No que se refere mais especificamente ao texto escrito, as pesquisas que começaram a focalizá-lo como objeto de estudo, dando início à Lingüística do Texto ou Lingüística Textual, consideraram-no de várias formas: primeiramente como unidade lingüística do sistema superior à frase; depois como sucessão ou combinação de frases, conjunto de proposições semânticas, fenômeno psíquico; e mais recentemente como atividade verbal decorrente de estratégias cognitivas e interacionais. De acordo com essa última concepção, o texto é definido por Koch (1997, p. 22) como:
[...] manifestação verbal constituída de elementos lingüísticos intencionalmente selecionados e ordenados em seqüência, durante a atividade verbal, de modo a permitir aos parceiros, na interação, não apenas a depreensão de conteúdos semânticos, em decorrência da ativação de processos e estratégias de ordem cognitiva, como
também a interação (ou atuação) de acordo com práticas socioculturais.
Ainda segundo a autora, para que o sentido de um texto seja construído, é necessária a combinação de vários fatores, entre eles o conhecimento lingüístico, que possibilita às pessoas falarem, escreverem e reconhecerem uma língua, desde o léxico até a gramática; o conhecimento textual ou interacional, que permite classificar os textos sob os pontos de vista estrutural e interativo entre os interlocutores, e reconhecer as marcas lingüísticas e não lingüísticas do falante ou escritor; e o conhecimento de mundo ou conhecimento enciclopédico, que envolve as experiências das pessoas sobre as coisas, as crenças e o comportamento humano. Ou seja, esses conhecimentos não são estanques, mas relacionados entre si uma vez que são postos em ação por ocasião do processamento textual, por meio de estratégias cognitivas, pragmáticas ou contextuais que fazem parte do conhecimento prévio do escritor e leitor, conhecimento necessário para que eles interajam entre si e construam o sentido textual.
Nessa perspectiva, o desenvolvimento cognitivo, as formas de representação do conhecimento na memória, a ativação desses sistemas, assim como as estratégias interacionais e sociocognitivas envolvidas nesse processamento, proporcionam ao leitor a possibilidade de desvendar “os segredos do texto” (KOCH, 2002). Para que tal desvendamento ocorra, segundo a autora, é necessário que os contextos cognitivos de dois ou mais indivíduos sejam mais ou menos parecidos e compartilhados.
Dentre outros pesquisadores que se destacam no estudo do texto, van Dijk (1992), centrado em uma perspectiva mais sociocognitivista, diz que os modelos mentais são muito importantes porque podem ajudar a explicar vários aspectos especiais no processamento textual, tais como a coerência, a subjetividade, a incompletude, a ativação e formação de frames, as crenças, os conhecimentos de mundo, desempenhando assim um papel vital na compreensão do texto. Segundo ele, esses modelos
[...] dão uma visão da organização da memória episódica e fornecem o vínculo necessário entre a dimensão pessoal e social da compreensão, definindo o objeto último da interação comunicativa. [...] Além de serem o resultado da compreensão, eles fornecem a noção há muito necessária de ‘ponto de partida’ para os processos de compreensão; planejar texto ou fala é, antes de mais nada, estabelecer um modelo de contexto, e ativar e expressar parcialmente conhecimento e crenças relevantes incorporadas no modelo (VAN DIJK, 1992, p. 176).
Na perspectiva do autor, esses modelos desempenham um papel decisivo na interpretação, já que podem ser ativados por meio de elementos lingüísticos presentes no texto ou de elementos extralingüísticos, incorporando o conhecimento e crenças relevantes sobre o tema, que não são dados no texto, mas pressupostos. Reforçando isso, van Dijk (1992, p. 160) diz que “[...] um interessante produto adicional desta interpretação de discurso baseada em modelos é, com efeito, que a compreensão e, portanto, o estabelecimento da coerência podem ser subjetivos e portanto variáveis”.
Como se pode constatar, o autor trata do modelo cognitivista procurando relacioná-lo ao aspecto subjetivo, do mesmo modo que o faz em texto anterior em co-autoria com Kintsch. Nesse trabalho, van Dijk e Kintsch (1983) intensificam a recursividade entre as macroestruturas e microestruturas textuais e as condições de produção, destacando, dentre os diversos procedimentos propostos, os do planejamento, da elaboração e da revisão de texto. Para tanto, eles fazem a distinção entre o discurso planejado ou escrito do discurso não planejado ou oral, enfatizando o estudo do planejamento. Este, focalizado inicialmente como uma etapa da pré-escrita, passou, aos poucos, a ser visto como um procedimento que perpassa o processo total de elaboração escrita, procurando-se esclarecer a diferença de planejamento entre redatores experientes e inexperientes e entre estudantes considerados bons e fracos na produção textual; o tempo dedicado ao gênero, tema e situação; a releitura e suas implicações para a criação de outras idéias; a interferência da situação de produção, entre outras. A elaboração do texto é vista assim como a tentativa de tradução daquilo que foi planejado.
