Esclarecendo possíveis vícios benignos e distorções não comprometedoras na essência de nosso trabalho vimos, aqui, esclarecer que tais idiossincrasias podem ser atribuídas às influências que nossa origem intelectual exerce sobre nosso modo de enxergar as ciências do homem: historiador de formação, há mais de três décadas gentilmente recebido no universo da administração, nem sempre conseguimos, ou nem sempre tentamos, nos separar de algumas boas manias adquiridas na nossa primeira formação acadêmica e que acabam por nos dar um certo “sotaque estrangeiro” pelo qual pedimos escusas.
Assim, também, justificamos a nossa, e de grande parte da humanidade, necessidade didática de procurar reduzir o tempo passado a módulos lógicos que, à semelhança de modelos rudimentares e autoritários, consigam nos fazer entender melhor nossas vidas pela reunião de semelhanças e diferenças nas épocas e entre as épocas da história: bom, foi o tempo da singeleza positivista em que nos conformávamos e confortávamos com a “boa divisão”, Idade Antiga, Média, Moderna e Contemporânea, nas quais o homem, em sua trajetória no tempo, parecia maravilhosamente domesticado pela nossa compreensão; onde tudo tinha seu lugar e as coisas haviam acontecido numa ordenada dialética; onde o mundo civilizado do ocidente reduzia tudo ao seu padrão que, por sua
vez, encharcado de coerência, a tudo dava sentido e explicava, em tudo estabelecia nexos e fornecia comparações.
No sentido de enquadrar nosso objeto de estudo no seu contexto tal como o pensamos, justificamos o caminho que segue.
Se a Segunda Guerra Mundial trouxe algum incômodo a essa ordem temporal, ele ficou abafado, por um certo período, pelos ecos ufanistas da vitória aliada; a acidez e os impactos do último conflito mundial parecem não terem sido assimilados criticamente “ex abrupto” pela imediata Guerra Fria entre as duas potências hegemônicas e suas imperiais políticas, que obcecaram as décadas dos cinqüenta, sessenta e setenta, transformando-as numa espécie de cortina de fumaça de estupor ideológico dualista- bipolar-maniqueista e totalitarista; apesar de tudo e de tanto, apesar do holocausto e de Hiroshima, percebia-se ou buscava-se a “fortiori” uma continuidade, uma causalidade, mesmo porque, não há como negar que os citados eventos tinham tido sua geração no útero conturbado do início do século XX e, de uma certa maneira, representariam o apogeu de um movimento civilizatório que teria seu termo coletivo insinuado e visualizado pelos conflitos sociais na década dos sessenta que, ante o débâcle do Império Soviético, se amiudaram fazendo com que o milênio se encerrasse bem antes que o assinalado nos calendários.
Por isso, olhando para trás, parece não ter havido dificuldades insuperáveis para autores como Arnold Toynbee (Toynbee, 1976) de, numa atitude discretamente ousada,
introduzir na análise histórica a denominação de Pós-Modernismo para caracterizar um tempo que contrasta com o modernismo iniciado no século XV e que perdurou até a metade do século passado. O Pós-Moderno seria marcado por um ritmo de mudanças tecnológicas que, de muito, ultrapassaram às aquelas ocorridas nas esferas espiritual, moral, política e ideológica. A Pós-Modernidade já antecipava esse vazio filosófico e o esboroar das grandes ideologias, ainda hoje, insistentemente moribundas e deletérias enquanto espectros de mundos perdidos a querer sobreviver e, em parte, atreladas às suas radicais iluministas-industrialistas e seus corolários antitéticos, ou seja, a fundamentos filosóficos que remontam aos albores do século XVIII. Assim, chegamos a um tempo que assistiria ao advento dos computadores e das comunicações à distância em todos os quadrantes da vida; à transição das economias centradas na produção industrial e serviços para, outra, ancorada na informação, na tecnologia e no consumismo, onde os fordismos e os taylorismos seriam varridos pelas necessidades de organizações descentralizadas, flexíveis e com liberdade de comunicação interna; mas o mundo Pós-Moderno, apesar de tudo, ainda sacralizava conceitos da modernidade ainda, insistimos, era moderno por sua crença no progresso e não se dava conta de que tentava entender o muito novo com as ferramentas mentais do proporcionalmente muito antigo:
“A razão Kantiana, a ‘razão das luzes’ do século XVIII fora movida por um sonho magnífico: a afirmação do homem enquanto medida e limite de todas as coisas, negador de qualquer deus metafísico, sujeito autônomo e autodeterminado, construtor histórico de seu próprio destino; tal afirmação permitiria concretizar o passo maior da humanidade: a transição do reino da necessidade para o reino da liberdade. E, como o seu maior instrumento, o progresso” (Bauer, 1999:28).
