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Uma das grandes funções da narrativa, especificamente importantes no contexto da terapia, é a de construção de significado, já que organizamos nossa experiência em narrativas, que passam a ser o que vivemos à medida que é através dessas histórias que nos contamos para os outros e para nós mesmos. A realidade vivida é transformada em narrativa por nós, e esta narrativa, por sua vez, transforma o que vivemos.

En la exposición de la analogía del texto se ha sostenido que el significado se consigue através de la estructuración de la experiência en relatos, y que la representación de esos relatos es constitutiva de las vidas y las relaciones. Como esta narración de la experiência depende del lenguaje, al aceptar esta premisa estamos también proponiendo la idea de que asignamos significado a nuestra experiência y constituimos nuestras vidas y relaciones através del linguaje (WHITE; EPSTON, 1993, p.43).

Acreditamos, portanto, que o significado é dado através da estruturação da experiência em uma forma narrativa, logo, nossas experiências são determinadas pela linguagem. A linguagem, no entanto, por seu caráter aberto e indeterminado, não está presa a um único significado, sendo polissêmica. A capacidade de construir novos significados para as experiências aparece como uma potencialidade transformadora do ato de contar histórias, já que não existe um significado verdadeiro que deve ser captado.

nenhuma história possui interpretação exclusiva. Seus supostos significados são, a princípio, múltiplos. Não há um procedimento racional para se determinar se uma determinada “leitura” é necessária como as verdades lógicas são necessárias, nem um método empírico para se verificar qualquer leitura particular (BRUNER, 2001, p. 132).

Desta forma, um mesmo evento pode gerar múltiplas interpretações. André, por exemplo, demonstra que é a construção de várias narrativas sobre o trauma que leva à ressignificação:

muitas vezes você vai ter que falar várias vezes sobre isso. Mas a cada vez que você fala, é como se fosse uma etapa da sua cura. Vamos dizer, na quinta, sétima vez você fala sobre isso de novo e você consegue ter um novo olhar quando você fala sobre aquele trauma do passado, você se vê agora, você já se... amadureceu muito. Você consegue ter um olhar diferente.

O exercício da construção de novas narrativas promove novas versões que geram novas formas de agir e viver. Sendo assim, há uma íntima relação entre narrativa e ação: quando o sentido muda, muda também a ação, pois nosso comportamento depende de nossa interpretação da realidade. Grandesso (2000) adverte que a mudança na terapia está para além da retórica e do convencimento, mas é uma “construção de um novo campo de sentido. Novos significados configuram novas realidades linguísticas, novas narrativas organizadoras e configuradoras de sentido” (GRANDESSO, 2000, p. 201). Grandesso (2000) lembra, também, que Kenneth Gergen:

Considera que os efeitos das narrativas são concretos à medida que uma história, além de ser uma história, deve ser compreendida como uma ação situada. Como tal, diferentes mundos com distintas práticas de relacionamento podem ser criados, mantidos ou extintos por distintas narrativas (p. 396).

A narrativa é, portanto, uma ação no mundo, sendo capaz de instituir novas práticas, já que “a rede de significados do indivíduo pode ser reconstruída em razão do caráter performático da linguagem, matéria-prima do diálogo entre pessoas” (GRANDESSO, 2000, p. 200). Zilma, por exemplo, teve sua realidade transformada ao mudar sua forma de perceber a ausência do filho. Além disso, a psicóloga a incentivou a procurar cursos, treinou suas habilidades sociais, solicitou que ela tentasse conversar com os colegas de classe para expandir seu círculo de amizades, e dessa forma, foi construindo com Zilma um novo modo de viver.

Novas possibilidades de ação, como as desenvolvidas por Zilma, surgem a partir das lacunas que se abrem frente aos questionamentos do terapeuta. Novas perspectivas passam, então, a se tornar visíveis para o cliente.

Em uma concepção hermenêutica, o significado sempre está em processo: nunca se alcança por completo. A história nunca permanece igual, mas se constitui cada vez em forma diferente, mediante as perguntas que se dirigem a ele (o cliente)” (GOOLISHIAN; ANDERSON, 1994, p. 304).

Nossos entrevistados mostram que quando o terapeuta faz ligações na narrativa do cliente, facilita novas compreensões. Segundo Eduardo:

Quando você começa a se autoanalisar, digamos, tem coisas que você não aceita, e aí é onde entra o Ricardo (terapeuta) né. Por exemplo “você não disse isso?”, ele vai te mostrando os índices no texto que, ele vai me mostrando os índices dos meus próprios textos.

As pontuações do terapeuta mostram outras perspectivas da história, abrindo espaço para a ressignificação. “Nesse processo local e contínuo de perguntas e respostas, uma compreensão particular se converte em possibilidade – a compreensão e o significado são abertos e infinitos” (GOOLISHIAN; ANDERSON, 1994, p. 303).

