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Quanto ao contexto no qual as atividades foram aplicadas, separamos os trabalhos analisados em dois grupos. No primeiro grupo reunimos os trabalhos que relatam atividades didáticas aplicadas em disciplinas da área de ciências da natureza (química, física, biologia etc.), as quais, além de serem direcionadas ao aprendizado dos conceitos científicos, trazem também em seu bojo a preocupação com o aprimoramento da comunicação científica por parte dos estudantes. No segundo grupo estão os trabalhos que apresentam relatos de atividades desenvolvidas em disciplinas ou projetos voltados especificamente ao aprimoramento de diversas habilidades relacionadas à comunicação científica, tais como o reconhecimento das seções típicas dos textos científicos e suas principais características (conteúdos, forma de organização do texto, aspectos de padronização etc.), familiarização com as principais fontes de pesquisa da literatura científica da área e a produção e apresentação de diversos tipos documentos científicos (relatórios, artigos, painéis, seminários etc.). Na Tabela 1.4 apresentamos a distribuição, nos referidos grupos, de todos os artigos selecionados do JCE, JCST e CE (cujos números estão listados, respectivamente, nas Tabelas 1.1, 1.2 e 1.3).

TABELA 1.4 – Distribuição dos artigos selecionados do Journal of Chemical Education (JCE), do Journal of College Science Teaching (JCST) e do The Chemical Educator (CE) quanto ao contexto de aplicação das atividades relacionadas ao aprimoramento da comunicação científica.

Natureza do trabalho Nº dos artigos do JCE Nº dos artigos do JCST

Nº dos artigos do CE a) Relato de atividades de comunicação científica aplicadas em disciplinas da área de ciências da natureza 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 11, 12, 13, 14, 15, 17, 18, 19, 20, 22, 24, 26, 27, 28, 30, 31, 32, 33, 35, 37, 41, 42, 43, 44, 45, 46, 48, 49, 50, 51, 52, 54, 55, 59, 60, 61, 62 1, 2, 3, 4, 6, 8, 9, 10, 11, 12, 14, 16, 17, 20, 22, 23, 25, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 40, 41, 42, 43 1, 2, 3, 4, 5 b) Relato de atividades didáticas aplicadas em disciplinas ou projetos específicos para o aprimoramento da comunicação científica 8, 9, 10, 16, 21, 23, 25, 29, 34, 36, 38, 39, 40, 47, 53, 56, 57, 58, 63, 64, 65 5, 7, 13, 15, 18, 19, 21, 24, 26, 44 -

Os dados apresentados concordam com as colocações de Robinson et.al (2009), os quais ressaltam que para incorporar, por exemplo, a escrita científica dentro dos currículos de química, os educadores têm usado como espaço tanto as disciplinas teóricas quanto as experimentais, bem como as experiências de pesquisa na graduação. Os autores também enfatizam que alguns esforços têm sido realizados no sentido de desenvolver disciplinas especialmente dedicadas à escrita científica. Com isso têm proliferado as atividades, tarefas e guias de escrita científica que visam auxiliar o aluno no desenvolvimento de tais habilidades. Forest e Raine (2009), por outro lado, lembram ainda de alguns fatores que dificultam a implementação de propostas dessa natureza no currículo, como o aumento no volume de trabalho tanto para os alunos quanto para os professores, sobretudo em turmas grandes, e a falta de tempo e espaço no currículo.

Na Figura 1.1 apresentamos o número total de artigos que relatam a aplicação de atividades em disciplinas da área de ciências ou em disciplinas/projetos específicos e sua distribuição conforme a revista pesquisada. De acordo com os dados, podemos observar que, nas três revistas pesquisadas, a maior parte dos artigos – 43 do JCE, 36 do JCST e 5 do CE – corresponde aos trabalhos que reportam atividades didáticas relacionadas ao aprimoramento da comunicação científica aplicadas em disciplinas da área de ciências da natureza. Juntos, esses artigos correspondem a 73,7% dos artigos selecionados.

