• No results found

As práticas religiosas têm forte interligação com a linguagem simbólica. Conforme Durkheim (1998, p. 154): "Os primeiros sistemas de representação que o homem fez para si do mundo e de si mesmo são de origem religiosa". Essas representações, segundo esse autor, "traduzem a maneira como o grupo se pensa nas suas relações com os objetos que o afetam". Alves (2005, p. 25) reitera essa idéia, concebendo que:

[...] a religião se nos apresenta como um certo tipo de fala, um discurso, uma rede de símbolos. Com esses símbolos os homens discriminam objetos, tempos e espaços, construindo, com seu auxílio, uma abóbada sagrada com que recobrem seu mundo. Geertz (1989), sob o ângulo da antropologia cultural, define a religião também como um conjunto de símbolos. Analisando o fenômeno religioso, Mello (1996, p. 407), sob esse mesmo impulso teórico, considera que “a linguagem utilizada pelos mitos, pela doutrina e pelas crenças é, em geral, hermética, analógica e plena de simbolismo. Igualmente ela é cercada do maravilhoso, seja acerca da forma como ela foi legada à posteridade seja no conteúdo das narrativas”.

Sobre a dimensão simbólica através das narrativas na esfera do religioso, Veríssimo (1997, online) chega à mesma conclusão, destacando que o aspecto mítico-simbólico da religião se apresenta através de um procedimento lingüístico e discursivo, como a narração de histórias:

Daí se justifica uma espécie de pedagogia do contar estórias, passadas ritualisticamente de geração em geração. Sem dúvida, os valores do modo de vida de um povo, suas normas, seus hábitos e suas crenças eram transmitidos pelos relatos míticos. Acreditamos, porém, que essa pedagogia, além da transmissão de valores, atingia profundamente o ouvinte, por se tratar de imagens e relatos que suscitavam

90 Comentando sobre os múltiplos investimentos que o ethos ganhou nas mais diversas áreas do saber,

Maingueneau (2006, p. 265) destaca que a concepção weberiana de ethos, dizendo que este termo “é usado na sociologia, na esteira de Max Weber, que, em A Ética protestante e o espítrito do capitalismo, fala do ethos (sem, no entanto, lhe dar uma definição precisa) como uma interiorização de normas de vida, na articulação entre as crenças religiosas e o sistema econômico, o capitalismo no caso. Também o encontramos em Pierre Bourdieu com um sentido próximo a esse”.

experiências que remetiam, ao fim das contas, à condição humana. É justamente esse processo que nos sensibiliza hoje, séculos e séculos depois do surgimento dos mitos, e nos chama a atenção de que não desapareceram na história certas condições da existência configuradoras do que consideramos experiências originárias, como a paixão, o amor e o ódio, a vaidade, o poder, o desejo, a perda da medida, a noção do destino, a busca do conhecimento, a liberdade e a fatalidade, a ética, a moral, a justiça, a concepção de harmonia, do cosmos e do caos, o esquecimento e o culto da memória de uma origem ancestral, a presença da morte, a vivência do trágico, a concepção de um duplo que sobrevive à morte, a transmutação e a iniciação, o resguardo do ser, e a angústia perante o nada, assim por diante.

Importa destacar, para a nossa investigação, o realce que dão Mello e Veríssimo acima ao fato de que o simbolismo religioso vem muitas vezes através da narrativa. É o caso do simbolismo trazido pelas parábolas bíblicas – aliás, etimologicamente symbolon (“aquilo que se lança conjuntamente”) guarda estreitas relações com a origem o termo parábola - das quais Jesus se utiliza como instrumento discursivo para propagar sua mensagem por meio de pequenas narrativas de sentido alegorizante, o que nos leva a concluir que o uso de símbolos para representar uma entidade supraterrena faz parte do conceito bíblico de aprendizagem e compreensão.

