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Samisk utmarksbruk i Gáranasvuotna/Ramfjorden

Nesse último capítulo será apresentada uma leitura da obra A morte de Danton de Büchner inserindo a categoria do tempo. Sendo essa ao mesmo tempo em que é uma categoria filosófica, trata-se também de uma categoria figurada na literatura. A avaliação a qual se chega aqui é a de que a figuração realista do tempo em A morte de Danton revela uma antinomia da ideologia cotidiana na modernidade, e uma das características dessa antinomia é a própria dificuldade de compreensão do tempo; em outras palavras, na visão de Lukács a crise ontológica da modernidade teria uma relação direta com a crise da concepção da categoria do tempo.

De toda maneira, é importante acentuar que o pensamento de Lukács, desde antes mesmo de sua virada ontológico materialista, já partia de um ponto de contato crítico com a filosofia de Kant, lembra-se das menções a A teoria do romance. Após a virada da década de 30, Lukács passa a construir uma crítica severa à concepção racional em Kant, e a partir daí a categoria do tempo (bem com as noções de natureza e objetividade) vai se tornando de grande relevância dentro desse debate. O fato das categorias de espaço e tempo em Kant serem concebidas como a priori no sujeito, algo que pode ser justificado pelas escassas compreensões biológicas do pensamento kantiano47 – refere-se aqui ao fato de Kant não dispor de uma ciência, ou metodologia de pensamento que pudesse abordar com clareza problemas e objetos de estudo dessa ordem –, representa na interpretação lukacsiana um indício de uma crise no pensamento e nas concepções de mundo encontradas no período de transição do século XVIII e XIX, ilustra-se:

47 Na leitura de Lukács, todas as categorias e todas as formas em Kant são produzidas pela subjetividade

A nosso ver, a filosofia de Kant (e nela a Crítica do Juízo) não representa uma grandiosa e fundamental síntese à base da qual deve ser construído o pensamento posterior nem representa a descoberta de um novo continente, ―uma revolução copernicana‖ na história da filosofia. Ela é – e naturalmente isso não é pouco – um momento importante na aguda crise filosófica desencadeada no século XVIII(...) Todos sabem, por exemplo, que a dialética transcendental na Crítica da Razão Pura coloca a contradição como problema central da filosofia. (...) E onde Kant assinala à razão uma importância decisiva – na ética –, a contraditoriedade desaparece completamente para ele e ele só reconhece a oposição rígida, antinômica, entre o eu inteligível e o eu empírico. (Cf. Lukács, 1978: 8)48

A crise da racionalidade, que em Kant é uma crise da metafísica, justamente porque, de acordo com Lukács, Kant equaliza metafísica e pensamento humano racional (Ibidem: 23), é, nessa ótica materialista, uma crise em lidar com uma racionalidade que inclui a natureza e a biologia em seu suporte. É fato que para Lukács nossa racionalidade, ou capacidade cognitiva, está antes atrelada necessariamente ao caráter inorgânico e orgânico de seres biológicos que somos; sendo assim, Kant embasado paradigmaticamente na matemática e na física de sua época tem uma tendência a privilegiar o que Lukács convém de chamar como idealismo subjetivista, anti- evolucionista, cita-se:

Contudo, o simples fato de que o campo da biologia venha subordinado a uma indagação lógica, metodológica e gnosiológica, engendra novos problemas que não podem ser resolvidos com a aparelhagem conceitual que a Crítica da Razão Pura submete à crítica e procura ulteriormente desenvolver. Ainda que com Kant, se queira ver aqui somente questões de classificação, torna-se necessário reformular metodologicamente e gnosiologicamente categorias tal como espécie, gênero, etc. Kant enxergou de modo relativamente claro as tarefas que lhe estavam propostas (dentro dos limites que lhe impunham, bem entendido, o idealismo subjetivo e o antievolucionismo). (Lukács, 1978: 10)

Essa crise do pensamento metafísico não é apenas uma característica do pensamento filosófico de Kant, mas a expressão de crise das concepções de mundo entre os séculos XVIII e XIX. Em sobreposição e relação com o que já foi apresentado nos capítulos anteriores, tanto a ―consciência histórica‖ que compõe os romances realistas, como o pensamento científico e filosófico que leva em consideração o caráter

48 Lukács também não deixa de acentuar que Kant nota essa crise, e busca solucioná-la. A própria Crítica

do Juízo vai apontar e colocar problemas que apontam para a nova ciência, nas palavras de Lukács, a biologia (Cf. Lukács, 1978: 9)

de formação (construção) da humanidade necessitam de uma categoria de tempo objetiva. Como já visto o mais próximo que a ideologia alemã aproxima-se disso, é a concepção hegeliana de tempo e história; e após 1848 ela passa a sofrer sua dissolução com Schopenhauer e Nietzsche.

O desenvolvimento da Revolução Francesa, como já visto, é o desdobrar dessa mesma crise. Enquanto Kant de maneira consequente a seu pensamento lógico e a sua base científica, tem que necessariamente criar limites ao ―intelecto‖ e admitir que todo o resto está a mercê da ―intuição‖, o que na concepção de Lukács é até mesmo admitir a impossibilidade de avanço da razão (Cf. Ibidem: 15), a Revolução Francesa, também, acaba por sucumbir a seus próprios esforços, esses que também são, nada mais nada menos, do que aquelas aspirações racionais e progressistas da construção de um Estado completamente racional; essas aspirações que não deixam de ser influências dos enciclopedistas, como Rosseau, ou mesmo Helvétius. O próprio Lukács afirma que os traços próprios de Robespierre são a práxis política levada as últimas consequências de um jacobino rosseauniano. Claro que Robespierre faz parte da crise, mas não se torna consciente dela em nenhum momento, diferente de seu antagonista Danton, que se torna consciente da crise do projeto racional de estado, mas que não consegue estabelecer uma efetiva práxis política de solução a essa.

Nos dois casos – Kant e a Revolução – Lukács irá afirmar que além da categoria do tempo, tratam-se de processos de crise da racionalidade, no que diz respeito também a entender a natureza, e a objetividade de maneira correta; não por menos, que ambos avanços que irão concretizar esse entendimento são as ciências que surgiriam dessa crise, e essas ciências vêm a ser a biologia e a história. Eis o porquê de Lukács não incluir Kant na linha do ―irracionalismo‖, Kant é um pensador consequente até onde sua linha de horizonte permite, pressentindo – assim como Danton – os sintomas da crise e colocando os problemas da alçada biológica e histórica à baila, mas incapaz de trazer uma solução efetiva a esses problemas que aparecem expressos sob as antinomias dialéticas de seu pensamento. Como afirma Lukács, Lênin já havia apontado para essas oscilações dentro do pensamento kantiano, principalmente no que diz respeito à Crítica

do Juízo (Cf. Ibidem: 20). Sendo assim, é possível afirmar que não é à toa que Schelling e Hegel iniciam seus pensamentos filosóficos desde jovens, indo de encontro à busca de uma filosofia da natureza. Essas três categorias bastante difundidas serão tomadas como pivôs que serão levantados ao decorrer de todo o capítulo, no intuito de que nas considerações finais possa-se fazer um balanço geral de como a crise que essas categorias sofrem representam o principio daquilo que se configura como relativismo ontológico.

4.2. O materialismo epicurista como visão de mundo de Danton e o idealismo moral