1. INTRODUCTION
1.1. Salmon farming and sea lice problem
Outra preocupação dos autores decorrente da sociedade pós-industrial seria a redução do tempo dedicado ao trabalho, o que alteraria as expectativas em relação a ele. Primeiramente, existiria os que poderiam encarar o trabalho como um ato detestável, uma vez que conseguiriam sustento sem trabalhar. Para outros, o trabalho seria visto como uma
579 KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 207-208. 580
Ibid., p. 207. 581
Ibid., p. 207-208. 582 Ibid., p. 207-208.
interrupção, servindo, então, como um meio de obter renda a curto prazo. Para outros, seria um meio de obter renda a longo prazo, ou seja, o trabalho seria uma tarefa, tendo, assim, alguns valores orientados para ele. Alguns o veriam, ainda, ou como uma ocupação, servindo como uma forma de satisfação e de realização, ou como uma carreira, havendo uma maior satisfação de valores para o trabalho e para a realização. Existiria aqueles que o encarariam como uma vocação. E, por fim, aqueles que o veriam como uma missão, havendo, então, um pendor praticamente fanático para realização e para o progresso: a idéia é que se vive para trabalhar583.
Conforme os autores, muitos americanos tenderiam a ver o trabalho como uma interrupção. Outra quantidade de americanos, estes pertencentes à classe inferior e economicamente oprimidos, tenderiam a vê-lo como uma forma de obter renda, tanto a curto quanto a longo prazo, servindo, então como um meio de realização. Todavia, o homem que encarasse o trabalho como uma missão, como algo acima dos outros valores, seria encarado como um infeliz e até como um neurótico perigoso e destruidor. Já aqueles que vissem no trabalho uma vocação, provavelmente seriam considerados egoístas, limitados ou compulsivos584.
Esses novos valores também afetariam as profissões. Dessa forma, os autores acreditam que as profissões prestadoras de serviço poderiam não passar por um aumento da produtividade horária. Uma possibilidade para isso era a existência de um limite para a extensão do crescimento da eficiência de professores, médicos, advogados, etc. Outra possibilidade era que tais profissões poderiam vir a ser automatizadas ou ter sua eficiência aumentada por meio da especialização, organização e do hábil uso de computadores. Apesar dessas possibilidades, Kahn e Wiener apostavam em um aumento do número de pessoas na prestação de serviço, devido à falta de necessidade de pessoas nas áreas manufatureiras e no dia-a-dia da administração pública. Isso poderia gerar alguns problemas, como, por exemplo, a dificuldade em conseguir pessoas com condições de realizar trabalhos complexos e cansativos que, ou requerem uma preparação longa e penosa, ou por serem trabalhos que se realizem sob condições perigosas, pouco satisfatórias e difíceis585.
Os autores defendem, ainda, que os serviços de ordem pessoal, como os de profissionais peritos, administradores, empresários, artesãos, técnicos e artistas, que precisam de muito tempo e treinamento, seriam mais caros, tendo uma procura e uma oferta grandes.
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KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 207-208; KAHN, H.; WIENER, A.J., 1968, p. 260. 584
KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 209. 585 Ibid., p. 210.
Muitos desses profissionais pertenceriam à classe média superior mais instruída e seriam muito ocupados, mas bastante recompensados. Essa valorização decorreria do aumento do PNB, que não significaria, contudo, um aumento equivalente na produtividade per capita em todos os setores. Assim, essa produtividade seria maior nas indústrias de produção e nas atividades baseadas em escritórios, como a bancária, a de seguros e as funções governamentais em diferentes níveis. Devido a isso – e aliada à automatização – a estrutura de preços também poderia mudar, o que poderia ocasionar um aumento da disponibilidade, da variedade e da qualidade de bens e serviços. Apesar de o membro médio da força de trabalho ter acesso a uma tecnologia que atendesse suas necessidades e a vários luxos, isso não eliminaria os produtos mais caros. Tais artigos, todavia, estariam dentro do alcance daqueles que trabalhassem mais do que as horas exigidas pela sociedade586.
A concepção de trabalho também seria diferente na Europa e nos EUA. Nos EUA, conforme os futuristas, existia uma hierarquia, no sentido de que, para alguém poder se dedicar às artes, é preciso, antes, assegurar as necessidades de segurança nacional e dos assuntos de Estado. Além disso, conforme os autores, para a maioria dos americanos, um homem preocupado com porcelana, ou qualquer outra forma de arte, seria considerado ou como efeminado ou como alguém não muito sério nem muito prático. Um paralelo da época para isso, conforme os futuristas, era a visão da classe-média superior sobre a relação entre trabalho e lazer. Um típico empresário ou profissional americano defendia suas férias como um meio para recuperar as forças, ou seja, o descanso servia para o melhor aproveitamento do trabalho. O europeu, por outro lado, desfrutava suas férias como um prazer e não hesitava em trabalhar para aproveitá-las no melhor estilo587.
Dessa forma, os autores acreditam que as classes média e alta, na Europa, ao alcançarem a sociedade pós-industrial, retornariam ou adotariam o estilo dos gentlemen. Assim, apesar do argumento de que o impacto do consumo em massa e da cultura materialista estava causando a erosão ou o desaparecimento dos valores humanísticos tão característicos da Europa, os autores acreditavam em uma reação futura. Essa crença advinha do fato de que, nos anos 60, os europeus já pareciam tão preocupados com os aspectos vocacionais do trabalho, tal como eram os americanos com seus valores voltados para a família. Então, por mais que existisse a possibilidade dos americanos copiarem os ideais aristocráticos, dificilmente eles seguiriam o ideal dos gentlemen – ou seja, a busca pelo auto-
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KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 210-211. 587 Ibid., p. 213.
desenvolvimento, por habilidades aprovadas pela sociedade e um senso de honra com o Estado – o que aconteceria, provavelmente, na Europa, onde as classes média e superior têm essa aspiração. Por outro lado, nos EUA, quando alguém junta muito dinheiro, persiste, na família, a tradição do trabalho duro. Dessa forma, o prazer só é justificado, pelos americanos, por um rompimento ideológico ou moral com o trabalho. Assim, no futuro, a classe média tipicamente americana possuiria um senso de noblesse oblige588.
