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Em primeiro lugar, cabe explicitar que o presente trabalho se constrói a partir de uma abordagem qualitativa. Se em alguns momentos utilizamos números, trata-se não de um desvio de rota rumo à pesquisa quantitativa, mas de um recurso para iluminar um contexto específico, sobre o qual os dados numéricos falam de forma eloqüente.

A escolha da pesquisa qualitativa se dá, em primeiro lugar, porque “(...) permite compreender o ser humano na fluidez das relações sociais.” (SPINK e MENEGON, 2004, p. 84), e pela crença de que não existe uma Verdade a ser encontrada e revelada pela pesquisa, nem mesmo uma realidade dada, já pronta, a que se possa aceder com a neutralidade do/a pesquisador/a, pelo rigor científico e procedimentos metodológicos controlados.

Do ponto de vista da pesquisa quantitativa, “(...) a mensuração, a quantificação, a busca da causalidade, do controle estatístico e de variáveis tornam-se o meio para gerar conhecimento válido e universal.” (GONDIM, 2003, p. 150). Por essa abordagem, o caráter científico de uma pesquisa se dá por sua suposta objetividade, pela possibilidade de ser replicada e pela generalização de seus resultados (GONDIM, 2003). Há, então, uma crença na total separação entre sujeito (investigador) e objeto (alvo da investigação) da pesquisa. E na capacidade que a linguagem científica teria para representar um fenômeno, um fato, uma realidade, que existiriam independentemente da ação do pesquisador-cientista.

Do ponto de vista da pesquisa qualitativa, entretanto, “(...) o que é investigado não é independente do processo de investigação e, sendo assim, o conhecimento produzido é valorativo e ideológico.” (GONDIM, 2003, p. 150). Por isso, para quem compartilha dessa forma de compreender a produção científica, esta só tem sentido se servir como “(...) um instrumento para a autoconscientização e ação humana. (...) bem como um aumento da exigência do comprometimento do pesquisador com a transformação social.” (GONDIM, 2003, p. 150).

Para diversas abordagens qualitativas, a linguagem não somente representa o mundo, mas também o constrói. “A linguagem não só nos diz como é o mundo, ela também o institui; e não se limita a refletir as coisas do mundo, também atua sobre elas, participando de sua construção”. (IBAÑEZ, 2005, p. 39). Esse caráter performativo da linguagem impede qualquer possibilidade de existir um distanciamento entre sujeito e objeto, qualquer possibilidade de haver, enfim, uma neutralidade científica, pois, na medida em que falamos ou escrevemos sobre um suposto “objeto”, também o estamos constituindo.

De forma muito clara, Thomas Laqueur (2001) mostra como isso é possível. Ele mostra, entre outras coisas, que o discurso vitoriano sobre a sexualidade das mulheres era uma construção nova, recente à época, já que até o final do século XVII o orgasmo, tanto de homens como de mulheres, era considerado essencial para a reprodução e um fato corriqueiro na vida. E a sensualidade era associada às mulheres, não aos homens.

O lugar-comum da psicologia contemporânea – de que o homem deseja o sexo e a mulher deseja o relacionamento – é a exata inversão das noções do pré-iluminismo que, desde a Antiguidade, ligava a amizade aos homens e a sensualidade às mulheres. (LAQUEUR, 2001, p. 15).

Na medida em que a ciência “descobriu” que a reprodução poderia se dar independentemente do prazer sexual feminino, esse passou ao segundo plano, abrindo-se ainda a possibilidade de se discutir a sexualidade feminina, esquadrinhá-la, classificá-la, debatê-la, até simplesmente negá-la.

As mulheres, cujos desejos não conheciam fronteiras no antigo esquema e cuja razão oferecia pouca resistência à paixão, tornaram-se, em alguns relatos, criaturas com uma vida reprodutiva anestesiada dos prazeres carnais. Quando, no final do século XVIII, passou-se a pensar que a ‘a maioria das mulheres não se preocupava com sentimentos sexuais’, a presença ou ausência do orgasmo tornou-se um marco biológico da diferença sexual. (LAQUEUR, 2001, pp. 15-16)

Por isso, as gerações posteriores – e sua forma de entender e viver a sexualidade – foram conformadas por esse discurso. Até os anos 1970, quando o feminismo começa a produzir de forma mais sistemática um contra-discurso

para se desfamiliarizar/descontruir essa “realidade”, acreditava-se piamente que o sexo era, para o homem, uma necessidade biológica, mas o mesmo não era válido para a mulher. Os rapazes que queriam ter um relacionamento sexual com suas namoradas freqüentemente usavam esse argumento de que o sexo era uma “necessidade biológica” masculina, quando elas se negavam a “ceder” (e era esse o esperado: que elas resistissem bravamente), o que funcionava, ao mesmo tempo, tanto como uma pressão para vencer as resistências delas, quanto uma justificativa para uma eventual traição deles, uma “escapada” com outra garota que fosse mais permissiva, mais “compreensiva”. A literatura de Nélson Rodrigues, produzida na segunda metade do século XX, nos fornece uma miríade de exemplos de como essa produção discursiva conformou o ethos e as práticas sexuais dos/as brasileiros/as.