O mito, na sua acepção simbólica e alegórica, relaciona-se também com o aspecto religioso da experiência humana. Sob a visão de Veríssimo (op.cit., online):

[...] autores como Ernst Cassirer, Mircea Eliade e Jung chegaram a uma análise convergente: mito não é apenas uma estória fantástica, não é apenas um subproduto da magia ou da religião, não se restringe a revelar o imaginário de determinado povo ou civilização. Mito é, antes, uma expressão do humano. Nos heróis, nos deuses celestes ou ctônios, nas potências da natureza existe, digamos, um vínculo estreito com modos de ser do homem "comum". É como uma cumplicidade velada. Os deuses, os entes sobrenaturais, os heróis, tanto nas suas interações mútuas como nas suas relações com os homens, desvelam, através das imagens e linguagens simbólicas e do próprio transcorrer dos enredos mitológicos, inúmeras facetas da complexa existência humana.

Bourdieu (1999) vê o aspecto simbólico como um ponto fundamental para o entendimento do fenômeno religioso. É enquanto sistema simbólico de comunicação que o autor entende a religião como linguagem e, sob esse aspecto, a religião deve interessar aos estudos sociológicos. É própria do campo religioso a relação entre especialista e consumidores dos bens religiosos. Assim, nesse campo, só alguns têm o capital de decifrar o significado dos símbolos. Pelos esquemas de pensamento promovidos pela linguagem simbólica, podemos dizer, com Bourdieu, que a religião mostra a sua eficácia social, na medida em que esses esquemas se inscrevem nas consciências individuais e nelas se incorporam em forma de rituais, gerando hábitos. Assim, no entender de Bourdieu (op. cit. p. 38-39):

A autonomia do campo religioso afirma-se na tendência dos especialistas de fecharem-se na referência autárquica ao saber religioso já cumulado e no esoterismo de uma produção quase acumulativa de início destinada aos produtores. Daí o gosto tipicamente sacerdotal pela imitação transfiguradora e pela infidelidade desconcertante, os polinômios deliberados e a ambigüidade refinada, o equívoco, a obscuridade metódica e a metáfora sistemática, em suma todos os jogos de palavras presentes em todas as tradições letradas e cujo princípio pode ser localizado, segundo Joan Bolack, na alegoria, entendida como arte de pensar outra coisa com as mesmas palavras ou dizer de outra maneira as mesmas coisas (“dar um sentido mais puro as palavras da tribo”).

O discurso religioso de Jesus tem uma predileção pela linguagem simbólica, alegórica: “Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais? (Jo. 3:12). Nesse tipo de discurso, o real do transcendente só e acessível pelo simbólico, para cujo significado nem todos têm a chave da interpretação. Depois de contar a Parábola do Semeador, uma espécie de parábola fundacional, Jesus disse aos seus discípulos: “ A vós é dado a saber os mistérios do Reino de Deus, mas aos que estão de fora todas essas coisas se dizem por parábolas, para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam, para que se não convertam, e lhes sejam perdoados os pecados. E disse-lhes: Não percebeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?” (Mc.4:11-13). Como se vê, o trabalho hermenêutico do discurso parabólico de Jesus requer a intervenção da sua autoridade para decifrar o capital semântico, que vela ou revela a mensagem que subjaz à narrativa, e a participação do ouvinte, que, através da fé, pode usá-la como uma espécie de pré-compreensão para o entendimento da pregação de Cristo.

Reiterando essa posição, Haight (2003, p. 104) considera que: “O caráter transcendente e simbólico do reino de Deus reflete-se no fato de que boa parte do ensinamento de Jesus que lhe faz remissão é trasmitida por meio de parábolas”.

Se o simbolismo religioso adquire funções múltiplas, no âmbito do contexto bíblico, tem muitas vezes a tarefa de minimizar a inevitável indizibilidade ou inefabilidade do conhecimento do transcendental, pelo uso da linguagem usada como construtora de símbolos indicadores da compreensão da verdade transmitida. O nível simbólico da religião de Jesus tem, pois, a pretensão de dar sentido ao mundo, exercer a sua eficácia pela tradução da sobrenaturalidade da experiência religiosa através do simbolismo criado pela narrativa parabólica.