FIGURA 1.1 – Número de artigos selecionados do Journal of Chemical Education (JCE), do Journal of College Science Teaching (JCST) e do The Chemical Educator (CE) que apresentam relatos de aplicação de atividades em disciplinas da área de ciências ou em disciplinas/projetos específicos sobre comunicação científica.

Esse dado é bastante coerente com a pesquisa realizada por Garritano e Culp (2010), cujo intuito foi identificar as ações empregadas nos cursos de graduação em química com a finalidade de desenvolver nos estudantes habilidades de busca de informações de literatura científica. Com base nas respostas fornecidas a um questionário aplicado a membros de departamentos de química de diversas universidades americanas, os autores verificaram que 74% das instituições incorporam às disciplinas de química atividades e/ou projetos com tal objetivo. Destacam ainda que há uma tendência maior entre as instituições em aplicar propostas dessa natureza em diversas disciplinas da área de ciências que em disciplinas específicas sobre literatura científica. Os autores observaram ainda que 66% das propostas são oferecidas exclusivamente pelos membros do departamento, 26% apenas pelos profissionais da biblioteca e 33% por meio de parcerias entre professores e bibliotecários.

Uma das vantagens de se inserir tais atividades em disciplinas científicas é que os próprios conteúdos nelas abordados podem ser empregados como ponto de partida para a pesquisa, produção e apresentação de diversos tipos de documentos que circulam na comunidade científica. Nesta perspectiva Renaud, Squier e Larsen (2006) ressaltam que as disciplinas experimentais representam um espaço bastante profícuo para se desenvolver, por exemplo, as habilidades de comunicação oral, uma vez que os alunos já dispõem de dados de experimentos coletados no laboratório e podem apresentá-los e discuti-los na forma de seminários ou sessões de painéis. Para Somerville e Cardinal (2003), as habilidades de busca de informação na literatura científica podem ser continuamente desenvolvidas

0 20 40 60 80 100 [a] Relato de atividades de comunicação

científica aplicadas em disciplinas da área de ciências da natureza [b] Relato de atividades aplicadas em disciplinas ou projetos específicos para

o aprimoramento da comunicação científica Número de artigos JCE JCST CE

integrando-se tais atividades nas várias disciplinas do currículo, favorecendo, dessa forma, além do aprimoramento da capacidade de localizar e analisar informações na literatura, a obtenção de conteúdos atualizados relacionados às disciplinas.

Portanto, tais articulações são interessantes tanto para desenvolver habilidades de pesquisa, produção e apresentação de trabalhos em linguagem científica quanto para o aprimoramento e/ou atualização dos conteúdos abordados nas disciplinas de ciências. A abordagem da comunicação científica dentro desse contexto torna-se ainda mais importante em cursos cujos currículos não contemplam disciplinas específicas sobre a literatura científica, cabendo ao professor promover estratégias que busquem suprir esse aspecto na formação do graduando.

Cabe ainda destacar que a existência de disciplinas que abordam a produção de textos em geral pode não ser garantia de que os alunos irão conseguir produzir de forma satisfatória trabalhos no formato e linguagem empregados pela comunidade científica. Segundo Shibley Jr., Milakofsky e Nicotera (2001), as atividades propostas em disciplinas sobre escrita técnica muitas vezes são desconectadas dos conteúdos de ciências, fazendo com que o aluno não consiga utilizar adequadamente suas habilidades de escrita na produção de textos requeridos nas disciplinas de ciências ou nas atividades de pesquisa. Ablin (2008) acrescenta ainda que relacionar as atividades de comunicação científica com conteúdos e temas relevantes dentro da área de atuação dos estudantes é uma forma de engajá-los nas tarefas propostas, uma vez que estas se apresentam mais próxima da “vida real”.

