3. INNGREP VED Å PÅLEGGE VILKÅR
3.5 S ÆRSKILTE TREKK VED NORSK KONKURRANSERETT
Segundo Ryle há um uso comum da expressão ‘em minha cabeça’, sendo disso o exemplo mais comum a afirmação: ‘há uma música que não sai de minha cabeça’. Este tipo de afirmação alicerça-se na concepção representacionista de mente conforme caracterizada pelos teóricos oficiais. Ryle (2000) aponta que a música não está ‘na cabeça’ (p.36).
A doutrina oficial explica esta expressão recorrendo ao aparato das representações mentais: quando uma pessoa está a ouvir uma música ‘tocando em sua cabeça’ está vivenciando a experiência subjetiva de acesso privilegiado à consciência. A representação mental da música é privada: ‘ouvir’ essa música com os ‘ouvidos da mente’ é privilégio do próprio indivíduo, tratando-se de uma vivência interna que não pode ser partilhada ou tornada pública.
Para Ryle, contudo, a chave da diferenciação entre o que está literalmente ‘na cabeça’ e o que está metaforicamente ‘na cabeça’ reside na materialidade ou não de alguns processos. No caso de ruídos de tosse, diz Ryle, eles estão na verdade ocorrendo nas cabeças como resultados de processos sabidamente biológicos.
Dadas as confusões no uso da expressão ‘em minha cabeça’, Ryle sugere que ela deveria ser dispensada porque esta expressão serve somente para reforçar a idéia de que a mente ocupa um lugar no espaço mesmo sendo invisível, assumindo o estatuto de fantasma. Sua conclusão é que a mente, seus estados ou processos não estão ‘na cabeça’, não no sentido em que pressupõe a doutrina oficial.
Ryle observa que a doutrina cartesiana pressupõe uma concepção de mente responsável pela representação isolada da realidade com seus processos internos. A concepção cognitiva do cartesianismo pode ser expressa pela fórmula ‘saber que’. Este ‘saber que’ pressupõe necessariamente o domínio e precedência do aparato cognitivo da coisa pensante no plano da ação, pois para Descartes, como procuramos mostrar, a interação perceptiva com o mundo não fornece informações confiáveis sobre as coisas, razão pela qual a ação é ‘guiada’ pela coisa pensante.
Na perspectiva de Ryle o ‘saber que’ não dá conta de explicar muitos fenômenos cognitivos referentes ao desenvolvimento de habilidades práticas, por exemplo, que devem ser reconhecidas como ações inteligentes. Um jogador de qualquer esporte sabe como jogar habilmente se desenvolveu as habilidades de um jogador astuto. O bom jogador ‘sabe como’ e
não necessariamente representa suas jogadas; ele sabe como se movimentar numa quadra de football, digamos, como se as regras do esporte estivessem embutidas em suas ações inteligentes.
Com outro exemplo talvez o conceito de ‘saber como’ fique mais claro: “um estudante estrangeiro pode não saber como falar Inglês gramatical tão bem quanto uma criança inglesa” (Ryle, 2000, p. 41).15 A criança inglesa sabe como falar e a gramática do Inglês lhe é bem natural, pois é apreensível em seu meio ambiente. A criança não vive andando por ai representando, ou seja, pensando segundo a doutrina oficial e depois falando. Ela aprende a falar falando, exercitando-se constantemente, criando e fortalecendo hábitos ao repetir comportamentos bem sucedidos. Ryle introduz a noção de hábito e o automatismo repetitivo que lhe é próprio. A noção de hábito pode ser caracterizada como sendo uma ação cristalizadora de crenças e, em primeira instância, produto dessas próprias crenças.
Os hábitos, uma vez assimilados graças à interação com o meio, adquirem um elemento de condicionamento: “o condicionamento consiste na imposição de repetições” (Ryle, 2000, p. 42).16 Assim, por exemplo, os soldados aprendem a utilizar armas pela própria repetição de certos comportamentos de manipulação.
Uma característica dos hábitos, e talvez a principal, é que uma ação executada por alguém é igual a sua ação precedente quando referida ao mesmo gênero de atividades. Desconsidera-se que uma pessoa ao andar, por exemplo, o faz num determinado tipo de terreno, arenoso ou muito liso, assim seu andar deve-se adaptar às condições que se lhe impõem. A noção de adaptação merece destaque neste contexto: quando alguém se adapta, faz um exercício constante de um momento ao outro e progride com este exercício de modo a ter, por exemplo, condições de andar em determinados terrenos com maior habilidade. Podemos dizer com Ryle que a pessoa ao andar está constantemente aprendendo a fazê-lo numa determinada situação (terreno arenoso) ou em outra (terreno liso). Sua aprendizagem de como andar com maior ou menor eficiência será orientada pela prática constante, pelas ações repetidas.
Mas será que a noção de hábito resolve o problema de como explicar o processo de aquisição de conhecimento sem recorrer à noção de representação mental? Entendemos que não,
pois o caráter de repetição de tais comportamentos ‘automáticos’ não parece dar conta de explicar
15 OI - [...] a foreign scholar might not know how to speak grammatical English as well as an English child. 16 OI - (or conditioning) consists in the imposition of repetitions.
certas habilidades cognitivas como, por exemplo, o exercício da crítica. O ato de questionar algo defronta-se com uma novidade que a simples repetição de habilidades já cristalizadas não será capaz de enfrentar. Com o propósito de solucionar o problema dos hábitos, visto que eles são estáticos e o conhecimento parece estar em constante movimento prático, Ryle propõe que certas atividades cognitivas complexas podem ser explicadas pela noção de disposição, que passaremos a analisar na seqüência. A importância desta análise decorre do fato de que, entendemos, é a noção de disposição que fornecerá subsídios para a crítica ao conceito de representação mental.