4. RESULTATER
4.3 S TUDENTENES SYN PÅ S KOLEBASER LÆRERUTDANNING
Nesse item são retomadas as ideias da filosofia da educação para falar da
aprendizagem histórica através dos estudos do americano John Dewey
55. Esse tópico
deverá contemplar, principalmente as intervenções, ou melhor, as elaborações que
foram sugeridas a partir da pedagogia para as escolas primárias brasileiras.
A justificativa dessa análise é observada nas apropriações que foram
atribuídas ao seu trabalho no ensino de história. Entre as ideias apresentadas pelos
teóricos considerados escolanovistas, as ponderações desse pesquisador foram
ligadas diretamente ao estudos históricos a partir da cultura escolar na perspectiva do
método ativo.
Como visto anteriormente, as noções de renovação no ensino na escola
primária estavam, em primeira análise, relacionadas às dimensões do escolanovismo,
e em segundo plano, às elaborações de uma determinada área do saber postas em
evidência no aprendizado escolar.
Considerando que o desenvolvimento das ideias pedagógicas ocupam
diferentes ritmos temporais para serem postas em prática e, em alguns casos, não
passam de teorização sobre a educação, as considerações oriundas das discussões
orientadas ora pela filosofia, ora pela psicologia, e pela própria pedagogia relacionada
à história tornam relevante a leitura desse pesquisador.
Além disso, John Dewey é recorrentemente citado nas explicações sobre
o ensino de história, principalmente pela sua inclusão nos estudos sociais a partir do
final da década de 1920
56.
Dewey utilizava-se das argumentações dos estudos da pedagogia
moderna para definir como o ensino precisava ser feito. Essa questão relacionava-se
à ideia de que os métodos de ensino deveriam prevalecer na ação docente em
comparação com os métodos do conhecimento específico.
55 John Dewey nasceu em 1859 nos Estados Unidos e morreu em 1952. Foi professor secundário por três anos antes de cursar a Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. Frequentou entre 1875 e 1879 a Universidade de Vermont. Estudou artes e filosofia e tornou-se professor da Universidade de Minnesota. Dentre as obras do estudioso traduzidas para o português destaca-se: A Arte como Experiência (1980); A Filosofia em Reconstrução (1958); Como Pensamos (1953); Democracia e Educação (1959); Experiência e Natureza (1980); Lógica: A Teoria da Investigação (1980).
56 Datam do final da década de 1920, as primeiras citações da obra de Dewey sobre os estudos sociais no Brasil. Em artigo sobre esse tema, Elza Nadai destaca que: A decorrência imediata que se segue é o reconhecimento de que os Estudos Sociais, em sua trajetória de implantação/desimplantação na escola brasileira, passaram por momentos e fases diferentes nas quais é possível captar nuances e modificações em sua própria natureza. (NADAI, 1988, p. 01).
Segundo Dewey, a escola deveria estar integrada com a coletividade.
Ultrapassando a compreensão da organização social, a escola precisava, segundo
esse educador, adequar o seu funcionamento às práticas de vida em sociedade. A
defesa de estudos aproximados da realidade da criança a partir da democracia
também estavam presentes na filosofia educacional de John Dewey.
No espaço escolar, os alunos deveriam vivenciar situações do cotidiano
inseridas no contexto da sociedade democrata. Considerado como processo cultural
humano a história estaria relacionada aos problemas cotidianos, estabelecidos pela
necessidade de superar dificuldades e manter laços sociais
57.
A experiência individual e a formação do habitus na criança também são
considerados na constituição do método de ensino como aspectos importantes na
aquisição de saberes sobre a vida em sociedade a partir da história. Esses aspectos
eram apresentados através do desenvolvimento de habilidades. A criança precisava
entrar em contato com situações problema para que ao tentar resolvê-las ela
mobilizasse diferentes recursos mentais, desenvolvendo, desse modo, a inteligência.
O conceito de habitus
58foi exposto por John Dewey como a constituição de
modos de pensar, refletir e manejar determinados instrumentos (MOREIRA, 2002, p.
129). Ele considera que a faculdade de se adaptar e adquirir hábitos estava
condicionada à disposição do indivíduo em alternar as respostas aos estímulos
externos, de acordo com as condições estabelecidas para determinada finalidade. Ele
denomina essa habilidade de plasticidade (Idem).
Para os estudiosos da pedagogia de Dewey, a sua proposta apresenta o
problema da adaptação dos temas restrito à realidade da criança e da sociedade. O
uso social do conhecimento que deveria desenvolver a sua capacidadede responder
de maneira ativa os estímulos externos da criança baseava-se na prática democrática.
