Maurício de Nassau, oriundo de nobre família europeia teve esmerada formação militar e acadêmica. De acordo com Veras (1989, p. 53) “sua formação era sobretudo militar, para ela fora orientado desde a infância. Tinha no sangue o vírus da luta, do combate, tanto ao nível físico quanto mental. Quanto à sua intelectualidade o mesmo autor afirma que “era um homem culto, versado em diversas áreas do conhecimento humano [...] eloquente, escrevia com elegância, seu estilo fluía, conciso e preciso. Redigia corretamente em alemão, francês, latim e holandês.”.
Essa amplitude intelectual é corroborada por Gouveia ao afirmar que “recebera uma educação tão esmerada quanto permitiam aqueles tempos tumultuosos da Guerra dos Trinta Anos, cedo iniciara uma vitoriosa carreira militar, atividade que, entretanto, não diminuiria em Nassau pendor maior para os estudos humanísticos” (1998, p.37).
Dessa forma foi forjado o homem Nassau naqueles tempos de efervescência cultural e científica. Como consequência, desenvolveu-se, no entendimento de Veras (1989):
uma inteligência acima do normal. Ao ouvir o depoimento de um subalterno sobre qualquer assunto, ligeiro percebia o panorama geral. Concluía o processo com rara facilidade, antevia as soluções que ainda brilhavam longe, distantes. Raciocinava rápido e desdobrava os argumentos numa velocidade impressionante. Achava as respostas imediatas para os problemas administrativos que se lhe deparavam (VERAS,1989, p. 45).
38 Intelectual e professor holandês que no século passado morou no Brasil José van den Besselaar ensinando em
Evaldo Cabral de Mello em preciosa obra biográfica sobre Nassau alerta, logo no prefácio, que é corriqueiro alguns equívocos serem cometidos em relação a essa figura histórica. Em primeiro lugar ele não tinha o título de príncipe quando esteve governando o Brasil holandês; oficialmente era conde. Tal grau nobiliárquico só veio a fazer jus em 1653. Esse tratamento dispensado no Brasil se devia ao fato de ter angariado a simpatia dos lusos brasileiros que faziam questão de afagar sua vaidade, que, por sinal, não era menor do que a dos nativos, cuja “satisfação de se verem governados por alguém de tão alta linhagem aristocrática” (MELLO, 2006, p.12).
Um segundo engano é o confundirem com seu homônimo padrinho, grande general e filho de Guilherme, príncipe de Orange, um dos fundadores dos países Baixos e irmão do avô paterno de Nassau. Para diferenciá-los, passou-se então a ser chamado de Nassau “o Brasileiro”. E, finalmente, o terceiro equívoco se refere ao seu gentílico. Ele não era holandês. Descendia de uma linhagem alemã que combateu os exércitos espanhóis, juntamente com seus familiares neerlandeses em território flamengo. Sua família habitava a margem germânica do rio Reno, fronteiriça aos Países Baixos.
Nassau foi o primogênito do segundo casamento de seu pai, João do Meio, com Margaretha van Holstein, filha do duque de Scheswig-Holstein. Nasceu em 17 de junho de 1604 e teve 22 irmãos no total. Seu pai tinha um abnegado interesse pela doutrina militar e, juntamente com seu primo o stathouder Maurício de Nassau, ofereciam cursos de fortificação e estratégia na universidade de Breda. Com a morte de seu avô, João “o Velho”, edificou um castelo em Siegen, distrito rural que lhe coube na partilha da herança e passou a se dedicar, então, integralmente ao que gostava de fazer, estudar guerras, inclusive redigiu um manual sobre doutrina militar e uma compilação de textos gregos sobre o assunto, que legaria a Nassau mais tarde.
Aos dez anos seu pai o enviou à universidade da Basiléia, famosa instituição de ensino que tinha uma vertente filosófica diferente da calvinista. Tal escolha reflete o espírito tolerante de João do Meio, que era calvinista convicto. Dois anos mais tarde, em 1616, ele passa a viver na corte do seu cunhado Moritz von Hessel-Kassel. Nesse período ele foi matriculado no
Collegium Mauritianun, onde aprendeu o francês, com o qual desenvolveu grande
proficiência, além do italiano e espanhol, que o ajudou muito em sua estada no Brasil, além de retórica, história, filosofia, teologia, astrologia e matemática. Ensinava-se também a montar, tocar, dançar e esgrimir. Em 1619, seu pai o traz de volta a Siegen porque queria que ele se
aprofundasse nas artes e doutrina militares. Em 1620, por intermédio do seu padrinho homônimo, consegue um posto de alferes de cavalaria no exército holandês, no ocaso da Trégua dos Doze Anos. No desempenho de sua vida militar atuou com esmerado desempenho e distinção e, em 1628, aos vinte e quatro anos, já alcançava o posto de coronel. Destacou-se nas campanhas de Naastricht e Schesnskenschans, esta última lhe dando notoriedade internacional.
