2 TEKNISK TEORI
2.4 S PREDNING AV ANTIBIOTIKA OG ANTIBIOTIKARESISTENS TIL MILJØET
Esta análise se pauta pelo retorno à macro escala, só que agora o que é identificado não são as relações que diferentes grupos de moradores estabelecem com a Serra da Cantareira, e sim o imaginário do sentido de propriedade, que divide esta paisagem em dois grandes territórios. Em um território existem os que iniciam a ocupação do distrito na década de 1940 (que hoje são representados por seus filhos e netos), e que vêm morar em loteamentos recém-abertos populares ou mesmo vêm constituir as primeiras favelas; e em outro os que chegam após essa ocupação inicial a partir da década de 1970 e vêm morar em favelas e loteamentos clandestinos junto a pré-Serra da Cantareira.
Existe um limite simbólico/histórico que pode ser definido nesses períodos, mas existe também um limite físico, um divisor de águas representado pela Av. Deputado Cantídio Sampaio. Na área acima da avenida, um território caracterizado por uma grande área consolidada – expansão da Freguesia do Ó com muitas favelas, com mais de 60 anos na região, consolidadas e em sua maioria regularizadas; e na área abaixo da avenida, outro território constituído por favelas, loteamentos irregulares, clandestinos em processo de consolidação e ocupação.
Esses dois territórios também representam diferenças na produção das casas, um mais antigo mais consolidado, com casas antigas sendo a maior parte térreas e com quintais. Já o outro
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território é muito mais adensado, em processo de ocupação, concentrando muito mais áreas de risco e instalações precárias de infra-estrutura.
Assim, busquei entender quais são as representações que alimentam essa separação. E em algumas declarações de moradores temos pistas do que seria isto:
“A Brasilândia perdeu muita coisa, ela não tem mais Cartório, agora é na Av. Cantídio Sampaio”. “(...) O povo era uma família só, você sabia o nome de todas as pessoas, hoje mora perto um do outro e não sabe o nome”. (Dante Coiro, antigo morador, Documentário Brasilândia e suas histórias 2006 e 1ª Mostra do Acervo Pro Etnico das Famlias Negras da Brasilândia, 2010).
“Nós ajudamos a construir a Brasilândia, a gente se reunia de domingo tinha o macarrão, o feijão, e o arroz, todo mundo se reunia para construir a casa do vizinho. Todo sábado e domingo aqui na minha casa era a reunião dos vizinhos para construir a minha casa. Foi uma coisa muito bonita, o nascimento do bairro. Nós temos tradição, nos temos famílias, temos nossos ancestrais que construiram aqui, e essa construção não pode morrer. Através da gente é que vieram os pequenos, através dos velhos, nós precisamos disso, das raízes”. (Evilin, 51 anos de Brasilândia _ zeladora de orixá 1ª Mostra do Acervo Pro Etnico das Famlias Negras da Brasilândia, 2010).
Além do que está visível, esta divisão se encontra na linguagem, nos costumes, nas “normas” do cotidiano. De um lado os que falam da Brasilândia que está sendo ocupada como o “fundão”, o lugar perigoso e que muitos não tem acesso. E de outro, os que vêem a Brasilandia consolidada como um outro distrito, diferente do seu “lá é a Brasilândia, perto da Freguesia”.
Essa divisão é reforçada pelo desenho do sistema viário da região. O viário principal e o transporte público limita-se a percursos transversais pelo distrito. As linhas de ônibus que passam na região consolidada não passam na região em processo de consolidação e ocupação. Não é possível percorrer da região Sul à Norte do distrito sem ter que fazer transferência para outros
ônibus. Mesmo de carro o percurso não é fácil, encontra diversos obstáculos por existirem poucas ruas que perpassam os dois territórios.
A declividade é um fator que também contribui para esta situação. Percursos que seriam rápidos a pé, tornam-se inviáveis pela deficiência da estrutura urbana desarticulada. A declividade, além de comprometer a mobilidade do morador em todo o distrito, também compromete seu campo visual. Quem está na região consolidada não vê a outra porção do distrito, e em geral não sabe dos problemas urbanos e ambientais dessa região.