Além das disciplinas de natureza científica, o outro contexto no qual as habilidades de comunicação científica podem ser desenvolvidas são as disciplinas ou projetos especificamente criados para tal finalidade. Em nossa pesquisa, embora em menor quantidade, localizamos um considerável número de trabalhos dessa natureza: 22 no JCE, oito no JCST e um no CE. As atividades didáticas aplicadas neste contexto também apresentam uma série de vantagens no que tange ao aprimoramento da linguagem científica. A principal delas é o maior tempo que os alunos dispõem para se dedicar ao reconhecimento de diversos aspectos relacionados à comunicação científica. Robinson, Stoller e Jones (2008) apresentam uma série de atividades em que os estudantes analisam diversos aspectos dos padrões linguísticos mais comuns na literatura científica – tarefas que,

além de não serem triviais em cursos de graduação em química, requerem tempo tanto do docente quanto do aluno para aprofundar as características da linguagem científica.

Além do tempo, os conteúdos abordados na disciplina também devem ser levados em conta. Embora as disciplinas de ciências ofereçam dados e assuntos de natureza científica que possam ser utilizados pelos estudantes para a produção dos textos acadêmicos, nem sempre as questões de estrutura e linguagem do texto são objeto de análise cuidadosa por parte do docente. Como alertam Forest e Raine (2009), muitos educadores colocam em foco nas suas aulas apenas os dados e conceitos químicos abordados nas disciplinas, negligenciando o desenvolvimento de habilidades essenciais como leitura, escrita e pensamento crítico. Dessa forma, mesmo quando solicitam aos alunos a produção de textos científicos, sua análise pode resumir-se a observar os conteúdos apresentados e alguns aspectos mais superficiais de organização do texto.

As disciplinas específicas sobre comunicação científica permitem ainda a abordagem de assuntos que raramente estão presentes nos currículos tradicionais, como, por exemplo, a dinâmica do processo de peer review e sua importância dentro da comunidade científica (FOREST; RAINE, 2009), convenções da escrita científica (ROBINSON et al., 2009) e discussões sobre credibilidade de fontes de informações sobre ciência para o público em geral (WALCZACK, 2007). Algumas disciplinas dessa natureza incorporam também conteúdos que permitem discutir aspectos éticos tanto no âmbito na pesquisa acadêmica (PAULSON, 2001) quando na vida profissional (SCHILDCROUT, 2002). Outras abordam ainda questões relacionadas ao desenvolvimento da carreira profissional, discutindo tópicos como elaboração de currículos e cartões de apresentação pessoal, entrevistas, dentre outros (MABROUK, 2001).

A abordagem de diversos aspectos relacionados à comunicação científica, mesmo quando ocorre no contexto de uma disciplina da área de ciências, nem sempre é trabalho isolado de um único docente. Em alguns casos pode envolver parcerias com professores da mesma área, ou professores de outras áreas, ou ainda profissionais da biblioteca. Exemplos de propostas dessa natureza são algumas atividades em que os estudantes de cursos de química (WIDANSKI; COURTRIGTH-NASH, 2006) e de biologia (KOKKALA; GESSELL, 2002) participam de atividades de peer review em parceria com estudantes de letras, os quais avaliam a qualidade da escrita dos estudantes de ciências.

Em alguns casos, professores da área de ciências buscam parcerias com profissionais da biblioteca e disponibilizam uma ou mais aulas para que estes possam fornecer aos estudantes orientações mais específicas sobre os tipos de fontes de informações na literatura científica, as principais bases de dados para pesquisas na área, as estratégias de busca bibliográfica etc. (FOOTE; FITZPATRICK, 2004; PESTEL; ENGELDINGER, 1992).

Na análise desses dois contextos, foi possível notar que as disciplinas específicas representam um rico espaço para a abordagem e aprofundamento de uma variedade de aspectos inerentes à comunicação científica, possibilitando, dessa forma, desenvolver habilidades e fornecer aos estudantes informações que, no contexto das disciplinas tradicionais da área de ciências, dificilmente seria possível. Por outro lado, reconhecemos o potencial das disciplinas da área de ciências como cenário passível de abrigar atividades direcionadas ao desenvolvimento das habilidades de comunicação. Ademais, estas apresentam a vantagem de fornecer aos estudantes contextos reais para o aprimoramento de tais habilidades. Ressaltamos, no entanto, a importância dos professores das disciplinas de ciências buscarem recursos e estratégias que facilitem a aplicação e o aproveitamento de atividades didáticas dessa natureza por parte dos estudantes.