57Em seu estudo sobre o ensino ativo e as apropriações das ideias da Escola Nova a partir da noção do método e dos modos de uso dessa corrente educacional, Vera Teresa Valdemarin apresenta outros dois teóricos que analisam o ensino de história, são eles: João Toledo, professor da escola primária e autor do livro Escola Brasileira, publicado em 1925; o outro autor seria Antonio D’Avila que em sua obra Práticas Escolares destaca um capítulo ao ensino de história. O primeiro autor defende a ideia de que a história não deve ser ensinada, segundo a leitura da autora, a partir do presente. No que diz respeito à definição de Antonio D’Avila, a autora aponta principalmente os problemas para o ensino de história, devido à ausência de conhecimentos sobre a psicologia infantil (VALDEMARIN, 2010, p.187).
58 O conceito de habitus – palavra de origem latina e utilizada na tradição escolástica, refere-se ao comportamento humano a partir das noções de aprendizagem. Esse conceito foi utilizado por outros dois intelectuais: Durkheim e Bourdieu. Segundo Marcos Moreira, Durkheim utilizou esse termo para apresentar o ensino nas escolas monacais e, Bourdieu analisa as relações travadas pelo indivíduo em sociedade. (MOREIRA, Op. Cit.)
Segundo Dewey, a escola deveria possibilitar para que a criança encontrasse as
condições necessárias para apropriar-se dos princípios da democracia. Nesse
espaço, a criança deveria sentir-se membro, possuindo consciência de seu
pertencimento e contribuindo através de suas decisões nas ações coletivas (DEWEY,
1985).
Para Dewey, todo conteúdo precisa possuir algum sentido para a realidade
e conclui: Um mero acúmulo de conhecimentos, separado dos interêsses diretos da
vida, petrifica o espírito; sem elasticidade desaparece. (Idem, 1959, p. 230)
Torna-se oportuna para essa explanação o episódio ocorrido no Colégio
Nogueira. De acordo com a direção dessa instituição, os princípios defendidos pela
república brasileira inerentes aos deveres e direitos do cidadão eram vistos na prática
nessa escola.
Baseado nos ensinamentos da história nacional e da Constituição
Brasileira, o professor Joaquim Nogueira julgou implementar entre os alunos o
discurso democrático.
Alvitrada por elle a idéa no 4º. Anno primario, procurou realizar- se, ante o contentamento geral dos estudantes, a eleiçao para a escolha do alumno de melhor conducta nas aulas. Era uma lição grandiosa de civismo, porque o espirito terno das creanças assim se preparava, duma maneira sabia e prudente, a exercer, no futuro, um direito sublime que a Magna Carta brasilica nos assegura – o do voto. Com as formalidades dum lidimo pleito popular, daquelles em que o resultado do escrutinio é a expressão viva da verdade, levou-se a termo o acto solemne.
Surprehendidos pela lembrança do Director, os discipulos não poderiam realizar, caso disto se lembrassem, as famigeradas cabalas que deturpam a enunciação da vontade popular.
Levados ás urnas os votos dos jovens eleitors, o professor Nogueira, depois de averiguá-los, proclamou vencedor, no 4º. Anno primario, o alumno que obtivera a maioria: Affonso B. Albuquerque.
Á tarde, com a presença do professor Moacyr Caminha, foi reeditada a scena entre os estudantes do 3º. Anno primaria,
E, como na 4ª, classe, ergueu-se a voz dominante da maioria, proclamando primeiro no comportamento o alumno J. Maria Oliveira.
Para que se avalie a verdade da expressão do voto estudantal, faz-se preciso dizer que os dois vencedores eram precisamente aquelles que o Director do collegio olhava intimamente como os dois mais bem comportados, de mais irreprehensivel educação.
Nas eleições do 4º. e do 3º. Anno, occuparam o segundo logar, respectivamente, os alumnos Juarez Eugenio e Benoit.
O professor Moacyr Caminha premiou, no 3º anno o valor dos vencedores, offerecendo-lhes dois primorosos livros. (REVISTA ESCOLAR, ago/1925, p. 07)
A sociedade em miniatura: episódios e situações sociais reais que
deveriam ser vividas na escolas, a situação escolhida faz referência à democracia. O
episódio detalhado acima serve como ilustração para as propostas relativas à
transformação da escola em uma sociedade com fins democratas. É perceptivel,
nesse caso, o destaque dado ao processo cívico e os deslocamentos ocasionados
pela ação do voto na decisão coletiva.