Pela função central que dá à linguagem – principalmente por seu poder performativo – e pela compreensão de que o próprio indivíduo é uma construção social, aproximamo-nos da perspectiva foucaultiana e do construcionismo para problematizar e, se possível, lançar outras luzes ao tema do presente trabalho.

O construcionismo se apresenta, segundo Ibáñez, como uma postura “desrreificante, desnaturalizante e desessencializante, que radicaliza ao máximo tanto a natureza social do nosso mundo, como a historicidade de nossas práticas e de nossa existência” (1994, p. 43). Além de o construcionismo afirmar que todo o conhecimento é uma construção, também se opõe a quatro crenças que se configuram como obstáculos à adoção de uma postura construcionista (IBÁÑEZ, 1994).

A três delas já nos referimos acima: a existência da dicotomia sujeito- objeto; a concepção representacionista do conhecimento; e a crença na verdade. Sobre esta última, cabe ressaltar que se trata de uma crítica à noção de verdade como equivalente a ‘conhecimento absoluto’. Ibáñez não nega a existência de verdades no mundo, mas afirma que elas são específicas e construídas a partir de convenções e da adequação a finalidades tidas coletivamente como relevantes. “O que a postura construcionista reivindica é a necessidade de remeter a verdade à esfera da ética; pontuar sua importância

não como verdade em si, mas como relativa a nós mesmos”. (SPINK e FREZZA, 2004, p. 30)

A quarta crença-obstáculo seria que o cérebro produz conhecimento e é a sede do pensamento. É claro que não se pode pensar sem um determinado tipo de cérebro e que lesões cerebrais podem atrapalhar ou impedir o pensamento, mas “(...) o pensamento não se constitui uma propriedade de nosso cérebro” (IBÁÑEZ, 1994, p. 46). Para esse autor, colocar o cérebro como sede do pensamento serviu apenas para menosprezar o papel que as práticas e as produções sociais têm na conformação do pensamento e também do conhecimento. Para ele, os processos cognitivos se modificam conforme se modificam as práticas sociais, e a própria forma como pensamos – e não somente o conteúdo dos pensamentos – dependem tanto dos nossos neurônios, quanto das produções sociais. Ele conclui, afirmando: “(...) se em algum lugar se encontra o pensamento, é na interação cérebro/sociedade, não em uma substância, mas em um processo.” (grifo do autor) (IBÁÑEZ, 1994, p. 47). Por isso, segundo ele, é no âmbito das Ciências Sociais que se pode explicar o pensamento.

O construcionismo como abordagem teórica bebe de várias fontes, tanto da Filosofia, como da Sociologia do Conhecimento, quanto da Política (SPINK, 2004). Também é devedor da produção teórica de Michel Foucault, uma das mais ricas e influentes do século XX. Para Foucault, o discurso é uma prática social, que tem um contexto de produção. Esse contexto seria a formação discursiva, um conjunto de relações que articulam um discurso, permitindo, segundo certas estratégias, que alguns enunciados circulem em detrimento de outros. (IÑIGUEZ, 2005). As práticas discursivas, então, seriam

(...)as regras anônimas, constituídas no processo histórico, ou seja, determinadas no tempo e delimitadas no espaço, que, em uma época concreta e em grupos ou comunidades específicas e concretas, vão definindo as condições que possibilitam qualquer enunciação. (IÑIGUEZ, 2005, p.92)

Assim, na perspectiva foucaultiana, os discursos seriam práticas que, de forma sistemática, formam os objetos sobre os quais falam.

Após essa breve introdução, esperamos ter justificado a nossa opção pela abordagem qualitativa e a escolha de grupos focais como forma de investigação qualitativa para o âmbito desta pesquisa.

Após uma breve explanação sobre a técnica do grupo focal, descreveremos os procedimentos metodológicos utilizados para realizar os grupos focais para essa pesquisa. Depois apresentaremos brevemente a composição de cada grupo e, em seguida, a forma de tratar os dados pela qual optamos.