Ao assumir as funções militares, Nassau deixa a área rural de Siegen e vai se deparar com uma realidade totalmente diferente nos Países Baixos, que era uma verdadeira “aberração” para os padrões econômicos, sociais, religiosos e políticos vigentes na Europa seiscentista. De acordo com Mello (2006) a Holanda:
Tornou-se altamente urbanizada para os padrões europeus, estimando-se que, em meados do século XVII, metade da população vivia em cidades. Amsterdã com seus 120 mil habitantes, seus juros baixos, seu banco e sua bolsa, era o centro eminentemente cosmopolita de uma verdadeira “economia-mundo”. O grau de alfabetização era certamente o mais elevado da Europa, graças a um sistema que incluía as instituições de ensino primário, as escolas latinas, correspondentes à educação secundária, as escolas superiores, e finalmente as universidades de Leiden, Utrecht, Franeker e Groningen. A Idade de Ouro também caracterizou-se pelo intenso progresso científico e tecnológico. Como recorda Paul Zumthor, que sintetizou a vida cotidiana no período, “telescópio, microscópio, termômetro, barômetro, relógio de pêndulo, cálculo logarítmico, integral e diferencial invenções capitais na história da civilização europeia foram todas devidas a neerlandeses do Século de Ouro”. Outro indício da precoce modernidade neerlandesa: o grau de liberdade da mulher, que provocava a reação escandalizada de viajantes estrangeiros. (MELLO, 2006, p. 37)
Nesse novo mundo Nassau vivia entre a guerra e a corte em Haia. Como a atividade dos chefes militares era sazonal, dado que elas eram realizadas entre a primavera e o verão e com a chegada do outono os militares retornavam para se proteger do inverno. E a corte que ele frequentava era a do príncipe de Orange, Frederico Henrique, na qual teve a oportunidade de conhecer seu poderoso secretário, Constantijn Huygens, cuja amizade marcou irreversivelmente sua vida. Huygens foi uma raríssima celebridade intelectual, com um senso pragmático incomum, o que fica bem atestado na análise de Svetha Alpers, citada por Mello (2006):
Com sua rara combinação de serviço público, grande saber e talentos variados, Constantijn Huyges, pode ser descrito como uma figura do renascimento transportada para a Holanda do século XVII. Mas em aspectos importantes, ele estava à vontade no seu tempo e no seu país. Ele descartou o
conhecimento estabelecido e os textos do passado em favor das mais novas descobertas que se faziam no progresso do conhecimento. Sua confiança ilimitada nas tecnologias que melhoravam a visão humana levou-o a valorizar imagens e vistas de todos os tipos como base para o novo conhecimento. Seu entusiasmo adquiriu formas eminentemente práticas. A ligação entre a representação pictórica e o conhecimento natural nos escritos de Huygens não se baseia na matemática ou na teoria científica, mas na observação, nos procedimentos experimentais e seus resultados práticos. Era a medicina, a drenagem de pântanos, a cartografia e os pequenos animais nas lentes de Leeuwenhoek que o interessavam. Portanto, era natural para Huygens associar a arte e suas imagens às tarefas práticas. (MELLO, 2006, p.43)
Huygens costumava ainda, periodicamente, promover reuniões com intelectuais e eruditos da época, como o poeta Joost van den Vodel e o humanista Casper van Baerle, que foi contratado por Nassau para escrever seus feitos quando governou o Brasil holandês. Era, portanto a corte, uma efervescência intensa de intelectualidade e humanismo, e disso parece que Nassau tirou bom proveito.
Outro aspecto que talvez tenha influenciado uma das mais fortes aptidões de Maurício, que já começa a demonstrar nessa época, talvez tenha vindo de Frederico Henrique. O príncipe de Orange tinha uma vibrante fascinação por construções e jardins. Durante seu governo, realizou inúmeras reformas e construções de prédios, bem como a implantação de jardins. Inclusive gostava das opiniões de Nassau acerca desses assuntos, consultando-o sempre. Nessa época, Nassau teve a oportunidade de adquirir um terreno vizinho da residência do príncipe e inicia a construção de sua suntuosa casa, mesmo não tendo recursos suficientes para arcar com os vultosos custos desse palacete. Nesse período seu pai já havia falecido, e a parte de Siegen que lhe cabia de herança juntamente com seu soldo de coronel não lhe davam o respaldo financeiro necessário para concluir tal empreitada.
Para elaborar o projeto de sua residência, chamada Mauristshuis (Casa de Maurício), ele contratou o renomado e caríssimo arquiteto Jacob van Campen, que já trabalhava no projeto da casa de Huygens, em construção nas proximidades. A casa, por ser um palacete, alcançou a vultosa cifra de meio milhão de florins, valor muito elevado para as rendas de Nassau. A
solução para a conclusão da obra veio com sua indicação para ser o governador do Brasil holandês. As condições financeiras39 foram irrecusáveis e Nassau aceitou a missão.
Mesmo antes de aportar no Brasil já começavam as desavenças entre ele e os Herens XIX. Como já foi dito anteriormente, os diretores da Companhia não eram simpáticos à sua indicação. Além de muito caro, sua nomeação ia de encontro à prática vigente de selecionar entre os quadros que prestavam serviço nas colônias, aqueles que mais se destacavam defendendo os interesses da WIC, e, neste quesito, o nome da vez era o do coronel Crestofle Arciszewsky. Foi preterido por pressão da casa de Orange.
Outro desentendimento se referiu à quebra de promessa da frota que o levaria ao Brasil, que, após um razoável atraso, foi cumprida com menos da metade dos barcos e pessoal inicialmente previstos. De uma perspectiva de 32 naus e 7 mil homens, lhe entregaram 12 barcos e 2,7 mil tripulantes.