Instalada num antigo armazém na zona do Poço do Bispo, a galeria Underdogs fica longe da centralidade preferida por outras galerias comerciais de arte. Porém, a sua actividade é visível um pouco por toda a cidade, através dos murais em grande escala, elaborados por street artists nacionais e estrangeiros, concretizados através das suas acções de curadoria de arte no espaço público que são concebidas enquanto complemento das exposições que a galeria organiza. Esta é, também, uma forma de tornar atraente a zona oriental de Lisboa enquanto lugar de destino aos interessados em conhecer melhor – ou comprar – trabalhos elaborados por artistas de street art para contextos interiores.
A galeria Underdogs surgiu em 2010, pretendendo assumir-se como espaço que possibilitasse não só a criação de um mercado para os artistas de street art em Portugal, mas também a introdução de artistas portugueses nesse mercado. Paralelamente, o intercâmbio de artistas é uma vertente de intensa actividade da galeria. Por iniciativa de Alexandre Farto, e ligada à sua agência de arte Vera Cortes, a Underdogs assume-se como plataforma de partilha e de intercâmbio entre artistas, galeristas e curadores, tendo como denominador comum a inserção de uma estética contemporânea que deriva da
street art. Atente-se ao seu modo de apresentação:
«Underdogs is a cultural platform based in Lisbon, Portugal that aims at creating space within the contemporary art scene for artists connected with the new languages of urban-inspired graphic and visual culture, fostering the establishment of partnerships and collaborative efforts between creators, cultural agents, exhibition venues and the city, contributing to establish a close relationship between these and the public. The Underdogs project rests on three complementary areas: a gallery; a public art programme; and the production of original and affordable artist editions.»96
Tem assim a Underdogs três linhas de actuação: a organização de exposições, individuais e colectivas, a venda de serigrafias através do website, e a produção de arte nas ruas da cidade, por artistas internacionais, nomeadamente através de painéis artísticos em grande escala, de que a figura 5.8 é exemplo.
Figura 5.8 – Intervenção de Pixelpancho e Vhils, junto à Avenida Infante D. Henrique. Foto de Ágata Sequeira.
A primeira exposição desta plataforma teve lugar no espaço Vera Cortes - Agência de Arte, de 26 de Novembro de 2010 a 15 de Janeiro de 2011, com a participação de ±, Adres, Kusca, Mar, Obey, Ram, Smart Bastard, Sphiza, Tosco e Vhils.97 Alguns destes artistas tornarão a ser mencionados ao longo
deste trabalho, enquanto figuras recorrentes da produção de street art nacional e com visibilidade global – nomeadamente ±, um dos entrevistados para esta pesquisa, Mar e Ram, ambos com trabalhos no túnel de Alcântara, que veremos ainda neste capítulo, e Vhils, um caso particular de internacionalização de um artista de street art português.
O pressuposto do projecto era a capacidade de se estabelecer uma dinâmica da arte contemporânea, de estética derivada da street art e mantendo essa forte ligação à rua, ao mesmo tempo que se criavam produtos vendáveis, numa lógica de mercado da arte internacional. Lemos, na folha de sala da primeira exposição, uma clara ligação entre os artistas e o espaço urbano:
«O espaço público das cidades que habitamos encontra-se saturado de ruído visual e gráfico. Nos últimos anos, a emergência de novos intervenientes que jogam com a complexidade da reocupação e reinterpretação do mesmo, tem gerado novas propostas estéticas que importa reconhecer e validar.»
97 Informação retirada da folha de sala da exposição, disponível em formato pdf em
É, portanto, muito clara a intenção de promoção do trabalho de artistas que produzam discursos sobre o espaço urbano, interpretando-o e, ao mesmo tempo, ocupando-o, o que nos remete mais uma vez para a ligação que Phillips clarificou entre arte pública contemporânea e a sua ocupação do espaço público (Phillips, 1998).
