Podemos considerar como unidade familiar qualquer grupo de relações que sustentam material e afetivamente o cotidiano, caracterizando-se pelo compartilhar um espaço de moradia, pela divisão das tarefas de manutenção e pelas trocas afetivas recíprocas. As famílias compartilham não só bens materiais e relações afetivas, mas também tradições, divertimentos, bens culturais e hábitos, conforme apontam Paiva e Pernambuco (2005, p. 6), e proporcionam às suas crianças ± mais implícita do que explicitamente ± regras, princípios e valores próprios.
No mundo rural, especialmente, nas situações de acampamento e assentamento, a manutenção do cotidiano é compartilhada por um grupo mais amplo do que a família nuclear tradicional. Os laços afetivos e a proteção (a sobrevivência ± alimentação, habitação, sustentação social e econômica) envolvem, além do pai, da mãe e dos irmãos, outros parentes, como avós, tios,
primos, compadres e vizinhos.
Essa tradição se acentua quando os espaços de moradia e trabalho também têm características de organização coletiva, como nos assentamentos e acampamentos. Criam-se laços de uma relação comunitária, que muitas vezes se constitui em uma unidade familiar ampliada, no sentido de assumir funções características dessa unidade.
[...] dificuldades de recursos materiais contribuem para a cooperação e colaboração de forma tradicional, ou seja, no âmbito dos limites das relações pessoais e familiares. [...] a falta de condições mínimas de sobrevivência [...] a forma encontrada para superarem a fome e a distância dos amigos e parentes que deixaram em suas comunidades eram juntarem-se ao outro, dividir RµSRXFR¶TXHWLQKDP3$,9$S
No acampamento, quando a moradia ainda é provisória, em barracas, concentradas em uma área pequena, dividindo o preparo dos alimentos e a organização do cotidiano, os limites da família tradicional são ampliados e a guarda das crianças é, em geral, compartilhada pelos adultos e crianças mais velhas, sem uma nítida distinção de parentesco.
Assim, durante a ocupação e no acampamento, as crianças participam, junto com seus familiares, de reuniões, assembléias, do trabalho coletivo, das místicas, da vigilância do terreno, das manifestações. Vivenciam um duro cotidiano, permanentemente ameaçado e sem estrutura material, ao mesmo tempo em que compartilham dos medos, das mudanças, das superações e das conquistas.
Durante essa fase mais crítica, a presença dos dirigentes do Movimento e as mobilizações de reivindicação ocorrem com maior freqüência, propiciando um contato mais regular com as propostas do MST.
Nas crianças assentadas há singularidades quanto à unidade familiar da qual são parte, quando comparadas com a da situação de acampadas. No caso do assentamento, há uma distribuição espacial (casas, lotes) ± que divide as
famílias ± distanciando mais os assentados, podendo diminuir as relações entre si. As crianças passam a interagir numa unidade familiar que pode restringir-se à nuclear, ou às relações mantidas com os vizinhos, mas num nível de participação diferente de quando a unidade familiar era o acampamento. As suas relações para com o MST mudam e passam a ter outro papel, uma vez que tanto a presença dos dirigentes quanto a participação nas mobilizações tornam-se mais esporádicas.
Quando a família é assentada, é-OKH FUHGLWDGD ³D UHVSRQVDELOLGDGH GH administrar e gerenciar os recursos, tomar decisões sobre o que produzir, como SURGX]LUHRUJDQL]DURHVSDoRFROHWLYR´3$,9$S&RPDFRQTXLVWDGD terra, o assentado passa a WHUFRPRREMHWLYRSULQFLSDO³UHVROYHUDVTXHVW}HVORFDLV o interesse volta-se para organizar o lote, a forma de como produzir, o que plantar e como administrar os recursos que lhe pertencem. Esta passa a ser a motivação da organização coletiva no assentamHQWR´3$,9$S
Na perspectiva do MST, o trabalho coletivo é valorizado, tendo como eixo a prática cooperativa. É fundamental a organização das famílias para que o trabalho possa ser posto em prática. Algumas vivências, como a do acampamento, já são marcadas por uma organização propícia a concretizar práticas de cooperação. O MST volta-se à execução de diversos momentos de organização coletiva. Paiva (2003, p. 132-133) demonstra que
Principalmente na fase de acampamento e nos primeiros anos de assentamento, as demandas apresentadas pelos atores, MST e INCRA, STR mobilizam as famílias para o agir coletivo. Os núcleos de base, o mutirão de construção das casas, o trabalho coletivo vivido por um grupo, o projeto de horta desenvolvido pelas mulheres são experiências que possibilitam novos aprendizados, à proporção que confrontam interesses e relações individuais/ coletivas.
Assim também, a proposta pedagógica do MST, como vimos no capítulo 1, valoriza o trabalho e as decisões coletivas como princípios básicos.
Na esfera social do assentamento, as relações com atores, como o MST, podem assumir níveis distintos daqueles mantidos no acampamento. Alguns assentados têm maior liberdade para decidir acerca do seu trabalho do que quando eram acampados. Essas circunstâncias podem repercutir nas atribuições das obrigações (no âmbito do trabalho) daqueles que incluem sua família. Privilegiar o trabalho individual, em detrimento do coletivo e voluntário, influencia na tomada de decisões das crianças acerca dessa esfera social que ainda não vivenciam.
Por exemplo, o pai assentado pode privilegiar o trabalho na sua horta, em detrimento da prestação de ajuda ao colega que está construindo uma casa. Mesmo que essa escolha não seja explicitada, passa para seu(sua) filho(a); a criança passa a percebê-la. Quando, então, ela deparar com situações que exijam escolher entre o seu trabalho e o do outro, ela pode privilegiar o dela, valorizando o que assume a unidade familiar da qual faz parte.
Ainda assim, como assentada ou acampada, a criança tem chances de participar de experiências significativas, como mutirões, construção de um novo espaço de vida, espaços de decisão coletiva, negociação com instituições como o INCRA e Prefeituras, mobilizações. Essas experiências podem proporcionar a vivência de regras internas e/ou externas ao assentamento, como as que fundamentam a solidariedade,.