• No results found

S.2.1 Togradiolinjer mellom Drammen og Stavanger

In document DRIFTSSENTRAL DRAMMEN (sider 74-0)

É importante observar o contexto político-social da produção poética desse sujeito-autor que vivenciou uma época difícil para todos os brasileiros. Os seus primeiros sucessos emergiram na década da ditadura militar, período em que o Brasil foi governado pelos generais e que se estende de 1964 a 1985. Naquele momento histórico a democracia foi extinta e os direitos do cidadão foram reprimidos pela censura desmedida e pela prisão dos que se mostravam contrários ao regime instalado. Período que se concretizou a partir do governo de João Goulart, que era vice de Jânio Quadros e renunciara em 1961. A época era adversa por causa da abertura às organizações sociais, estudantis e classes trabalhadoras, as quais foram ganhando espaço e criando clima de instabilidades que provocaram desagrado às classes conservadoras, a exemplo dos empresários, igreja católica e dos militares.

Junto a esse quadro havia o problema da guerra fria que se estendia desde a Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos e a União Soviética passaram a disputar a hegemonia política, econômica e militar no mundo. Esta expressão ‘guerra fria’ advém de um conflito que aconteceu apenas no campo ideológico, porque não ocorreu nenhum embate militar declarado e direto entre estas duas potências. Uma expressão que também foi convencionada como a paz armada. As duas potências passaram a distribuir armamentos e exércitos em territórios e países aliados. Esse conflito ideológico perdurou por todo período

da ditadura brasileira, quando a sociedade assistia o desenrolar das ações dos EUA liderando política de combate ao comunismo, uma grande disputa com a URSS em relação aos avanços espaciais. Surgiu no cenário internacional a figura da CIA (Agência Central de Inteligência)

integrante da espionagem norte-americana e do KGB8 cujos funcionários pertenciam ao serviço secreto soviético, de espionagem e contraespionagem. Este clima se concretizou na guerra do Vietnã que tinha o apoio antagônico das duas potências e se tornou um desastre para os EUA. Foi a partir de 1989, com a queda do muro de Berlim e a reunificação da Alemanha, eventos que favoreceram à derrocada do socialismo, e consequentemente, ao crescimento gradativo do capitalismo, que chegou ao fim esse período de embates políticos, ideológicos e militares e se dissipou o chamado fantasma da guerra fria.

Isto era parte do panorama que mapeava as condições de produção da obra ramalhiana, que surgiu nesse período da ditadura militar. Estes saberes eram constitutivos da formação discursiva e ideológica e do arquivo histórico-cultural de uma determinada época brasileira. É sobre esse sistema que Zé Ramalho diz na letra de sua música ‘Admirável Gado Novo’ (LP 1979): E ver que toda essa engrenagem, já sente a ferrugem lhe comer. Ele constrói uma crítica metaforizada, contundente ao governo dos generais, o qual foi marcado pelo exílio dos intelectuais, pela tortura e pela morte de brasileiros e brasileiras. Na realidade essa ferrugem é uma verdade que se renova sempre onde haja um governo despótico que oprima, forçando resistências. Todos os sistemas sofrem transições ou ajustes ante a dinâmica da existência, já que os povos seguem em uma escala evolucional, rumo a transformações na busca incessante que é elemento constituinte da natureza humana. Transformações que são propiciadas por discursos reagentes como o do sujeito-poeta Zé Ramalho, que disfarça em aparentes delírios e visões cosmológicas toda uma ideologia insurgente e fomenta percepções nas pessoas cansadas da opressão, ávidas de usufruir de seus direitos civis.

Zé Ramalho vivenciou todo um processo de ditadura militar, passou sua juventude na condição de refém desse quadro, porém, nunca deixou de produzir, de buscar o novo, de externar seus sentimentos, de provar com sua música que existia uma luz no fim do túnel. Foi em meio a essas condições de produção que ele começa a se objetivar como o sujeito Zé Ramalho da Paraíba, compondo e expondo canções que se tornaram ícones na música popular

8 Acrônimo russo que em português corresponde a Comitê de Segurança do Estado. Polícia secreta e política da então União Soviética surgida depois da Segunda Guerra Mundial, no período da guerra fria. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/KGB

brasileira. Um discurso que conquistou o Brasil e grandes amigos. Fez-se respeitado, fez-se sujeito-poeta.

