Do que foi posto até agora temos estabelecido a forma pela qual, através da relação entre o humano e a natureza, a sociedade civil, as forças produtivas e o Estado se constituíram. Na busca por sobrevivência o humano se diferencia dos demais animais pela produção das próprias condições de vida de acordo com as condições de seu entorno, dispostas de maneira coercitiva. Essa ação propriamente humana deflagra uma série de consequências em sua forma de organização e na estruturação da consciência. Passa a ser impositiva, ao humano, a divisão do trabalho e as formas de relação que dela
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se desdobram pautadas na distribuição desigual das atividades e dos produtos dessas atividades, na distribuição desigual da propriedade, portanto. Pela divisão do trabalho, se estruturam também classes sociais diferenciadas, que para além da especialização nos diversos estratos da produção, também se diferenciam pela cisão entre trabalho material e trabalho intelectual. À classe, ou segmento de classe, dotado da possibilidade de produção intelectual, é dada, consequentemente, a possibilidade de substantivar sua própria consciência, promovendo-a como materialidade sobre a qual se produz uma consciência ficticiamente desconectada do mundo, autônoma. Nisso se encerra uma relação de interdependência paradoxal. Ao mesmo tempo em que os humanos, com suas atividades desigualmente distribuídas, dependem de um contexto de produção mais generalizada, essa mesma dependência mutua é conflituosa no que diz respeito aos interesses particulares. A partir dessa forma de organização – a sociedade civil –, surge o Estado. Uma tecnologia social, vicissitude histórica do próprio processo de sobrevivência filogenética. Força alienígena, que se crê exterior as vontades e de caráter impositivo sobre elas.
Apropriado por uma das classes, que faz dos seus, os interesses das demais, o Estado é revestido por uma ideologia, produto da consciência do estrato dominante. Todo esse conjunto de estruturas formadas a partir do modo de produção e orientadoras dele traz consigo alterações históricas na materialidade e na maneira como as forças de trabalho são empregadas nela. Isso significa que a partir do momento em que o humano se torna histórico tanto as formas imperativas de produção das condições de vida, como a própria materialidade cercante e inalienável, ficam sujeitas ao desenrolar das formas de organização humana. A cada nova geração fica imposta tanto uma materialidade já dada, humanamente produzida pelas gerações anteriores, quanto os modos de intervenção nessa materialidade historicamente dada. Consequentemente fica submetida ao percurso da história humana, a estruturação da realidade conformada pela consciência de uma época. E é nesse processo que o valor-de-uso cidade apresenta sua estruturação historicamente formada e submetida ao modo de produção capitalista e ao Estado revestido por essa ideologia, responsáveis por sua rápida valoração como valor- de-troca (LEFEBVRE, 2001).
O processo que leva a sujeição da produção do valor-de-uso cidade ao revestimento ideológico dado ao Estado capitalista diz respeito à relação entre tempo e espaço e, também, à relação de interdependência que a estruturação das formas sociais cidade e Estado assumem no modo de produção capitalista como consequência das
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necessidades da classe burguesa. Sendo essas formas realizadas em solidariedade com o espaço, é inevitável que os conteúdos da vida que passam a preenchê-lo, e a forma dialética que o constituem, sejam conformados sob a matriz ideológica de significação que se pretende universalista no modo de produção capitalista. Nesse ponto entra em cena a diferenciação que o Estado capitalista trás, comparativamente às formações Estado anteriores, em relação à produção do espaço e a imposição das relações de interdependência sob esse modo de produção. É necessário que se garanta uma série de funções básicas e relações de direito para a manutenção do modo de produção capitalista, anárquico e paradoxal por natureza, apenas possíveis após a vitória burguesa sobre o Estado absolutista. Nesse sentido, sendo o Estado capitalista a superestrutura assumida pela classe capitalista, se torna um imperativo desse Estado regular as necessidades básicas – teórico e praticamente – pela aplicação de um sistema legal que cristalize os conceitos, ideologicamente forjados, de direito sobre a propriedade privada, de regulamentação das relações de troca, de indivíduo, liberdade e igualdade.
A produção e troca capitalista são inerentemente “anárquicas”. Os indivíduos, todos em busca dos seus interesses privados, não podem levar em consideração “o interesse comum”, mesmo o da classe capitalista, em suas ações. Portanto, o Estado capitalista, também tem de funcionar como veículo pelo qual os interesses de classe dos capitalistas se expressam em todos os campos da produção, da circulação e da troca. Ela desempenha um papel importante na regulação da competição, na regulação da exploração do trabalho (por meio, por exemplo, da legislação do trabalho mínimo e da quantidade máxima de horas de trabalho) e, geralmente, estabelecendo um piso sob os processos de exploração e acumulação capitalista. O Estado também deve desempenhar um papel importante no provimento de “bens públicos” e infra-estruturas sociais e físicas; pré-requisitos necessários para a produção e troca capitalista, mas os quais nenhum capitalista individual acharia possível prover com lucro. Além disso, o Estado, inevitavelmente, envolve-se na administração de crises e age contra a tendência de queda da margem de lucro. Em todos esses aspectos, a intervenção do Estado é necessária, pois um sistema com base no interesse próprio e na competição não é capaz de expressar o interesse de classe coletivo. (HARVEY, p.85, 2005).
O papel de provedor da infraestrutura que o Estado capitalista exerce, recai diretamente no modo como os projetos de urbanização passam a ser executados, ou até mesmo, antes disso, como a organização e regulação da materialidade urbana passa a ser uma incumbência do Estado, para em seguida, os projetos de urbanização começarem a adentrar nas agendas administrativas e cientificas e a serem concebidos,
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dado o avanço do modo capitalista de produção, sobretudo, no século XIX. São bastante evidentes as consequências que esse modo de produção trás para as cidades durante o período. As principais cidades europeias testemunharam crescimento populacional absoluto. Algumas delas chegaram a dobrar o tamanho de suas populações algumas vezes, em menos de um século. A consequência histórica de acumulação de propriedade privada nos campos que culminaram em um intenso êxodo rural e migração para as cidades (MARX, 2007), ocasionou em uma afinidade que impulsionou as indústrias a se aproximarem dos antigos contextos urbanos. Lefebvre (2001) dá ao processo de industrialização o estatuto de indutor protagonista do desenvolvimento da realidade urbana, gênese do contexto que conhecemos. Inicialmente a tendência das indústrias, salvo algumas cuja progressão histórica estava em maior afinidade com o contexto técnico e de infraestrutura já arranjados nas cidades, como as gráficas, por exemplo, era de se instalarem, dispersa e esporadicamente, pelo território na tentativa de atender suas demandas de produção. No caso, pareciam mais proveitosas as localizações que, de acordo com uma série de circunstancias local, regional e nacional, ofereciam maior proximidade a fontes de matéria prima, meios de transporte, fontes de energia e mão-de- obra (geralmente eram absorvidos os camponeses, artesãos, ferreiros e demais indivíduos detentores de algum tipo de qualificação prévia). Em meio a esse processo de industrialização crescente dos territórios, a velha cidade fica reservada, inicialmente, a certas relações e funções. Nesse contexto urbano intersticial, a cidade abriga a geração do capital financeiro, as reservas de mão-de-obra, os mercados, as fontes de capital e começa a concentrar os centros de decisão (LEFEBVRE, 2001).