Para Zilma, a presença do terapeuta também aparece como fundamental no processo de ressignificação. Ela acredita que foi achando as soluções na medida em que recebia a devolução do que havia dito. Sua história volta para ela com novas observações e explicações da terapeuta. A entrevistada sente que quando a psicóloga devolve sua fala, é como se fosse sua segunda voz. A voz da terapeuta, que devolve o que ela trouxe, lhe dá segurança, mesmo que ela não fale nada totalmente novo. Na verdade, Zilma reconhece que muito do que a terapeuta devolve é o que ela mesma já havia dito, mas essa interlocução aparece como essencial na construção de sentido. Além disso, Zilma conta que quando a psicóloga leu sua carta para o filho, ela percebeu outros pontos além da dor. A carta lida na voz da psicóloga a fez perceber a forma carinhosa como trata o filho: “ela leu todinha pra mim ouvir e eu não chorei. Achei bonito”. Seu depoimento demonstra o quanto a presença do outro é essencial na atribuição de novos significados. “Foi o meu amor por ele, era tão grande, que eu não sabia onde colocar. É, e quando eu cheguei aqui eu encontrei, eu tô encontrando o lugarzinho certo onde eu coloco o amor por ele.” O terapeuta, assim, não precisa de técnicas que levem o cliente a pensar de outra forma, pois a criação de um ambiente facilitador do diálogo é o mais importante, já que:

A linguagem e a conversação com o outro e consigo mesmo oferecem a condição para que novos significados possam ser ancorados em narrativas organizadoras da experiência e configuradoras de novas autobiografias. (GRANDESSO, 2000, p.395).

As autobiografias são construídas, assim, à medida que se tenta dar conta do vivido, formando uma versão de si mesmo que poderia gerar diversas outras versões autobiográficas. Desta forma, segundo Grandesso (2000), o self é passível de reconstrução a partir de novas descrições oriundas de novas formas de compreender e perceber o vivido.

No caráter de indeterminabilidade das histórias (White, 1991), uma infinita gama de aspectos da experiência vivida, incluindo eventos, sentimentos, intenções, pensamentos, ações e contextualizações, não é capturada pelas histórias dominantes. Portanto, sempre há possibilidades para novas conexões, pela reconstrução fenomenalizadora dos episódios vividos, transformando-os em novos arranjos temáticos e estilos narrativos. O resultado desse processo é um afrouxamento das tramas da velha narrativa, e uma consequente liberação da identidade tecida em suas malhas, bem como a configuração de outras possibilidades para construção de um novo self, a partir da narrativa emergente (p. 297-298).

A experiência é maior que a narrativa que tenta dar conta dela. Muito escapa a essa narrativa, e é isso que possibilita sua reedição, pois novas formas de contar são possíveis. Grandesso (2000) defende que durante o ato de narrar, o sujeito se distancia de si como um narrador que fala de um protagonista. Como já observamos em nossas entrevistas, os clientes frequentemente relatam que na terapia sentem-se narrando para si mesmo. Desta desapropriação, onde ele fica dentro e distanciado de sua própria história, há a possibilidade de uma nova compreensão, quando algo se torna “visível”. White (2004), nesse mesmo sentido, defende que a criação de uma narrativa permite que a pessoa veja sua história de longe, tendo uma visão geral do todo, e não mais estando imerso nas partes. Essa visão panorâmica também contribui para que novas possibilidades de significação sejam abertas. Construir narrativas possibilita às pessoas uma distância que gera “um engajamento mais significativo e dramático com suas vidas. É uma distância que abre possibilidades para as pessoas explorarem novas opções de auto-regulação e habitação de seus próprios corpos” (WHITE, 2004, p. 35).

As novas compreensões não se dão como uma aparição de algo que já estava lá, ou como uma súbita apropriação de significados ocultos atrás da experiência, como se esta houvesse sido descoberta. Para que novos significados possam emergir, é necessário um processo de ligação dos eventos em uma trama narrativa. Significados não emergem arbitrariamente, é necessário um processo de muitas conexões, que podem passar despercebidas, tornando-se evidente apenas o resultado: a súbita compreensão de um novo sentido.

Por fim, faz-se necessário lembrar que a ressignificação, que se dá no âmbito das práticas discursivas, também envolve aspectos de dominação e luta. A terapia é espaço de negociação discursiva que pode produzir novas histórias, contestando narrativas dominantes e opressoras que posicionam desfavoravelmente pessoas e grupos. Nesse sentido, a terapia abre caminho para a construção e negociação de narrativas alternativas (WHITE, 2012), como no caso de André, que aos poucos foi se desvencilhando de uma descrição de si calcada no diagnóstico da depressão, e passou a perceber-se como um garoto repleto de qualidades.