Um outro ponto importante a se destacar é que, mesmo tornando-se urbanizadas, as favelas e loteamentos irregulares não perdem o status de “clandestinos”. A favela torna-se favela urbanizada, e não um bairro da cidade formal16. Assim, a valorização das favelas e loteamentos clandestinos da pré-Serra da Cantareira como parte do território pelos moradores das regiões consolidadas do distrito extrapola o reconhecimento como área “legalizada”, a melhoria da situação econômica dos moradores, ou mesmo do desenvolvimento urbano destas áreas. É uma questão cultural.
Imagem da divisão territorial desta interpretação
16 (BOTLER, 1995 apud PINHO, 2000:63).
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A Brasilândia consolidada, vista históricamente como a “prima pobre” da Freguesia do Ó, é a “irmã rica” da Brasilândia da Serra da Cantareira, que por sua vez tem a cada período um lugar eleito como novo clandestino, que tem dentro de si o desejo de escapar desse aprisionamento. Em contradição, a Brasilândia consolidada vive o saudosismo da vida em comunidade de outros tempos, que remete a uma paisagem mais pública e compartilhada. Mesmo composta por grupos de imigrantes e migrantes que resguardavam suas especificidades culturais, estes se reconheciam
“A presença de outros que vêem o que vemos e ouvem o que ouvimos garante- nos a realidade do mundo e de nós mesmos (...)” (Arendt, 2010:61)
Há um declínio deste “dominio público” deste “reconhecimento” com a grande expansão urbana local, um desafio a esta parte do território que precisa encontrar um novo vínculo de um mundo comum. 17
Ao mesmo tempo, na “outra” Brasilândia, em processo de consolidação, tem-se ainda o reconhecimento entre muitos; a vida em comunidade é mais presente. São muito maiores as lutas coletivas, porque ainda lá são mais necessárias. Os moradores desta região lutam pelo direito de propriedade, e assim da liberdade “de dominar suas próprias necessidades vitais” (ARENDT, 2010:79) antigas lutas dos moradores da região consolidada que já conquistaram sua regularização fundiária, e seu universo de necessidades é mais particular e menos coletivo. Mesmo assim, é possível identificar nesta região da pré-Serra e da Serra da Cantareira (área em processo de ocupação e consolidação), algumas evidências também da necessidade de afirmar “quem é o clandestino” ou mesmo “quem veio depois”. O que se percebe é que, ao se adquirir alguma urbanidade e a propriedade do que até então era irregular, se divide e subdivide o território em classes sociais. Esse imaginário de que “não somos clandestinos”, a importância do “privado”, estabelece as classes sociais na periferia e pode ser identificado também em uma micro escala dentro das favelas.
17 Destaco que existem áreas específicas que mantêm essas relações de comunidade, mas não é o que carateriza a
Em uma roda de conversa com crianças do Jardim Paraná essa necessidade de identificar quem é o clandestino ficou muito evidente, como também uma forma de delimitar fronteiras. As crianças que participavam de estudos de percepção realizados nesta pesquisa e dividido em cinco oficinas, estavam discutindo quais lugares deveriam fotografar. Em suas frases era possível identificar a necessidade que sentiam de valorização do lugar onde moram, bem como delimitar exatamente o que é Jardim Paraná e ou que não é Jardim Paraná; para eles, o que é clandestino e o que não é.
“Não devemos fotografar o bar porque é do tráfico.”
“Não podemos fotografar a favela do lado do CEU, não é Jardim Paraná. O pessoal da favela usa nossa água, nossa luz, ocuparam a quadra de skate” “Vamos fotografar o ônibus que chega aqui com nome de outro bairro, não é certo. Não somos Damasceno somos Jardim Paraná”.
Imagem da Favela Ordem e Progresso ao lado do CEU Paz no Jardim Paraná, e da única linha de ônibus que dá acesso ao loteamento irregular Jardim Paraná. Fotos feitas pelas crianças da comunidade que participaram dos estudos de percepção da paisagem.
