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6. METODEDEL

6.4. S EMISTRUKTURERT INTERVJU SOM DATAINNSAMLINGSMETODE

Candido Portinari (1903-1962) é considerado pela crítica especializada um dos pintores brasileiros mais importantes de todos os tempos. Sua arte foi reconhecida com destaque no mundo moderno, especialmente porque traduz com louvor aspectos culturais de seu país. O pintor nascido em Brodósqui “[...] não é um artista brasileiro por ter pintado o Brasil: é brasileiro por ter pintado criticamente o Brasil” (FABRIS, 1990, p.41). Portinari foi capaz de utilizar recursos expressivos da arte estrangeira, modificando as composições e adaptando-as às peculiaridades do país. Através do Expressionismo, o artista trouxe uma visão peculiar do homem e da terra brasileira.

Sua cidade natal, do interior de São Paulo, tem relação direta com sua trajetória de vida, isto é, “um caráter sempre pessoal” (FABRIS, 1990, p.41), como bem notificou Mário de Andrade. Assim como aconteceu com Poty, as lembranças advindas da infância de Portinari também apareceram em suas obras, através de uma perspectiva bem particular. Ele “[...] pintou um dos temas que mais conhecia: as brincadeiras de criança. Meninos jogam pião, andam de gangorra, armam arapucas, brincam de roda, usam chapéus feitos de jornal [...]” (MOREIRA, 1974, p.86). Estas imagens da criança em ação despontam sobretudo na sua atividade como ilustrador literário, principalmente nas imagens visuais criadas para a edição especial do romance de estreia de José Lins do Rego.

Na tese de Marilene Carlos do Vale Melo (2008), tivemos conhecimento de que Portinari ilustrou uma edição não numerada de Menino de Engenho: “[...] realizada sob a direção de Raymundo Ottoni de Castro Maya e Cypriano Amoroso Costa; supervisão de Poty Lazzarotto” (MELO, 2008, p. 84).

Ao visitarmos a Biblioteca de Acervos Especiais da Universidade de Fortaleza – Unifor, descobrimos que tal edição é a 3ª, publicada em 1959, pela Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil13. De tiragem limitada, traz a contribuição importante de Portinari,

13A criação deste grupo foi inspirada pelas sociedades bibliófilas existentes na França e na Inglaterra, no século XIX. Estas sociedades objetivavam valorizar significativamente o livro, por isso imprimiam

108 com 30 ilustrações, operadas com a técnica água-forte e água-tinta para fixar os desenhos no papel.

As ilustrações foram feitas a pedido do empresário e colecionador Raymundo de Castro Maya e tomam uma página inteira do exemplar, recuperando episódios-chave do romance e a relevante história do menino protagonista. O exemplar que investigamos para esta pesquisa é o de nº 56, impresso para Francisco Matarazzo Sobrinho.

Durante a infância, Portinari costumava observar as tipos humanos que povoavam a região em que morava. Estas figuras ficaram marcadas em sua memória e aparecem substancialmente na sua obra pictórica, especialmente os retirantes que migravam para o Sudeste do país, com o intuito de fugir da seca.

Nas épocas de seca em suas terras, eles caminhavam intermináveis quilômetros, em busca das promessas de trabalho e comida, que a terra do café parecia oferecer. Chegavam esfarrapados, como os espantalhos, magérrimos, as mulheres com os seios e os ventres caídos, as pernas finas, as crianças com os olhos e as barrigas enormes, os homens pisando a areia avermelhada de Brodósqui descalços, ou com sandálias de couro. Todos,

homens, mulheres, crianças, pareciam mais velhos do que eram e tinham o rosto curtido pela dor, pela fome e pelo sol. Por vezes, traziam ao ombro, dentro de redes, o corpo morto de um companheiro, e, quando era uma criança, a mãe derramava lágrimas grossas, que desciam lentamente pelo rosto sofrido.

Candim olhava todo aquele sofrimento sem entender. Bastava ver uma sandália de retirante para seu coração disparar e ele procurar proteção em casa (MOREIRA, 1971, p.43, grifo nosso).

O trecho grifado quase se assemelha a um comentário bem particular acerca do famoso painel Família de Retirantes e que ainda pode ser lido conjuntamente a outras obras importantes de Portinari. O texto nos leva a visualizar as deformações gigantescas nas mãos e nos pés das crianças e famílias pintadas por ele. Na verdade, estas figuras humanas foram inesquecíveis para o artista, o que demonstra a preferência por retratá- las, afinal mais do que revelar as mazelas do Brasil a produção artística de Portinari revela o olhar sensível daquele que soube tão bem ampliar significados.

A respeito da técnica expressiva, vale ressaltar ainda que Portinari constantemente criava composições “dominadas por figuras gigantescas, de uma

edições com tiragens limitadas. A primeira edição dos Cem Bibliófilos do Brasil foi produzida em 1944, com o romance Memórias Posthumas de Braz Cubas, ilustrado por Candido Portinari. A Sociedade realizou a publicação de 23 edições ilustradas por pintores renomados. De 1989 a 1996, surgiu em Brasília, outra Sociedade de Bibliófilos, denominada Pindorama. A instituição foi coordenada pelos bibliófilos Décio Drummond e Jorge Brito. Atualmente em Fortaleza – CE encontra-se a Associação Brasileira de Bibliófilos, que desde 1985 é a única do gênero no país. A instituição tem como presidente José Augusto Bezerra. No estudo de tese A bibliofilia no Brasil, de Oto Dias Becker Reifschneider (2011) encontramos vasto debate sobre a cultura impressa do livro em território nacional.

109 consistência escultórica” e os tipos humanos desenhados por ele possuem características que se tornaram conhecidas como “deformações tipicamente portinarianas” (FABRIS, 1990, p.44).

Seus desenhos mostram oposições entre a composição e as figuras grandiosas, mas “[...] parecem transbordar dos limites da tela, ao mesmo tempo em que buscam uma relação orgânica com a paisagem que as cerca” (FABRIS, 1990, p.44). Sobretudo na pintura é possível observarmos o domínio seguro do desenho, no qual o jogo de cores cinzas e de tons escuros, conduzem o apreciador da tela para uma leitura sugestiva, que sugere uma influência direta de Picasso.

Enquanto ilustrador literário Portinari mostra toda a sua versatilidade e expressividade, por meio de desenhos que ajudam a ressignificar o texto verbal, num misto de melancolia e dor, como veremos mais adiante neste trabalho.