Exige-se o desenvolvimento de uma nova literacia, que nos permita entender a
diversidade dos sistemas visuais (fotografia, pintura, cinema, imagem digital).
Isabel Capeloa Gil (2011, p. 11)leitura e interpretação de imagens foi ganhando, felizmente, um
status semelhante à habilidade de dominar a escrita. A partir de meados do século XX, começaram a surgir estudos que procuravam mostrar a importância da prática da leitura de imagens, nomeadamente nas escolas (Bueno, 2011, p. 75). Apareceram novos conceitos como alfabetização visual ou
literacia visual, cujo sentido, parece ser, pelo menos para alguns, distinto, ainda que intimamente ligados. Para o autor Manuel José Damásio, por exemplo, enquanto a alfabetização corresponde a um estado normalmente associado à formação escolar, de
iniciação na utilização da língua, a literacia refere-se a um processo permanente e contínuo de evolução (Damásio, 2001, p. 60).
Isabel Capeloa Gil, na sua obra Literacia Visual: Estudos sobre a inquietude das
imagens, afirma que a literacia constitui a capacidade de ler texto, substantivando ‘a qualidade ou condição de quem é letrado’, ‘alfabetização’, mas igualmente ‘práticas que denotam a capacidade de uso de diferentes tipos de material escrito (Gil, 2011, p. 15).
Porém, com o passar do tempo, ficou com um significado mais vasto. Designando-se pela capacidade de os indivíduos compreenderem e usarem informação, inicialmente verbal e textual, acabou por alargar-se a outros suportes, como o visual (Gil, 2011, p. 16).
Apesar da sua definição ter surgido nos E.U.A., nos anos 60, o termo literacia visual remete-nos para James Elkins e a sua obra Visual Studies: A Skeptical
Introduction (2003), aparecendo numa tentativa de resolver a necessidade de se ler as
imagens.
Eu escolhi a expressão literacia visual (…) porque as duas palavras comprimem a comum e inevitável contradição envolvida quando dizemos que “lemos” imagens. (…) James Elkins (2007, p. 1)
12 Inspirado na pintura “A Barca de Dante” de Eugène Delacroix, de 1822. Óleo sobre tela, 189 × 241 cm. Localizada no Museu do Louvre em Paris, França.
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Esta designação, considerada, para alguns, enigmática, por causa da aparente contradição de que James Elkins fala, apresenta-se para Gil (2011) como um conceito
multivalente, sendo simultaneamente uma competência e uma estratégia, e
constituindo-se como uma estratégia cultural, que responde à necessidade da cultura
visual indagar o modo como o social é criado por via imagética e não só como a representação visual resulta do contexto cultural (Gil, 2011, p. 15).
Literacia Visual (…) Não se confunde com a capacidade biológica de ver, embora não seja possível sem ela, não resulta da mera escolaridade, embora exija estudo, não é apanágio de uma única disciplina, mas exige competência múltiplas, não é meramente utilitária, embora seja elementar sempre que o estudo da imagem se encontra em causa. Isabel Capeloa Gil (2011, p. 15)
A literacia visual, sem ter um objeto de estudo específico, mas abarcando todas
as formas culturais que se reconhecem de modo lato na definição de imagem, constitui- se como um instrumento estratégico que exige múltiplas competências (Gil, 2011, p. 25). Esta nova forma de literacia fornece ao leitor de imagem as ferramentas para as
conseguir, realmente, ver. Um processo que parece ser conseguido de forma inata, mas
não é:
Ver (…) parece uma habilidade fácil e naturalmente adquirida (…) apesar de ‘universal’ e ‘natural’, não é inato (…) deve ser aprendido.
W. J. T. Mitchell (2007, p. 13)
Num mundo em que a Imagem impera, torna-se obrigatório desenvolver a
literacia visual dos alunos. Em Portugal, como já vimos, quando falámos da Arte no
sistema educativo português, este conceito apareceu no Currículo Nacional do Ensino
Básico - Competências Essenciais, em 2001, numa vertente estética. Todavia, atualmente,
prolifera um leque variado de literacias que vão além da visual. Essas literacias derivam dos renovados ventos e acabam por constituir-se como um espelho do mundo em que o aluno vive, o que facilita a sua relação com elas. Independentemente do tipo, as literacias devem assumir um papel fundamental no processo educativo, sendo que a sua promoção deve ter lugar na sala de aula. Isso faz ainda mais sentido quando falamos da literacia
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Já vimos que na História, a literacia visual tem vindo a ganhar um espaço cada vez maior. Todavia, ainda é preciso que se continue a trabalhar nesse sentido, de modo a que os alunos consigam, realmente, olhar e ver uma imagem. Essa leitura deverá incluir a sua análise, interpretação, e até mesmo avaliação, de um modo reflexivo e crítico. Esse exercício deve ser promovido pelo docente, que já está pronto para, também ele, conseguir fazê-lo.