De outra maneira, esse episódio pode ser interpretado como significativo
para pensar a ação social como prática relevante para o ideário nacional adequado à
realidade brasileira.
As limitações das leituras estabelecidas para o aprendizado escolar
estavam condicionadas ao formalismo das ações orientadas pelos códigos de conduta
civil. Percebe-se que as propostas de Dewey não se limitavam aos discursos políticos
da época, mas à estrutura social defendida por ele assemelhava-se à organização da
sociedade indutrializada.
Desse modo, as orientações estabelecidas para o entendimento da
funcionalidade social condiziam com a participação do indivíduo através da força de
trabalho e dos usos da intelectualidade.
A relação entre o passado e o presente
O passado em sua qualidade de passado é coisa qua já não nos importa. (DEWEY, Op. Cit., p. 235)
Dewey defendeu um uso social para a história
a partir do próprio
funcionamento da sociedade. Apesar de apresentar ideias que conduzissem a um
modelo ideal, as suas afirmações apresentavam as contradições da sociedade
industrial pontuada por ele como motriz de sua reflexão sobre o social. Entre as
diferentes disciplinas destinadas à compreensão da vida em sociedade, a história,
assim como a geografia, a economia, a sociologia e a filosofia, estavam ligadas como
forma de garantir o funcionamento coeso da vida em sociedade.
Para a pesrpectiva do ensino histórico, o passado não poderia ser visto
dissociado do presente. A relação entre essas duas temporalidades são significativas
para compreender as ideias de método de ensino proposto por ele para a escola
primária. Esse método, nas ideias interpretadas de Dewey, pode ser definido a partir
da forma de pensar da criança em fase escolar, através do aprendizado concreto.
Ainda sobre a questão da temporalidade, o futuro deveria ser pensado a
partir de um movimento espiral, relacionando o presente e o passado a superação e
o retorno com vistas ao progresso.
Na leitura do estudioso, a história deveria ser compreendida com fins ao
aprendizado junto às experiências dos homens do passado, mas com
correspondências a partir da realidade atual. Não era interesse desse estudioso
trabalhar a definiçao de história na constituição de uma ciência, mas ultrapassando
essa demarcação era necessário que o estudo do passado fundamentasse as ações
do presente como práticas sociais. O aluno precisaria compreender quais os usos
sociais do conhecimento organizado pelas ciências específicas.
É possível afirmar que Dewey não estava preocupado com o método
histórico ou com o conteúdo produzido pelos historiadores, mas com a sistemática do
ensino e os fins do aprendizado. No entanto, em suas argumentações certas
ponderações são feitas sobre o que poderia ser exposto como objetivo da história:
Ela faz-nos conhecer as sucessivas invenções por meio das quais a ciência teórica foi aplicada ao domínio da natureza, em benefício da segurança da prosperidade da vida social. Revela-nos assim as sucessivas causas do progresso social. E, por outro lado, patenteia- se as coisas que essencialmente interessam a todos os homens em geral – as ocupações e os valores referentes ao ato de ganhar a subsistência. A história econômica ou industrial trata da atividade, da carreira, do êxito do homem comum, como não o faz nenhum outro ramo da história. A coisa mais importante que todos os individuos devem fazer é manter-se; a coisa mais importante que a sociedade deve fazer é obter de cada indivíduo sua eficaz contribuição para o bem-estar geral e velar para que seja dada a cada um sua justa redistribuição. (Idem, 1979, p. 237)
A história dividida entre as questões materiais do desenvolvimento social
são encaradas por Dewey como úteis. Para ele, a funcionalidade do conhecimento
histórico estaria na materialidade presentes nos avanços tecnológicos. A ideia de
sucessão como superação do indivíduo diante das dificuldades, desde a
sobrevivência ao aperfeiçoamento da técnica.
Para tanto ele ramifica o estudo da história em diferentes seções: história
econômica, história intelectual. Partindo dos sentidos apresentados para o
aprendizado da história e os usos do passado: história primitiva, história econômica –
ênfase na evolução dos métodos e mecanismos de sobrevivência, ressalta a
sociedade industrial –, história política, história industrial, história intelectual – estudo
dos grandes homens a partir de sua participação como pensadores.
Em seu livro Democracia e Educação, Dewey analisa a história em
consonância com a geografia. Segundo o estudioso, ambas as areas estudam, cada
uma a partir de leituras diferentes, mas complementares, o homem em sociedade. A
importância do aluno identificar os seus atos em dimensões do tempo e do espaço
aumentam as possibilidades de significação para cada experiência e como
consequência o indivíduo atribui significados partindo de sua consciência (Idem,
1959, p. 229).
