Falamos da pessoa com deficiência como expressão da pobreza. ―A questão da pobreza norteou a Teologia da Libertação e deve continuar incomodando aqueles que sonham com uma sociedade justa e fraterna‖.168 Sendo a Teologia da Libertação uma grande
contribuição latino-americana para se fazer teologia, teologia esta que pensa a relação de Deus com os homens e dos homens entre si desde o pobre, fazendo deste um lugar teológico, pergunta-se pelo rosto da pessoa com deficiência, sua visibilidade, na Teologia da Libertação.
A teologia latino-americana insiste que os pobres nos ensinam. Ensinam a solidariedade e a confiança em Deus ao esperar com fé o pão de cada dia. Da mesma forma, temos a aprender com as pessoas com deficiência. Vale lembrar que as limitações são características da condição humana.169 Talvez este seja o grande e principal aprendizado que o paradigma da inclusão tem a oferecer ao mundo. Pessoa com deficiência e pobre – força profética da pobreza e da vulnerabilidade, unidas como sinal dos tempos. Qual deve ser a postura da Igreja diante deste sinal? Para Bortolleto Filho,
A situação de pessoas com deficiência e empobrecidas representa um clamor diante de um mundo que se organiza cada vez mais em função do que é global e generalizante. A Igreja deve estar atenta a esse clamor, pois não se conformar com este século é dar testemunho sobre a diversidade da vida humana. O mundo atual ―padroniza‖ tudo em função de parâmetros econômicos de mercado. Assim como o meio ambiente clama pela preservação de sua rica diversidade, também os seres humanos, criados todos à imagem de Deus, devem clamar por respeito à sua também rica diversidade.170
O teólogo Noel Collot publicou estudo em que contrapõe, para a evangelização da América Latina, um período vivido sob o regime de um Deus imposto e outro em que surge um Deus libertador. Para Collot uma teologia de imposição e dominação imprime conceitos que, há mais de quinhentos anos, no referido continente, dilaceram e ferem a realidade de um Deus criador.171
Passariam séculos até que surgisse na América Latina o conceito desafiador de um Deus libertador, capaz de conduzir o povo a uma terra promissora, à qual não
167 COLLOT, Noel Fernández. Teologia latino-americana e deficiência. In: Teologia e deficiência, p. 99. 168 BORTOLLETO FILHO, Fernando. Deficiência e pobreza. In: Teologia e deficiência, p. 42.
169 Cf. BORTOLLETO FILHO, Fernando. Deficiência e pobreza. In: Teologia e deficiência, p. 45. 170 Ibidem, p. 47.
chegaria sem as fortes dores de uma longa e onerosa peregrinação pelo deserto. [...] para dar ao homem e à mulher do caminho um acompanhamento libertador, que desembocaria no Deus que é reconhecido na partilha do pão.172 Na atitude
abrangente da teologia que nasce na segunda metade do século passado, os povos indígenas, as mulheres, os mineiros, os camponeses, os operários, os favelados, os sem-terra, os perseguidos e muitos outros são objeto de análise dos enfoques que permitem superar os esquecidos de séculos e criar o sentido de esperança no Deus de todos e todas para todos e todas.173
A Teologia Latino-Americana deu rosto aos fragilizados. Trabalhou a partir de elementos para o resgate da dignidade de cada ser humano como sujeito de direitos. Indiretamente, a pessoa com deficiência está contemplada nesta produção teológica que alimentou a ação pastoral dos últimos anos e por esta foi animada. Contudo, se a Teologia da Libertação deu nome à mulher, ao operário, ao favelado, ao sem-terra, entre outros a fim de torná-los sujeito, parece de extrema importância a inclusão direta da pessoa com deficiência neste discurso teológico. Collot classifica o fato da ausência da pessoa com deficiência na Teologia Latino-America, a partir de sua pesquisa, de um sensível esquecimento.
Até onde pudemos pesquisar não existe na teologia latino-americana uma referência expressa às pessoas portadoras de deficiência. Esse Deus abrangente armou sua tenda entre os cegos, os surdos, e cegos, pessoas com limitações intelectuais e aquelas com limitações físico-motoras. Essas, para as quais também é o Deus da libertação, não são consideradas sujeitos expressos da teologia, mas invisibilizados. Em uma sociedade classista como esta que se apresenta na América Latina, entre os mais pobres encontram-se as pessoas portadoras de deficiência. Essas, na quase totalidade dos casos, não podem ser objeto do mercado de trabalho, e seu nível de subsistência fica à mercê da caridade pública e da beneficência religiosa. Essas atitudes tratam de esconder a ausência do compartilhar do Deus da Vida e da Esperança. Poder-se-ia dizer que, em meio ao despertar teológico de que fizemos parte na América Latina na segunda metade do século passado, as pessoas portadoras de deficiência estiveram ausentes, como uma perspectiva específica, de uma teologia que lhes oferecesse as ferramentas para sua inclusão total e plena.174
É bem verdade que há um sinal evidente da inclusão do Deus que Jesus Cristo encarna e prega. Refletimos de maneira abundante sobre esta realidade. Trata-se do Deus- libertador, que oferece o lugar devido à mulher, reconhece a dignidade dos estrangeiros e ocupa-se das crianças. É o ―Deus que não faz acepção de pessoas‖ (Rm 2,11; Gl 2,6; Ef 6,9; Cl 5,25), conforme apontamos ao estudar este conceito no Novo Testamento.175
De maneira geral, os tempos atuais são muito mais positivos e esperançosos, não há dúvida disso, mas não é possível crer que já foi feito tudo para que existam os mecanismos legais para a sua realização. A base moral para que eles se efetivem, a Igreja tem em
172 COLLOT, Noel Fernández. Teologia latino-americana e deficiência. In: Teologia e deficiência, p. 92. 173 Ibidem, p. 93.
174 Ibidem, p. 94. 175 Cf. Ibidem, p. 97.
abundância. É necessária a ativação da consciência social, da educação e da ação, não somente para a atenção adequada às pessoas com deficiência, mas também dos mecanismos governamentais ou não para prevenir o crescimento da deficiência e seu aumento por causas que possam ser erradicadas.176 Se o governo age, muitas vezes, por força da pressão da lei, a Igreja deve agir impulsionada pelo testemunho moral alicerçado em Jesus Cristo.