Ao alfabetizar o olhar para a leitura do texto visual, o estudante constrói o
pensamento a partir da imagem (...)
Alexandra Moura da Silva (2015, p. 233)
Os alunos estão marcados pela saturação da imagem. Todavia, talvez por falta de preparação e habilidade, recebem-nas de maneira intuitiva, sem uma perceção criteriosa
e reflexiva (Guimarães, 2008, p. 5). Assim, o hábito de praticar a leitura de imagens
parece ainda não estar totalmente enraizado junto dos discentes.
A autora Fernanda Guimarães (2008) apresenta como possível justificação o facto
de a imagem ainda ocupar um papel secundário no processo de ensino-
aprendizagem. Refere-se, certamente, ao que já abordamos: a relação entre texto e imagem, onde o texto mais valorizado enquanto fonte, e a desvalorização da imagem, que é reduzida ao papel de ilustração. De modo a que este cenário se desvaneça, aconselha-se que o professor atue como uma espécie de alfabetizador visual, ajudando os alunos na leitura e descodificação dos signos, mensagens e significados presentes nas imagens.
São muitas as propostas e métodos de leitura de imagens que podem ser adotados. Os que nós escolhemos, para o presente estudo, foram selecionados tendo em conta o documento iconográfico que optamos por trabalhar – a Pintura – que é mais do que uma simples imagem: é uma obra de arte.
A utilização de imagens pelo historiador, ao lado de seu fascínio e riqueza, também
significa novos desafios para quem pretende efetivá-la.
58 A Arte da Pinturanas aulas de História 13 You better think (think)
Let your mind go, let yourself be free Oh, freedom (freedom), freedom (freedom) Think de Aretha Franklin
onsideramos que a Arte, nas suas diferentes vertentes, constitui uma excelente ferramenta pedagógica no ensino da História, contribuindo
para que os alunos desenvolvam a compreensão e pensamento
históricos, e uma diversidade de outras importantes competências, de um modo mais interessante e proveitoso. Todavia, o contacto não é suficiente, é preciso que se trabalhe com e através da Arte. A Pintura, pela sua riqueza iconográfica e pela multiplicidade de perspetivas que proporciona, assumiu a dianteira neste estudo.
Com esta escolha pretendemos reforçar o valor que uma obra de arte pictórica pode ter enquanto fonte histórica, mas também enquanto elemento potenciador no
desenvolvimento do espírito crítico, e do olhar, pensamento, e sensibilidade artística. De tudo faremos para que o aluno leia, veja, pense e crie pinturas. Porque uma pintura deve ser lida. Uma pintura permite pensar. Deste modo, conseguimos aliar o ensino da História com o ensino da História da Arte, que ficarão unidos num só corpo. Isto promete! Tendo como inspiração as palavras que perfazem a letra da música que abre este
subcapítulo, pedimos-lhe que pense connosco sobre as potencialidades que um
documento iconográfico como a Pintura pode assumir quando falamos no ensino de História. Não lhe ocorre nada? Acreditamos que sim. Mas, está enganado se pensa que falamos ‘apenas’ acerca daquelas partes do programa de História em que o docente tem de lecionar aspetos culturais e artísticos de determinada época. Na verdade, é mais do que isso. Já percebeu o que pretendemos fazer? [Pausa] Não? O que se segue irá certamente, ajudar o leitor a compreender melhor aquilo que queremos realizar com os alunos, através da e com a Pintura. Pedimos-lhe que avance com uma mente aberta e um espírito livre. Comecemos por fazer algumas considerações sobre a Pintura: ontem e hoje.
13 Inspirado na pintura “A Arte da Pintura” de Johannes Vermeer, de 1666. Óleo sobre tela, 130 × 110 cm. Localizada no Kunsthistorisches Museum em Viena, Áustria.
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