[...] Você é a orquídea negra que brotou da máquina selvagem e o anjo do impossível

plantou como nova paisagem (LP. Orquídea Negra, 1983). Este é o discurso da letra de

“Orquídea Negra”, música do poeta e artista consagrado Jorge Henrique Mautner9 e dedicada a Zé Ramalho. Analisando este discurso diríamos: um sujeito que se faz raro e excêntrico como uma orquídea negra, fruto de uma conjuntura política opressiva: a máquina selvagem, e que se traduz em uma possibilidade de renovação. O novo, o excêntrico, diante do sistema. O poeta é então, conforme os versos da citada canção, a Orquídea Negra, a singularidade, a excentricidade que brotou meio ao regime opressivo dos militares. Deus, o anjo do impossível, foi quem o plantou como uma nova paisagem, uma condição de transformação, de renovação, uma possibilidade de resistência, de êxtase, de fuga, de abstração, ante um momento social funesto, onde vigoravam os mecanismos de controle dos discursos, como a ‘interdição’, instituída no conjunto destes mecanismos para conjurar perigos, forçando o exílio de tantos intelectuais da época.

Isso nos remete à importância de continuar o olhar analítico sobre o discurso do Sujeito- compositor, passando a ser protagonista de uma grande influência ideológica, estética e cultural, no cenário musical brasileiro. Uma ‘estética’ que o objetiva como sujeito-autor. Zé Ramalho é uma ‘identidade-musical’ marcada e cristalizada no âmbito do cancioneiro popular do Brasil. Uma voz por onde passam tantas outras vozes identitárias do homem nordestino, da poesia do sertão. Tornou-se um eco que dissemina, tanto o dizer do escritor de cordel, do cantador de viola, do repentista sertanejo, do poeta matuto, quanto ao estilo de artistas internacionais. É uma espécie de simbiose de todos os elementos que constituem a formação discursiva do Nordeste e que transcende essa formação na liquidez da própria identidade ao fazer música, influenciado por cantores e compositores estrangeiros. É um “Zé da Paraíba”, um “pau-de-arara” às avessas, que deixou a faculdade de medicina e passou o ano de 1976 dormindo pelas calçadas do Leblon, assumindo uma liberdade imposta pelo afã de um grande sonho: ser reconhecido, ser valorizado como artista. Buscando, determinadamente, o lugar sujeito-compositor-cantor tornou-se vencedor e aclamado em todo o Brasil. Pouquíssimos lograram êxito e mantiveram a sua identidade de sujeito social. A linguagem que o produziu é

9 Jorge Henrique Mautner, nasceu no Rio de Janeiro em 17 de janeiro de 1941. Violinista, compositor e escritor reconhecido nacionalmente, foi exilado pelo regime militar, devido a suas convicções políticas, voltou ao Brasil em 1968, onde dá continuidade a sua carreira.

a que ele utiliza para se expressar. Está arraigada na sua produção discursiva e marca o lugar de onde o poeta fala. É sobre essa poética, as suas faces diversificadas no visionarismo, na insurgência e demarcadas pelas fronteiras da nordestinidade, que vamos analisar adiante, após registrarmos o acervo de sua produção.

Conforme Hall (2006), as sociedades modernas promoveram transformações nas posições de sujeito, propiciando novas identidades, fragmentando as velhas identidades a partir da modernidade, com o advento da globalização, criando uma identidade multifacetada. Como já dissemos, observamos os traços de identidade globalizada no discurso do autor Zé Ramalho, mostrados, na sua predileção por Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones e manifestados, como contraponto, nas marcas de ‘pertencimento’ no gosto pelos cantadores de viola, pelo cordelismo, que é uma expressão tipicamente nordestina, e no seu apego à terra natal; marcando uma mistura de culturas que culminam com a invenção de novas ‘identidades’ nas suas canções, no decorrer de sua vida, nas buscas do seu espírito inquieto de poeta. Isto reafirma a complexidade na identidade trazendo uma manifestação do descentramento do sujeito e mostra que, no jogo entre o pertencimento e a globalização, jamais se consegue manter uma identidade genuinamente pura e que somos todos ‘arrastados’ a estas transformações. Conforme Hall (2006), é a partir da multiplicação dos sistemas de representação e significação e do advento da globalização que se pode criar identidades temporárias e “fragmentar as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade” (HALL, 2006, p. 9).

In document DRIFTSSENTRAL DRAMMEN (sider 74-0)