Diferentemente desse modelo cognitivista, conforme veremos mais detalhadamente no segundo capítulo, Bakhtin (2003), em uma perspectiva dialógica,
diz que o texto é constituído por dois pólos: o do sistema da língua, da oração – do repetível, reproduzível e convencional –, e o do enunciado, do acontecimento – do irrepetível, irreproduzível e único. No primeiro pólo, em que o texto é focalizado como elemento apenas lingüístico, da ordem do material, do dado, ocorre a relação intersígnica, enquanto que, no segundo pólo, em que o texto é concebido como enunciado, da ordem do singular, do criado, do contexto genuíno, ocorre a relação entre pelo menos duas vozes, dois pontos de vista, duas consciências. Assim sendo, o texto é ao mesmo tempo objeto de significação e dialógico.
Assim compreendido, como prática social e discursiva, em uma perspectiva que ultrapassa as relações lingüísticas, o texto tem articulação com valores extraverbais, não sendo possível deixar de se considerar a presença das outras vozes, conforme diz Oliveira (2004, p. 125):
O texto é um “trio”, do qual participam o “eu”, o “tu” e as “vozes dos outros”, pressupõe uma língua, sem a ela restringir-se, podendo sua análise caminhar [...] para o “acontecimento”, sua face irreproduzível, com sua constituição enquanto enunciado, evento único, elo na cadeia da comunicação verbal, dotado de autoria.
Nesse sentido, o texto não existe isoladamente, mas no entrecruzamento e na interpenetração com outras vozes, as quais, segundo Bakhtin (1990a), podem ser de autoridade (quando interpelam, cobram reconhecimento e adesão incondicional, sendo resistentes a bivocalizações e não podendo ser citadas em vão) ou persuasivas (quando transitam nas fronteiras, sendo permeáveis às bivocalizações e hibridizações e abrindo-se continuamente para a mudança).
Nesse movimento, as relações de sentido que se estabelecem entre os discursos citados têm como referência a interação socioverbal, o que implica a necessidade de o material lingüístico ser transformado em enunciado, em discurso, fixando a posição de um sujeito, a qual é tomada não só a partir de seus propósitos comunicativos, conhecimentos e experiências, mas também da representação que faz de seu leitor virtual ou predeterminado, dependendo fundamentalmente dessa imagem para que a interação social por meio da linguagem aconteça. Ao produzir
um texto, o autor, experiente ou iniciante no ato de escrever, sempre se dirige a um interlocutor. Logo, o produto escrito tem caráter interativo e social, já que é elaborado por um(ns) sujeito(s) para outro(s) sujeito(s) que carregam consigo conhecimentos, experiências, crenças, pontos de vista, expectativas que podem ou não ser compartilhadas no processo discursivo. Daí por que é fundamental que o revisor, conforme demonstrado ao longo desta pesquisa, também considere o enunciado como elemento de análise no ato de revisar um texto.
Assim sendo, é preciso que o revisor – além de analisar os aspectos lingüísticos, relacionados com a estrutura da língua, organização e processamento das idéias por meio de elementos coesivos e notacionais –, leve em consideração os aspectos discursivos, que estão relacionados com as peculiaridades da situação interativa, do gênero em que o texto será organizado, das condições de produção e de recepção, daí a importância das estratégias de interação entre ele e o autor no processo de revisão de textos. Como o revisor é um profissional que trabalha a linguagem, com a linguagem e sobre a linguagem (GERALDI, 2002), essa relação intersubjetiva só pode ser concretizada por meio de uma concepção de linguagem como ação, atividade, como prática social e discursiva, deslocando-se assim “da noção de representação para a noção de trabalho lingüístico, [...] das preocupações descritivistas para a compreensão do próprio fenômeno da linguagem e seu funcionamento [para] incorporar o processo de produção de discurso como essencial”, conforme aponta Geraldi (2003, p. 4-5). E para trabalhar a revisão nessa perspectiva, como atividade, como ocorrência real, trabalho concreto praticado por sujeitos sociais em situações discursivas, acreditamos que a interação socioverbal é fundamental.
Nesse sentido, tomando o texto como “dado (realidade) primário”, e considerando as “formas concretas dos textos” e as “condições concretas da vida dos textos” (BAKHTIN, 2003, p. 319), é que, na revisão de textos, consideramos que o aspecto estrutural, do pólo da oração, seria o ponto de chegada, e o discursivo, do pólo do enunciado, o ponto de partida, como propõe Bakhtin/Volochinov (1990a). É do que trataremos no capítulo a seguir.
[...] o trabalho de revisão não é reconhecido como deveria. Talvez a explicação disso seja o preconceito ainda forte de que o trabalho do revisor se restringe a corrigir as vírgulas mal empregadas e as palavras equivocadamente escritas.
A língua existe não por si mesma. É apenas através da enunciação que a língua toma contato com a comunicação, imbui-se do seu poder vital e torna-se realidade. As condições mutáveis da comunicação socioverbal precisamente são determinantes para as mudanças de formas.
Bakhtin/Volochinov ([1929]1990a)
2 A REVISÃO DE TEXTOS E A CONCEPÇÃO DE LÍNGUA: do discurso à