Para Kandinsky, a priori, toda arte possui dois sentidos - um sentido absoluto e um sentido relativo. O âmago de uma obra de arte deve explorar, prioritariamente, o sentido absoluto, ou seja, o sentido livre de relações indiciais, iconográficas e simbólicas com a realidade como objeto. Esse sentido absoluto é proveniente da sonoridade interior dos elementos empregados, de acordo com a expressão do artista. Já o sentido relativo (sentido literal), presente na forma exterior de um elemento artístico, proporciona valores denotativos, significativos ao espectador, de acordo com a comunidade na qual ele se encontra. A Arte Monumental de Kandinsky, cuja composição cênica relaciona elementos de diferentes códigos, sintetiza bem todo o processo acústico-espiritual, resultante da ressonância da sonoridade interior na alma do espectador. Kandinsky sempre procurava expressar e amplificar ainda mais essa sonoridade e potencializar a sua vibração. No período próximo à publicação do livro “Do Espiritual na Arte”, Kandinsky não parecia estar tão interessado nos aspectos sintáticos, semânticos ou pragmáticos da obra de arte. Para ele, esse processo de fluidez não era uma questão racional, mas sim, espiritual.
Vestígios dessa sensibilidade e da relação entre os diferentes meios (visual, sonoro e verbal) são evidentes desde a infância de Kandinsky. Durante a sua vida, Kandinsky estudou e experimentou atividades multidisciplinares, e também vivenciou artes diversas como a pintura, a xilogravura, a música e a poesia. Todo esse trajeto percorrido contribuiu para o exponencial desenvolvimento de sua linguagem como artista. O âmbito artístico do final do século XIX e do início do século XX representava o início de uma ruptura com o paradigma da relação mimética que a arte costumava apresentar com a realidade. Esse cenário era estimulado pelos avanços científicos e tecnológicos como, por exemplo, a fotografia e a industrialização. Naquele momento, a arte ganhava cada vez mais notoriedade como o seu próprio universo e isso estimulava a liberdade de expressão e a busca por novos estilos. Kandinsky foi um dos protagonistas nessa ruptura dos liames da arte tradicional. Sua extraordinária contribuição teve como principal ensejo a busca pela sonoridade interior da obra de arte e da expressão do artista. Kandinsky distanciava-se do cerne materialista e do antropocentrismo da sociedade. Para o autor, esse período configurava-se como o momento propício para a mudança rumo ao espiritual e a arte seria a maior responsável por isso.
O livro "Do Espiritual na Arte" foi concebido em meio a esse contexto. Conforme relatado anteriormente, esse livro aponta toda a opinião de Kandinsky sobre o cenário da sociedade daquela época, expõe os principais conceitos para essa relação intercódigos de sua produção artística, expõe a sua pesquisa e a teoria sobre as cores, descreve o conceito da Arte Monumental, além de outros tópicos. No decorrer da obra, Kandinsky faz valiosas observações sobre artistas específicos que contribuíram para o seu desenvolvimento, como Schöenberg, Maeterlinck, Cézzane e outros. Kandinsky visualizava nesses artistas a sonoridade interior das formas empregadas por eles e de suas respectivas expressões.
A presente pesquisa teve como principal objetivo descrever e analisar a relação entre os códigos visual, sonoro e verbal, os quais Kandinsky explorava por meio da sonoridade interior dos elementos artísticos, conceitos explorados em seu livro “Do Espiritual na Arte”. Outros textos do autor como, por exemplo, sua autobiografia Rückblicke” (Recordações – Olhar no passado) e livros Teóricos como “Curso da Bauhaus” foram utilizados para complementar a pesquisa. Alguns recortes de outros autores relacionados a Artes, Música, Teorias de Cores, Percepção, Semiótica e outros também contribuíram para a pesquisa. Contudo, é importante sublinhar que a presente pesquisa tinha como proposta aprofundar-se nos próprios textos de Kandinsky, a fim de compreender melhor todo esse processo de criação e a relação intercódigos nesse período contemporâneo à publicação de “Do Espiritual na Arte”. Nesse momento, Kandinsky, com um tom embrionário, parecia profetizar novos caminhos e se estabelecia como pioneiro nessa nova direção, na qual a arte reduziria seus valores externos, seu sentido relativo, a fim de amplificar sua sonoridade interior.
A peça “A sonoridade amarela”, exemplo da Arte Monumental de Kandinsky, exemplifica os principais conceitos desenvolvidos por ele e explorados na presente pesquisa para descrever a sua relação intercódigos. Ao dispor de elementos visuais, sonoros e verbais, de maneira fundamentada prioritariamente em suas sonoridades interiores, o modo de relacionar os signos entre si, com seus objetos ou com seus interpretantes tornam-se confusos. A significação é dificultada devido à valorização do sentido absoluto por meio da amplificação da sonoridade interior e, por conseguinte, a redução do sentido relativo. Além disso, alguns elementos são propostos de maneira consciente, a fim de criar uma atmosfera que dificulte a busca pela significação por meio da redução do sentido relativo e da consequente ampliação do sentido absoluto.
O trabalho prático criado e desenvolvido nesta dissertação é apoiado e inspirado nos conceitos explorados por Kandinsky. Todavia, é um trabalho autoral e expressivo, que não tem como objetivo reproduzir a maneira como Kandinsky produzia suas obras. Por meio de uma projeção audiovisual, signos diversos como luzes, cores, sons, palavras e formas são dispostos, sem um enredo figurativo. Aqui, o espectador também é afastado de uma significação; há uma ruptura das relações indiciais, iconográficas e simbólicas. O espectador poderá atribuir significados, de maneira arbitrária, de acordo com a sua subjetividade, após vivenciar a experiência da fluidez dessa obra de arte. Entretanto, a relação entre os signos pouco significam e a maior parte dos signos tem o sentido relativo reduzido quase que por completo. Em alguns elementos, singelos aspectos denotativos foram preservados para desorientar ainda mais, de maneira que não se relacionassem com os demais elementos do ensaio por meio da forma exterior.
Para Kandinsky, a condição sine qua non para a criação de uma obra de arte é a sonoridade interior, o que permite a essa arte utilizar formas exteriores características de diferentes meios.
Os apontamentos e reflexões provocadas pela presente pesquisa podem impulsionar outros estudos e possíveis expansões. A priori, há algumas perspectivas distintas e complementares que podem direcioná-los: a) concentrar-se na questão do espiritual, apoiado na Teosofia e na Antroposofia; b) Aprofundar-se em cada um dos códigos explorados e propor novas maneiras de relacioná-los, levando em consideração o contexto contemporâneo; c) Explorar relações sintáticas, semânticas e pragmáticas, de acordo com a percepção da forma exterior e da sonoridade interior.
Essa relação intercódigos exploradas por Kandinsky há quase uma centúria atrás é atual e relevante no contexto contemporâneo ao presente estudo. A cultura digital nos possibilita inúmeras maneiras de relacionar e articular códigos de diferentes meios. Ao descrever e analisar os conceitos desenvolvidos por Kandinsky para relacionar elementos visuais, sonoros e verbais, este trabalho pode proporcionar um valioso estudo para artistas e pesquisadores que queiram explorar os mesmos conceitos e refletir sobre novas formas de relacionar diferentes artes.
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