Essa abordagem de Dewey foi considerada relevante pelos escolanovistas,
valorizando o conhecimento da criança através da memória e de sua história de vida.
Com o objetivo de aproximar a psicologia da educação e a compreensão da sociedade
pelos alunos, as falas desse autor deslocam o conhecimento para o sentido que a
vivência escolar possuía para o aprendizado.
No âmbito das discussões sobre a presença da disciplina histórica na
escola primária, as ideias do autor se aproximam de uma adaptação de atividades
para unir diversos conhecimentos sobre a sociedade.
Em resumo, ele não traz em seu discurso argumentos relacionados à
ciência histórica, seus objetos, as fontes e o método histórico, mas o significado
atribuído pelo aluno à experiência pondera as ações educativas com vista ao
aprendizado.
Referente a isso, o autor também critica os programas de ensino e o modo
como as disciplinas estavam estruturadas na escola. Ao fazer censuras ao currículo,
Dewey apresenta como argumento a imaturidade da criança para compreender
questões abstratas que eram organizadas nos programas de ensino de acordo com a
racionalidade dos pesquisadores e estabelecida para cada área específica do
conhecimento.
Quando nos esquecemos desta interdependência do estudo da história, que põe em relevo o elemento humano, com o estudo da geografia, que salienta o elemento natural, a história degrada-se tornando-se uma lista de datas, comum apêndice de acontecimentos rotulados de “importantes”; ou então converte-se em fantasia literária – pois na história puramente literária o ambiente natural é apenas uma encenação teatral. (Ibidem, p. 232).
Situar nossos atos em situações de tempo e espaço. Nessa análise as
questões relacionadas ao ensino foram apresentadas pela união de disciplinas que
ocupam o tempo e o espaço. Críticas como essa poderiam ser apontadas nos
discursos dos educadores brasileiros apresentados nas escolas normais. As
informações históricas sobre determinados acontecimentos precisavam ser
substituídas por atividades que incluíssem os temas históricos no método ativo.
A filosofia da educação defendida por Dewey relaciona o aprendizado ao
pensar individual com fins coletivos. Ele pensa a apropriação dos conhecimentos
históricos através dos sentidos sociais do desenvolvimento da criança. Essa
abordagem das propostas de Dewey é assimilada pelos entuasiastas da educação na
sociedade brasileira.
Além disso, a experiência deve orientar a ação da criança, para tanto ela
precisa vivenciar concretamente os conflitos das relações sociais. A intenção é
proporcionar ao aluno a prática do real e permitir que ele amplie a sua habilidade para
compreender os atos sociais do presente e do passado:
‘aprender história’ é essencial para aumentar a capacidade de reconhecer as relações humanas do mesmo ato.., Do mesmo modo, a história como estudo coordenado e unicamente o corpo de fatos conhecidos sôbre atividades e sofrimentos dos grupos sociais nos quais se insere, em perfeita continuidade, a nossa própria vida e com os quais se iluminam esclarecem os nossos próprios costumes e instituições.” (Ibidem, p. 231)
Em outras palavras, Dewey considera que os saberes da geografia e da
história só fazem sentidos unidos. Fora isso os conhecimentos são apenas dados e
conteúdos. As principais discussões sobre a metodologia estavam voltadas para o
adestramento da vontade, a educação do olhar, a percepção e as possibilidades de
abstração a partir do concreto. A relevância do uso de objetos pedagógicos pode ser
analisada na comparação entre o uso dos objetos didáticos para o ensino intituitivo
como as leis naturais para a teoria empirista. (VALDEMARIN, 2004, p.117)
Do mesmo modo que critica uma abordagem de educação ligada aos
aspectos apresenta ressalvas para o uso de biografias no ensino de história,
principalmente nas séries iniciais:
O método biográfico é geralmente recomendado como meio natural de iniciação no estudo da história. As vidas de grandes homens, de heróis e condutores de homens, corporificam e animam episódios históricos que de outra forma seriam abstratos e incompreensíveis. Condensam em quadros vivos séries complexas e emaranhadas de problemas que se estenderam em tamanha extensão de espaço e tempo, que só um
espírito grandemente exercitado pode acompanhá-los e destrinçá-los. [...] Se ao escrever-se uma biografia se relatassem apenas os atos de um homem isolados das condições que os produziram e com referência às quais esses atos eram reações, não se teria um estudo da história, pois não haveria um estudo da vida social, que é o resultado de uma associação de indivíduos. (DEWEY, 1959, p. 236)