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Essa interpretação, além de apresentar essa relação de tratar de forma preconceituosa o que é clandestino hoje, permite a partir do seu mapeamento, compreender a expansão urbana desigual continuada rumo á Serra da Cantareira como uma força que não se extingue, mas que somente se desloca. Assim, os dramas da Brasilândia da década de 1970 e 1980, da região de extensão da Freguesia do Ó, são os mesmos hoje da região da Serra da Cantareira. O que difere é que hoje existe um número muito maior de pessoas em situações de risco e pouco organizadas, se comparadas com as lutas das décadas anteriores.
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São povos que compõem uma mesma marcha, de sobrevivência, de luta pela terra e pela dignidade, mas que necessariamente não enxergam no outro, o “novo clandestino”, um retrato de seu passado.
Esta classificação de quem hoje é clandestino mostra a consolidação de favelas precárias que tornam-se bairros autoconstruídos com certa infra-estrutura, o que necessariamente não representa a melhoria da qualidade de vida de toda a sua população. Assim, essa gente que parece desbravar áreas de grande importância ambiental e de pouco valor imobiliário, em sua reprodução contribui com o processo desigual de produção do tecido da cidade. Em suas lutas conseguem benfeitorias que valorizam a terra, que mesmo sendo irregular, tem seu mercado imobiliário próprio, que também exclui. É como uma peneira, os que tem menos em lugares que já se tem pouco vão sendo expulsos em um movimento contínuo.
É comum ouvir nas falas de moradores migrantes relatos sobre sua história na cidade de São Paulo, que se dividem em diversas moradias, mostrando seu trajeto por diversas periferias. Alguns apresentam melhoria da primeira moradia para a atual, outros, ao contrário apresentam o pior do deslocamento; a insegurança em não ter um chão, a constante expulsão, e a miséria.
Há as marcas da miséria que se deslocam pelo tecido da cidade, não só espacialmente, mas também junto com as pessoas que não conseguem se inserir no mercado de trabalho, e ter renda suficiente para a sua sobrevivência. A “paisagem amarela da fome”, colocada por Carolina de Jesus na década de 1950 em seu diário quando morava na favela do rio Tietê, era comum na Brasilândia da década de 1970 junto á Freguesia do Ó e atualmente é comum nas comunidades da Serra.
“Resolvi tomar uma média e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos. A comida no estômago é como um combustível nas maquinas. Passei a trabalhar mais depressa. O meu corpo deixou de pesar. Comecei a andar mais depressa. Eu tinha a impressão que eu deslizava no espaço. Comecei a sorrir como se
estivesse presenciando um lindo espetáculo. E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer? Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida.” Carolina de Jesus 27 de maio de 1955. Favela do Rio Tietê, bairro do Canindé (JESUS, 2006).
“(...) quando eu morava na Guariroba, tinha a Cida a irmã do João bom ladrão. Chegava de noite eu ouvia as crianças chorando e falavam: mãe me dá um pão. E ela na maior naturalidade dizia: cala boca seu filho da puta. De manhã ficava tudo quieto. Eu olho e ela tá lá fervendo papelão para dar de comida.” Depoimento de Frei Alamiro, novembro de 2011, sobre a realidade da favela Guariroba – Brasilândia da década de 1970.
“(...) As pessoas vivem sobre palafitas, com aquele mau cheiro do córrego. Além disso, tem o “chiqueirão” que fica ali do lado, uma criação clandestina de porcos na Serra que, quando lavam esse chiqueirão o cheiro fica pior ainda. As pessoas esperam os caminhões de restos de comida para os porcos e sobem sobre eles para se alimentarem”. Sandra Regina, moradora. Sobre sua visita a favela Hugo Ítalo Merigo, 2006.
O que pode parecer às vezes ao analisar dados demográficos sobre a situação socioeconômica de favelas, que estas apresentam menores índices de pobreza, mas que na verdade essa suposta melhoria em sua situação é devido a esse deslocamento constante.
Podemos olhar hoje a região da antiga favela Hugo Ítalo Merigo na região da Serra da Cantareira no distrito de Brasilândia, e termos a ilusão de que não existe mais aquela miséria relatada por Sandra, dado inclusive que será comprovado por pesquisas como o Censo de 2010. Porém, um olhar mais atento perceberá que a miséria não se extinguiu nesse espaço só se deslocou para outros pontos da Serra, constituindo novas favelas, com novos barracos, mas com os mesmos atores.