O pós-modernismo é, como todas as divisões cronológicas, resistente a delimitações rigorosas. Grosso modo, na área das ciências sociais, ele tem sido utilizado para narrar um clima social marcado por mudanças sociais e organizacionais e um conjunto de abordagens filosóficas para o estudo da organização e de outras áreas, incluindo a atenção na natureza construída das pessoas e da realidade, enfatizando a linguagem enquanto sistema de distinções no processo de construção; criticando as grandes narrativas e os sistemas teóricos gerais tais quais o marxismo e o funcionalismo; enfatizando aspectos como a relação poder-conhecimento, o papel nas comunicações de massas na dominação assumindo, assim, uma função crítica aos fundamentos e ideais utópicos que marcam o modernismo (Alvesson, Deetz, 1999).
Mas foi o desmoronar do sonho soviético em simultaneidade com o fim do sonho de Jefferson catalisados pelo esvaziamento do cartesianismo que, dentre uma miríade de indicadores, foram alguns dos sinais da mudança: a mesma incapacidade de se justificar a manutenção do Muro de Berlim, permitiu o destruir da Carta das Nações Unidas e da Declaração dos Direitos do Homem após os eventos de 11 de setembro de 2001.
As transformações técnicas que desencadearam a modernidade e que fundamentaram a Primeira Revolução Industrial já avisavam de uma profunda modificação dos ritmos da história, provocando a anulação do mundo agrícola, a promoção hegemônica dos espaços urbanos, a criação de um novo imaginário de tempo e espaço pelos novos meios de transportes e da organização do trabalho; bem como pelo revolucionário
pragmatismo que se conferiu às ciências ora atreladas à produção tecnológica e ao lucro.
Pois bem, este retorno ao Moderno, apesar de aparentemente mal alocado no texto, nos afigurou necessário para que pudéssemos, didaticamente, relembrar como, etapa a etapa, os ritmos se aceleraram, as transformações se agudizaram a um tal ponto que levaram os historiadores a buscarem, na tentativa de melhores definições, termos mais e mais arrojados que pudessem atender à sua incapacidade de abarcar dinâmicas tão diversas e imprevisíveis, que permitissem alguma forma de abordagem para o entendimento dessa sucessão de humanidades de difícil decifração, que se organizou rapidamente em conformações sócio-culturais híbridas, mutantes e mutáveis, muito opacas à penetração de nossos frágeis óculos de análise: é interessante como no Pós- Moderno já se afigurava uma certa incapacidade semântica de definir o que acontecia enquanto evidente corolário do próprio esgotamento epistemológico subjacente.
Nada é tão pós-moderno ou quase hipermoderno do que a Teoria da Relatividade Restringida completada, depois, pela da Relatividade Generalizada nas quais, Albert Einstein, fragilizando a exatidão das matemáticas, na contra-mão do "bom senso", refaz as concepções de tempo e de espaço, de um espaço que se curva sob o efeito do magnetismo dos corpos celestes... Na mesma direção, Kurt Gödel, lógico polonês, publica um estudo cujo título já revela um caráter científico-carbonário, “O incompleto sistema axiomático que contem a teoria dos números” ou, o Teorema do Incompleto
que afirma que todas as formulações axiomáticas da Teoria dos Números incluem propostas indecisas o que, de outra forma, significa a falência da Lógica Formal.
O Pós Modernismo, utilizado apesar de suas limitações, já que nasceu para batizar uma tendência arquitetônica, nos permitiria, no “reino da administração” (governado pela lei de mercado que impõe a sobrevivência sempre à frente de qualquer tentativa teorizante de entendimento das mudanças), assistir ao nascer das organizações enxutas, dos toyotismos, das reengenharias, de estruturas que, se não mais genuinamente cartesianas que, se já haviam abandonado as pranchetas e migrado para as estações gráficas, ainda se mostravam umbilicalmente ligadas a modelos anteriores e todos seus desdobramentos lógicos mas que, ainda, tinham ritmos e seqüências que não assinalavam rupturas, que mantinham uma certa e antiga linearidade. O Pós Moderno, dentre tantas marcas, foi um período onde, ainda, poderíamos falar de mudanças onde, ainda, falava-se com um certo ar de ousadia, em quebra de paradigmas, expressão que se tornou num vício odioso, porque vício e vazio, no linguajar dos “consultores”.
Mas foi, a partir dos anos setenta, que a noção de pós-modernidade se estadeou como qualificador da cultura das sociedades desenvolvidas e acabou ganhando os espaços jornalísticos e popularescos:
“O neologismo pós-moderno tinha um mérito: salientar uma mudança de direção, uma reorganização em profundidade do modo de funcionamento social e cultural das sociedades democráticas avançadas”... “Ao mesmo tempo, porém, a expressão pós-moderno era ambígua, desajeitada, para não dizer vaga”.(Lipovetsky, 2004: 52).
É, também, um momento marcado pelo esgotamento daquele legalismo da ciência tradicional onde todas as “leis maiores e universais”, uma vez descobertas, nos conferiam a condição de observadores dominadores da natureza que, continuaria, estranha a nós, ameaçada e ameaçadora.
Foi, exatamente, por essa ambigüidade assinalada pelo polêmico pensador francês, que dele tomamos o termo Hipermodernidade para designar esse pedaço de história que parece desafiar nossa capacidade de designação que, tal qual o mais resistente dos pagãos, não se submete à pia batismal e que, por tudo isso, sintetiza a incontornável incapacidade de definirmos o nosso tempo ou deixá-lo de fazer, razão pela qual a adoção do termo foi feita sem maiores preocupações de embasamento histórico- filosófico.
