem que elas existem porque o lixo é recolhido e as carnes já estão devidamente mortas e cortadas quando chegam até nós, mas, ao mesmo tempo, ambas estão na linha da inexistência por serem constantemente invisibilizadas, ocultadas, afastadas dos olhares daqueles que evitam ao máximo cruzar com/por elas.
Separado em diversas seções, o abatedouro do fazendeiro Milo é descrito como um ambiente fétido e respingado de sangue. No curral, o gado recebe uma dieta especial à base de água e, após banho e inspeção, é levado a um corredor onde aguarda em fila para entrar, um de cada vez, no boxe de atordoamento. Neste lugar, levará uma marretada na fronte para ser removido já desmaiado à sala de degola e sangria, local em que será suspenso e degolado antes de ser transferido ao setor de triparia e bucharia, do qual sairá limpo e esquartejado para ser enviado às fábricas de hambúrguer e frigoríficos.
Além desses espaços, há quatro outros locais importantes para o funcionamento do abatedouro do Seu Milo: o escritório, ao lado do setor de bucharia, o alojamento onde os funcionários aguardam o próximo dia de trabalho, um improvisado crematório para incinerar os animais que não passam pela inspeção ou que morrem ainda no curral, o setor de graxaria, onde os produtos que não servem ao consumo humano são processados e transformados em farinha e o Rio das Moscas, onde são jogados os restos não aproveitáveis e para onde escorre o sangue dos animais abatidos. Em todos esses espaços observamos o mesmo debilitamento da fronteira que separa o humano do animal, mas isso se mostra de maneira mais clara no alojamento onde permanecem confinados os trabalhadores:
Ambos os confinamentos, de gado e de homens, estão lado a lado, e o cheiro, por vezes, os assemelham. Somente as vozes de um lado e os mugidos do outro é que distinguem homens e ruminantes. (MAIA, 2013, p. 20).
Assim como o local de trabalho de Edgar Wilson, que se estende para além dos muros do abatedouro, o de Erasmo Wagner tampouco se restringe ao depósito de lixo. Ele se constitui do aterro sanitário, onde serão postos os resíduos processados ou não pela esmagadora do caminhão de coleta, o próprio caminhão que leva os funcionários e o itinerário, que pode se ampliar caso haja a necessidade de se cobrir alguma outra área.
Os estudos de Bauman (2005) indicam claramente a importância da produção e da eliminação de refugos para a sociedade moderna, na qual um novo projeto só pode ser posto em prática quando os dejetos do anterior são completamente eliminados, posto que “o novo não pode nascer a menos que algo seja descartado, jogado fora ou destruído” (BAUMAN, 2005, p. 31). O próprio Erasmo Wagner reconhece a importância de sua profissão para o bom desenvolvimento da sociedade e teme que, sem a coleta de lixo, a cidade se torne um caos sem controle.
No entanto, retomamos aqui a ideia de dupla impossibilidade de Maingueneau (2010), pois se sabe que o lixo existe, mas são inúmeras as estratégias criadas para que sua existência jamais seja percebida:
Removemos os dejetos da maneira mais radical e efetiva: tornando-os invisíveis, por não olhá-los, e inimagináveis, por não pensarmos neles. Eles só nos preocupam quando as defesas elementares da rotina se rompem, e as precauções falham (...). O refugo é o segredo sombrio e vergonhoso de toda produção. De preferência permaneceria como segredo. (BAUMAN, 2005, p. 39).
Parece uma contradição, mas ao mesmo tempo em que a passagem do caminhão de lixo incomoda pelo forte cheiro de podridão, a falta dele traz um incômodo ainda maior. Expor os dejetos, para cuja ocultação criou-se todo um mecanismo complexo a fim livrar a população de seu contato e destiná-lo aos longínquos depósitos ou aterros sanitários, é o princípio de um processo caótico que pode dominar toda a cidade. Elemento obsceno (a ser mantido fora de cena), o lixo ganha espaço na mídia apenas se lhe houver sido dada alguma utilidade, através do processo de reciclagem, quando o cheiro dos aterros sanitários invade domicílios ou, especialmente, quando há uma greve dos trabalhadores dessa área. Basta lembrar-se do que ocorreu em março de 2014, quando, logo após o Carnaval, uma das datas mais propícias ao acúmulo de lixo, houve uma paralisação dos garis na cidade do Rio de Janeiro com duração de oito dias, tempo o suficiente para a notícia virar manchete em jornais e revistas do Brasil e na imprensa internacional.
No livro de Ana Paula Maia, ocorre algo semelhante. As condições trabalhistas são péssimas. Se um caminhão quebra, outro precisa fazer a coleta em seu lugar sem que haja o recebimento de hora extra pelo trabalho dobrado. O valor do adicional de insalubridade é quase insignificante, e se algum funcionário for afastado por acidente de trabalho é esquecido como o lixo que recolhe. “Não importa sua cor, seu cheiro, seu paladar. Não importa o que pensa, deseja, planeja ou sinta. O que importa é que recolha o lixo, leve-o para bem longe e desapareça junto dele.” (MAIA, 2009, p. 103).
