Os pontos nesta análise têm como referência os documentos122 publicados pelo MST, resgatando algumas das linhas mestras que nortearam a formação e a sustentação das cooperativas do movimento. A pretensão aqui não é a de um estudo mais detalhado, mas a de apenas esboçar alguns elementos que permitam focalizar os conflitos na COPAJOTA, contextualizados no projeto mais amplo do MST.
122 Após dez anos de instituição do sistema cooperativista no MST, em 1999, a equipe de pesquisa da CONCRAB publicou uma cartilha intitulada “A evolução da concepção de cooperação agrícola do MST”, Caderno de Cooperação Agrícola, nº 08, 1999, documento este que busca refletir sobre a evolução da política de organização dos assentamentos e da cooperação e os debates desse período, resgatando os principais documentos até então publicados.
Os primeiros documentos publicados entre 1990 e 1992 abrangem em seu conteúdo exclusivamente as questões da produtividade123, considerando centrais os problemas relacionados à organização da produção e tratando, com certa relatividade, outros elementos importantes, como o potencial de relações associativas presentes na vida dos assentados. A generalização das dificuldades parece anular as experiências e o saber acumulado pelos grupos desde a época do acampamento.
A análise dos documentos do movimento, dos relatos e testemunhos indica que estava ausente uma devida atenção às formas societárias das famílias assentadas no período anterior ao assentamento, tais como relações de compadrio, associações festivas e religiosas, grupos de residência e outras formas de expressão cultural que se refletem em formas societárias. O acampamento/assentamento, mais que uma perspectiva de alternativa de sobrevivência econômica, se colocava como uma experiência social inteiramente nova, reordenando integralmente as formas de sociabilidade, da qual a cooperativa foi a experiência mais viável.
As diretrizes do MST, em função da solução dos problemas relacionados à produção, que aparentavam ser gravíssimos, apontava linhas políticas para a formação de cooperativas agrícolas. O Plano Nacional do MST, de 1989/1993, relaciona, dentre treze itens, alguns como:
“Desenvolver e estimular as formas de cooperação agrícola nos assentamentos, como única forma de aumentar as potencialidades de produção e produtividade”124.
Dessa formulação desencadeiam-se outros pontos que parecem nortear toda a política adotada pelo MST, julgada como a mais eficaz e única, descartando, assim, outras formas de cooperação que não necessariamente sejam as cooperativas propriamente ditas.
Carvalho125, ao analisar as contradições dos processos de cooperação entre assentados, destaca que, a partir de 1989, a diretriz do MST estava centrada na questão da formação de cooperativas nos assentamentos:
“A idéia de coletivização da produção começou formalmente a perpassar o discurso hegemônico, resultando na idéia da Cooperativa de Produção Agropecuária – CPA – como alternativa mais promissora no campo da construção do homem novo”.
Essa idéia primordial de criação de novas relações sociais, fundada na concepção socialista de um projeto que seria concretizado pelos assentados, transformando as práticas sociais produtivas, é completada:
“(...) não foram desenvolvidas e consolidadas a partir de vivências anteriores das pessoas, das suas histórias de vida e de trabalho, das suas formas anteriores de organização e de cooperação, de suas identidades sociais”126.
124 Ib., p. 7.
125 Carvalho escreve um texto que está inserido no Caderno de Cooperação Agrícola, nº 08, 1999, intitulado “As contradições internas no esforço de cooperação nos assentamentos de reforma agrária do MST (1989-1999)”. Essa análise mais abrangente e contundente feita pelo autor possivelmente contribui para a revisão das diretrizes da organização das cooperativas do MST.
Por essas considerações, pode-se inferir as novas questões voltadas à realidade do “Grupo de Campinas”, ainda no período inicial da COPAJOTA. O grupo aspirava, em primeira instância, mais que resolver questões da produtividade, concretizar seus sonhos e ideais socialistas, que para alguns acabaram se diluindo ainda no início do processo.
Caberia, portanto, mais uma questão: até que ponto as questões como experiências de vida, histórias de vida e trabalho das pessoas foram suplantadas em detrimento das questões externas que iam definindo as novas relações socais? Um elemento externo de grande relevância pode ser atribuído à Constituição Federal, promulgada em 1988, que possibilitou formas legais de organização como as CPAs, também assinalado por Carvalho127:
“Efetuou-se uma racionalização, portanto, uma argumentação com escassa fundamentação sócio-antropológica e política de suas possibilidades efetivas, de que a cooperação, ideologicamente suposta como coletivização, poderia efetivar-se formalmente como cooperativa. Implantou-se a idéia de coletivização independentemente da dinâmica histórica social vivenciada pelos seus atores. E, com a coletivização, institui-se abruptamente como cooperativa, esta figura técnico- burocrática passou então, a ser o ponto focal das possibilidades de sucesso da cooperação”.