Cabem, aqui, algumas digressões necessárias.
Se decidirmos nomear nossa história, a partir dos anos oitenta do século passado, como o “mundo da globalização”, certamente estaremos desconsiderando que, a “aldeia global” de McLuhan (MacLuhan, 1970), onde o poder dois meios de comunicação a todos faria um gigantesco padrão cultural, parece que não aconteceu como se prognosticava: se o mundo econômico-financeiro foi definitivamente globalizado; se, apesar das resistências agora arquitetadas em blocos, a economia da humanidade transformou-se quase numa única e intrincada trama na qual todos os fios irradiam os
efeitos das periferias mais remotas e o poder dos centros hegemônicos aparecem incontestáveis; se a interligação via satélite e toda a parafernália a ela ligada nos levaram à beira de nos sentirmos verdadeiros cidadãos do orbe, não há como ignorar, mesmo que os míopes recalcitrantes insistam, que as nacionalidades resistem bravamente que, na Itália da Comunidade Européia, ainda se fale em Liga Lombarda; que os chechenos aterrorizam o mundo pela sua luta nacional tanto como os bascos que não se querem espanhóis e que a própria Espanha não conseguiu deixar de ser, ainda, uma ficção de cunho político. Como aceitarmos a globalização, conceito autoritário e descaracterizante, num mundo onde milhões de seres humanos vivem, com ou sem internet via satélite, seus referenciais tribais e onde as nações disputam palmos sangrentos de chão?
No encalço do sentido perdido, o ser humano ameaçado por essa mundialização anuladora das individualidades e numa espécie de contra-mão do previsto, voltou-se para suas raízes mais profundas: a cada arranco de internacionalismo, ele lança um contra-ataque de recuperação de suas singularidades, de seus regionalismos mesmo que machucados pelas determinações mercadológicas, como o do sertanejo conspurcado pelo country, ou de repentistas descaracterizados por instrumentos eletrônicos.
O simplismo do "pós-moderno globalizante", ainda que de forma imperceptível, nos incomodava quando, educadores que somos, chamávamos a atenção de nossos alunos
para a necessidade de se sobreviver gerencialmente pela ativação de um mecanismo intelectual de localização antropológica que designamos com um certo pedantismo, como o “diálogo das grandezas díspares” e que se faz necessário em cada movimento de análise de realidade, em cada ensaio de tomada de decisão, que nos obriga ao difícil malabarismo de confrontos constantes para compreendermos a convivência vital das pequenas singularidades da nossa cultura organizacional com dados de realidades geograficamente distantes mas absolutamente presentes: do mau humor de nossa secretária, às conseqüências para o nosso produto da mão-de-obra semi-escrava da Tailândia, da festa de amigo-secreto, à teleconferência com Amsterdã dentro da mesma sala.
Nesse mesmo esforço de suprimir o vazio de nosso referencial teórico, não podemos olvidar aquela que, talvez, se coloca como uma das mais sérias determinantes dessa incapacidade enunciadora e paradigmática, a da coexistência de temporalidades opostas, do hipernovo com o ultra-antigo: hoje ainda vivemos o “tempo da muito longa duração” de Fernand Braudel (Braudel, 1972), um tempo que se aproxima do limite da imobilidade, o tempo que rege o universo das religiosidades do Talmud-Torá, dos Evangelhos, do Corão; uma temporalidade presente ao mais íntimo da vida de parcelas imensas da humanidade. Da mesma forma, vivemos a realidade do tempo dos circuitos impressos, da milionésima parcela do segundo, do nanossegundo, tão presentes em nossas vidas quanto aquele tempo anterior dos séculos e que nos obriga à imperceptível
e fantástica tarefa de saber das ameaças da Jihad Islâmica pela internet, de encararmos essa lógica dos extremos.
Voltemos a Lipovetsky:
“Essa época terminou. Hipercapitalismo, hiperclasse, hiperpotência, hipertexto, - o que mais não é hiper? O que mais expõe uma modernidade elevada à potência superlativa? Ao clima de epílogo segue-se uma sensação de fuga para adiante, de modernização desenfreada, feita de mercantilização proliferativa, de desregulamentação econômica, de ímpeto técnico-científico, cujos efeitos são tão carregados de perigos quanto de promessas”.(Lipovetsky, 2004: 52).
É nesse paroxismo civilizatório, é para essa necessidade de se encontrar uma lógica para os extremos, uma lógica urgentista que justificamos, até pelas enormes limitações ditadas pelo ilimitado, a adequação da Complexidade enquanto orientação histórico- filosófica capaz de enfrentar esse hiper-diferente de uma civilização em êxtase, momentaneamente adequada e suficiente. Quando Lipovetsky aponta a transição de uma modernidade negadora para uma supermodernidade integradora e capaz de reintegrar as lógicas do passado com as lógicas de mercado, não estaria ele dizendo da capacidade auto-poética desse hipertempo, de um tempo que, talvez como todos os outros, se auto-organiza sempre de uma forma imprevista?