Erasmo Wagner, assim como outros de profissões semelhantes à sua, está inserido em uma categoria denominada por Bauman (2005) como refugo humano. Seres excessivos
e redundantes como ele são incômodos e sua eliminação não traz nenhum prejuízo aos demais. Eles podem ser, a qualquer momento, substituídos por outros, que também se tornarão dejetos:
Ser “redundante” significa ser extranumerário, desnecessário, sem uso. (...) Os outros não necessitam de você. Podem passar muito bem, e até melhor, sem você. Não há uma razão autoevidente para você existir nem qualquer justificativa óbvia para que você reinvidique o direito à existência. (...) “Redundância” compartilha o espaço semântico de “rejeitos”,
“dejetos”, “restos”, “lixo” – com refugo. (BAUMAN, 2005, p. 20).
Erasmo Wagner sabe que as pessoas estão mencionando sua classe de trabalhadores não porque reconhecem sua importância, mas porque querem se livrar do lixo que as
rodeia, mas que, no fundo, eles próprios são refugos humanos como tantos outros. Em uma das ruas em que recolhe o lixo, deixaram um saco preto com um menino morto, mal costurado com nylon, indicando que seus órgãos foram roubados. Um menino que fora esquecido e desprezado como dejetos que não possuem mais nenhum tipo de utilidade:
Esta cidade atinge a todos: aos meninos, às mulheres, aos órfãos, aos velhos. Esta cidade não faz exceção. Tudo se transforma em lixo. Os restos de comida, o colchão velho, a geladeira quebrada e um menino morto. Nesta cidade tenta-se disfarçar afastando para os cantos o que não é bonito de se olhar. Recolhendo os miseráveis e lançando-os às margens imundas bem distantes. (MAIA, 2009, p. 113)
Edgar Wilson também percebe que pessoas como ele podem ter o mesmo fim que o gado que ajuda a abater. Para fazer uma cobrança em uma fábrica de hambúrguer, ele precisa, a pedido de Seu Milo, deixar Zeca em seu lugar como atordoador, embora saiba que Zeca é alguém que “gosta de ver o animal sofrer. Gosta de matar” (MAIA, 2013, p. 12). Ao voltar da missão de cobrança, Edgar Wilson se sente incomodado ao vê-lo destroçar a cabeça do animal a marretadas. À noite, quando todos já foram dormir, Edgar acerta a fronte do atordoador substituto com sua própria ferramenta de trabalho, faz o sinal da cruz, enrola seu corpo morto em um cobertor e, “no fundo do rio, com restos de sangue e vísceras de gado, é onde deixa o corpo de Zeca” (MAIA, 2013, p. 21). Nenhum parente, amigo ou conhecido procura por ele.
Conhecido como o Rio das Moscas, ele é uma representação evidente da mescla humano-animal. Avermelhado devido ao derramamento diário de grande quantidade de sangue do gado abatido, ele une os restos destes animais ao de homens que, ali jogados, misturam-se ao sangue e vísceras animais atiradas no rio, tornando-se apenas mais um elemento indistinto na massa de dejetos ali derramados.
Após um tempo, Seu Milo encontra Zeca, mas ele continua esquecido como os restos do gado que não são mais aproveitáveis, o lixo que é colocado para fora de casa ou o menino morto que, sem os seus órgãos, já não possui serventia. “É nesse rio que todos os matadouros da região lançam as toneladas de litros de sangue e resíduos de vísceras de gado.” (MAIA, 2013, p. 14). A cidade, tal como se configura no texto de Ana Paula Maia, é um espaço da indistinção entre o humano e o animal: “Em lugares onde o sangue se mistura
ao solo e à água é difícil fazer qualquer distinção entre o humano e o animal.” (MAIA, 2009, p. 113)
Não é apenas na condição de dejeto humano que Erasmo Wagner se encontra. Barberena (2012) afirma que ele, assim como os outros personagens dessa novela, vive como um homem-rato, que sobrevive dos restos ao complementar sua renda com a venda de dejetos que somente tem serventia para pessoas como ele, os roedores, cães e urubus, o que nos coloca diante de “um assustador paralelismo entre o humano e os ignóbeis animais” (BARBERENA, 2012, p. 22). O mau cheiro e a imundície, que se alastram na cidade por conta de uma greve dos responsáveis pela coleta do lixo, agravam ainda mais a situação, fazendo com que ratos, urubus, habitantes e dejetos compartilhem o mesmo espaço, rompendo-se as fronteiras entre o lugar do lixo, dos animais e dos homens.
Da mesma forma, como vimos acima, o cheiro que emana do gado, no abatedouro