Todavia, de forma geral, e pensando em comparação com a sociedade grega, os autores acreditam que haveria uma grande porcentagem de pessoas que se dedicariam a vários tipos de auto-desenvolvimento, que não seriam relacionados à cultura humanística. Ou seja, poderia haver uma ênfase no esporte, em jogos coletivos e competitivos, em música, artes, línguas, em viagens, no estudo de ciência e filosofia e etc. O ponto crucial, para os autores, era que uma grande parte da população poderia acreditar que seria importante desenvolver aptidões, atividades, artes e conhecimentos, para poder alcançar um patamar alto, enquanto que uma parte menor competiria para se tornar a elite das elites589.
Haveria, portanto, a pressão pelo auto-desenvolvimento, a qual não seria simplesmente a aceitação do direito de um indivíduo gastar grande parte de seu tempo e do seu dinheiro no aperfeiçoamento pessoal, mas sim uma “exigência” para que o indivíduo se aperfeiçoasse, como forma de ele ser aceito nessa sociedade. Então, as pessoas que tivessem se enquadrado nessa forma de comportamento olhariam as que não o fizeram com menosprezo. Os autores já acreditavam existir essas pressões nas classes médias, que faziam com que os filhos tivessem lições de dança e de música, assim como outras práticas não utilitárias, que resultariam no gozo da vida e em ser socialmente desejado. Dessa maneira, as crianças da classe média americana recebiam um tratamento semelhante ao que os filhos dos aristocratas receberam, porém, com ênfase no que se referia às realizações artísticas, esportivas e outras socialmente importantes. Todavia, os autores afirmam que, apesar de na maioria das vezes as crianças gostarem de tais atividades, em alguns casos elas se sentiam sobrecarregadas pela quantidade de exigências cotidianas, sofrendo pressões para mantê-las590.
Portanto, nessa próspera sociedade do ano 2000, a eficiência provavelmente não seria mais fundamental, apesar de manter-se importante. Fazendo um paralelo histórico, afirmam que, se até 29, os trabalhadores americanos migravam conforme a oferta de salário e as perspectivas de desenvolvimento, já nos anos 60, as preocupações principais eram a família, a
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KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 213-214. 589
Ibid., p. 217. 590 Ibid., p. 218.
vizinhança e a qualidade das escolas. Os autores interpretam essa mudança como uma tendência para valores humanísticos em detrimento de valores voltados ao trabalho e vocacionais. Dessa forma, se não houvesse nenhuma grande interrupção, provavelmente os valores Sensate, humanísticos e epicuristas seriam predominantes, em detrimento das virtudes burguesas, chegando, inclusive, a uma reversão para critérios que eram anteriores aos burgueses591.
Essas mudanças de valores poderiam também contribuir para o processo de alienação, já que os novos valores poderiam, conforme o julgamento de Kahn e Wiener, ser errados e prematuros. Sendo assim, as condições do ano 2000 poderiam produzir uma situação na qual a ilusão, o desejo e até atitudes irracionais existiriam em um nível inimaginável. Esses comportamentos irracionais e auto-indulgentes, na visão dos autores, são bastante possíveis em situações que os indivíduos estão superprotegidos e sem contato sistemático e objetivo com a realidade. Ou seja, para muitas pessoas, o trabalho servia como um contato com a realidade. Portanto, se, o trabalho fosse removido, essas pessoas teriam parte de seu contato com a realidade prejudicado. Os resultados disso poderiam ser famílias desorganizadas, tragédias pessoais, desarranjos políticos e a busca por valores humanísticos frívolos e irracionais. Assim, as ideologias humanistas poderiam se tornar bastante absurdas, adquirindo características sentimentais, auto-complacentes ou de racionalização de sentimentos altamente irracionais, de rebeldia e de egoísmo. Haveria, portanto, uma confusão entre comportamento humanístico e comportamento irracional ou indulgente592.
Os autores apontam esse tipo de comportamento nos piquetes de Berkeley, em 1967. Os estudantes diziam: “eu sou um ser humano; por favor, não dobre, não perfure, nem mutile./ A vida, aqui, é um inferno vivo”593. Frente a isso, Kahn e Wiener argumentam que, apesar dos estudantes estarem solicitando um tratamento melhor, fazem-no de maneira equivocada, já que transformam dificuldades que complicam a vida de forma desnecessária em algo exagerado como o inferno. Assim, na visão dos futuristas, seria possível que um número cada vez maior de americanos não só rejeitassem atitudes orientadas para o trabalho e para o progresso, como também teriam atitudes de crianças mimadas, tais como as dos alunos de Berkeley. Apóiam esta crença em trabalhos de psicanálise da época, que destacavam que um nível razoável de disciplina benevolente, mas firme, é necessário à criança, e que a
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KAHN, H.; WIENER, A.J, 1967, p. 214-215. 592
Ibid., p. 215-216.
permissividade excessiva teria grandes chances de gerar uma criança marcada pela irresponsabilidade e pela inadequação594.