A problemática das designações e da criação de novas dinâmicas a que nos dedicámos no capítulo «Street Art: Definindo uma prática abrangente -Técnicas, expressões e intenções», não passa despercebida ao projecto Underdogs, pretendendo este assumir-se como plataforma de convergência das diferentes formas nas quais a street art se manifesta:
«Apesar de a simplicidade destas designações esconder uma realidade complexa e reunir fenómenos manifestamente plurais, a convergência de alguns dos seus agentes com a dimensão instituída da arte contemporânea tem gerado uma nova dinâmica que o nascimento do projecto Underdogs visa fomentar.» É de salientar o carácter teórico desta iniciativa, e o objectivo de aliar essas práticas à «dimensão instituída da arte contemporânea».
Entretanto, a galeria Underdogs estabeleceu-se em espaço próprio, num armazém recuperado do nº 56 da Rua Fernando Palha, Poço do Bispo. Aqui, constitui-se a Underdogs como mais um dos parcos exemplos de iniciativas de âmbito cultural que lentamente têm vindo a transformar a zona oriental da cidade de Lisboa, que, sofrendo os efeitos de um processo de desindustrialização, é marcada por uma permanente condição in between (Nunes e Sequeira, 2011). Às estruturas culturais que se instalam em zonas deprimidas da cidade, como esta, pode corresponder uma «reorganização do sistema de produção local nas actividades culturais, substituindo as indústrias do passado e sendo alternativa à residencialização selecta prevista para o local.» (Nunes e Sequeira, 2011:38).
É, assim, desde 2013, e sob a responsabilidade de Alexandre Farto e Pauline Foessel, que tem vindo a promover exposições, a solo ou individuais, com artistas como ±, Cyrcle, Olivier Kosta-Théfaine, Akacorleone, Okuda e Clemens Behr. E também exposições colectivas, como Hors Les Murs (no Instituto Francês de Portugal, na Avenida Luís Bívar), Timeline e a Trains & Generations, que contou com a participação da célebre fotógrafa de graffiti norte-americana Martha Cooper. A estas exposições acrescenta-se ainda o trabalho que a galeria promove em contextos exteriores, nomeadamente com a pintura mural a escalas consideráveis, em vários pontos da cidade de Lisboa.
Entre essas intervenções contam-se a do colectivo Cyrcle (EUA), na Rua Conselheiro Mariano de Carvalho e Rua Presidente Arriaga, Akacorleone (Portugal) no Village Underground Lisboa - pintura de contentores reabilitados para escritórios, ± (Portugal), na Avenida das Forças Armadas (o ‘Vende- se Portugal’, de que nos falou em entrevista) e na Avenida de Berna, colectivo Bicicleta sem Freio (Brasil) na fachada do Clube Naval de Lisboa, How & Nosm (Espanha/EUA) em prédio em Campolide e na Avenida da Índia, Pixelpancho (Itália) na Rua Conselheiro Mariano de Carvalho e na Avenida Infante Dom Henrique, Remed (França) no Regueirão dos Anjos, Olivier Kosta-Théfaine
(França) na Rua Dr. Estêvão de Vasconcelos, Interesni Kazki (Ucrânia) na Praça Olegário Mariano (veja-se a Figura 5.9), Okuda na Rua de Marvila, Clemens Behr (Alemanha), e Nunca (Brasil), na Rua do Vale Formoso de Cima.
Figura 5.9 – Um dos elementos do colectivo ucraniano Interesni Kazki, intervindo no mural da Praça Olegário Mariano. Foto de Ágata Sequeira.
O modelo de negócio da Underdogs passa em primeiro lugar pela intervenção dos artistas no espaço público da cidade de Lisboa, a que se segue uma exposição na galeria Underdogs, e de seguida a disponibilização de serigrafias dos artistas, à venda através do website da galeria (Eugénio, 2013: 45). Sendo uma plataforma de características únicas no contexto urbano de Lisboa, tem um papel importante no que diz respeito à potenciação de um tipo de trabalho artístico no espaço público que, nos percursos dos artistas e nos referentes estéticos a que recorre, pode ser considerado street art , mas que, à escala e nos moldes em que é elaborado, se pode aproximar da arte pública. Entre estes dois pólos, a Underdogs potencia um espaço de galeria para artistas, reconhecidos pelo seu trabalho na
street art. Permite assim o surgimento de dinâmicas plásticas no âmbito do próprio trabalho artístico, que, não se limitando a ser transplantado do espaço público para a galeria, possibilita a criação de novas linguagens e recursos expressivos, num movimento que se prende com a própria evolução dos percursos artísticos individuais.