A partir do “Plano Nacional do MST 1989/1993”, em que afirmou-se a necessidade de desenvolver todas as formas de cooperação, observa-se que, na década de 1990, institucionalizaram-se as cooperativas, e sua disseminação pelo país todo refletiu-se como uma “fórmula” aplicável a
todos, ofuscando a pluralidade e o dinamismo criativo das formas de cooperação existentes nos assentamentos. Às formas de cooperação, contudo, pode ser atribuída uma maior diversidade, respeitando as características do grupo, sem no entanto “forçar” um padrão único tido como o mais eficaz, ignorando outras formas possíveis experimentadas pelos trabalhadores rurais.
A implantação das cooperativas do MST, na década de 1990, de certa forma reduziu a amplitude e a pluralidade da cooperação no assentamento. Essa questão irá refletir-se na COPAJOTA, indicando uma das causas dos conflitos que resultaram na cisão da cooperativa.
Para finalizar o presente capítulo, é necessário retomar os dois aspectos básicos nele abordados, ou seja, a questão da produção e da organização interna.
Com relação à produção, procurou-se evidenciar que a cooperativa de produção enfrentou dificuldades frente ao sistema capitalista regido pela política neoliberal. A questão é como competir com o mercado se a produção não gera renda suficiente para investir. O entrave parece estar na gestão e na falta de capital. Houve “apoio” – mas não se pode definir o seu grau de eficácia – de ONGs nacionais e internacionais, mas muitos projetos ficaram em experiências que obtiveram sucesso mas que depois se desfizeram. Daí é possível pensar até que ponto a cooperativa não se
identificou mais como um laboratório experimental do que como um projeto bem definido.
O segundo aspecto se refere à questão organizacional. Se, por um lado, a organização nacional do MST, a partir de 1985, estava mais voltada para a formação de quadros e o início da organização no estado de São Paulo, podemos supor que havia uma certa compatibilidade entre o grupo de lideranças de Campinas com a linha que o MST passou a adotar naquele período. Essa hipótese pode ser sustentada quando analisamos mais detalhadamente os conflitos na COPAJOTA. O grupo se caracterizava pelo número expressivo de lideranças dos movimentos sociais dos quais se originara. Portanto, ao morar, conviver, organizar-se numa relação muito estreita, que parece ir além da experiência comunitária das CEBs, diferenças afloraram e transformaram o seu enfrentamento em desafio. Este pode ser um dos pontos nevrálgicos geradores dos conflitos nas relações sociais do grupo em questão. É importante salientar que, na pesquisa de campo realizada, as pessoas escolhidas para serem entrevistadas foram lideranças anteriores a sua entrada no MST e que se tornaram lideranças nos quadros desse movimento em nível estadual e nacional. Nesse sentido, a linha adotada pela organização do MST, de formação de quadros, coincide com a formação do “Grupo de Campinas”.
Por fim, os dados expostos neste capítulo revelam que a questão da produção e da organização é perpassada pela questão de gênero. Na fala das pessoas entrevistadas transparece que todos os conflitos e encaminhamentos em relação à produção e organização têm forte ressonância nos modelos de
convivência entre homens e mulheres. A produção e organização reflete-se, ainda, nas relações entre gerações, ou melhor, no desejo dos jovens de se inserirem nas práticas produtivas no assentamento e, conseqüentemente, usufruir dos benefícios por eles proporcionados. A análise dessa questão é o objetivo do capítulo que segue.
C
APÍTULO4–D
ILEMAS DA PARTICIPAÇÃO DE JOVENS E MULHERES NACOPAJOTA–A
DIFÍCIL CONSTRUÇÃO DOS SUJEITOS SOCIAIS4.1. Introdução
Este capítulo guarda estreita conexão com as considerações do anterior, visando, no entanto, a retomar os conflitos que resultaram na extinção da COPAJOTA e introduzir um outro recorte, que aponta para as dificuldades de inserção dos jovens em toda a trajetória do assentamento. Também destaca o importante papel das mulheres que se descobrem enquanto sujeitos sociais e políticos importantes, mesmo que no interior das difíceis relações sociais que emergiram dos conflitos relacionados às formas assumidas pela cooperativa. Nesta direção, o que se pretende é lançar um olhar mais atento – através dos relatos e testemunhos das entrevistas – para as histórias das idas e vindas, dos desencontros de visões e concepções, e da difícil trajetória que as classes subalternas, como diria Gramsci, percorrem visando a alcançar a consciência crítica, no sentido da transformação e emancipação. Campo este aberto e indefinido, que permite, no entanto, delinear alguns “horizontes de significados” importantes para novas lutas e práticas societárias
4.2. Entre a forma e o conteúdo da cooperativa – considerações