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Nenhum etnobiólogo sério sugeriu que se deva abandonar os conceitos científicos ocidentais no estudo de uma ciência não-ocidental. O que se exige é o abandono dos conceitos etnocêntricos de superioridade frente ao saber indígena, a fim de que se possa registrar, com acuidade, os conceitos biológicos de outras culturas e, com isso, desenvolver ideias e hipóteses que enriqueçam nosso próprio conhecimento. Esta é a força e o objetivo da etnobiologia: prover um arcabouço teórico para com outros sistemas científicos. Do ponto de vista filosófico, a etnobiologia serve de mediadora entre as diferentes culturas, como uma disciplina dedicada à compreensão e respeito mútuo entre os povos (Posey, 1986).

Como coloca Floriani (2000), cada gênero de pensamento, inclusive o matemático, é uma abstração incapaz de abarcar a realidade inteira. E aí reside um aspecto interessante para a colaboração entre distintos saberes: cada gênero de conhecimento isoladamente tem seus próprios limites, mas junto com outros pode levar o entendimento do mundo muito além daquele feito por uma disciplina, de forma isolada. Assim, a interdisciplinaridade está na base dessa ideia.

O projeto mundial de avaliação das consequências das alterações nos ecossistemas para o bem-estar humano, o Millennium Ecosystem Assessment (MA, 2003), pode ser um excelente exemplo de como a integração de diferentes áreas do conhecimento pode revelar resultados mais próximos de uma dada realidade em escala global.

O surgimento da Etnociência (ou Etnociências), nesse sentido, muito embora sua fase inicial não tivesse enfatizado as diferentes formas de relação sociedade e natureza a partir das diversas culturas, é atualmente uma abordagem que tem crescido e se revelado bastante promissora em estudos que tentam compreender as complexas inserções das comunidades humanas no meio ambiente (ver por exemplo Campos, 2002; Marques, 2002).

A Etnobiologia (e também a Etnoecologia), por sua vez, deriva das Etnociências e utiliza os conceitos da linguística para investigar o ambiente percebido pelo ser humano (Marques, 2002), partindo do pressuposto de que as informações que as

50 informações, vão influenciar seu comportamento em relação ao mesmo (Adams apud. Pedroso Jr., 2002).

A Etnobiologia, de acordo com Begossi et al. (2002), surge de diferentes linhas de investigação, influenciada pela Ecologia Cultural, Antropologia Cognitiva e Botância Econômica, dentre outras. Busca entender os processos de interação das populações humanas com os recursos naturais, com especial atenção à percepção, conhecimento e usos (incluindo o manejo de recursos). Entretanto, Toledo (1992) afirma que a sua abordagem está mais voltada para o sistema biótico e sua classificação. Ao tratar de diferentes comunidades em ambientes distintos, a Etnobiologia é particularista e relativista, no sentido de focalizar uma dada comunidade e seu ambiente, procurando compreender os processos de conhecimento e manejo dos recursos naturais. Assim, a Etnobiologia contribui para esclarecer diferenças culturais e analisar a diversidade ou heterogeneidade cultural (Begossi et al., 2002).

Uma das preocupações da Etnobiologia é entender os sistemas de classificação

folk (popular) das diversas sociedades humanas e compará-los aos sistemas científicos

de classificação. Tal área é denominada por Berlin (1992) de Etnotaxonomia e, segundo esse autor, busca comparar tais sistemas de classificação, encontrar possíveis critérios universais de classificação e comparar nomemclaturas, em termos históricos e linguísticos. Berlin (1992) ressalta ainda que sistemas de classificação hierárquicos, semelhantes ao sistema de classificação científica, são universais nas taxonomias folk.

A Etnobiologia, de uma forma mais ampla, está voltada mais especificamente para o estudo desse sistema de classificação e nomenclatura dos organismos, enquanto que a Etnoecologia traz uma abordagem mais abrangente da relação ser humano e meio ambiente, muito embora uma separação entre ambas seja uma tarefa difícil. Tanto a Etnobiologia, como a Etnoecologia, apesar de estarem na interface entre as Ciências Naturais e as Ciências Humanas, em particular, a Biologia e a Antropologia, ambas necessitam de outras disciplinas, cujos métodos, técnicas e conceitos, segundo Marques (2002), têm sido utilizados nas pesquisas com esse enfoque. Alguns exemplos são a Zoologia, a Botânica, a Psicologia, História, Agronomia, Economia, Matemática, Geografia, dentre outras. Assim, posicionando-se numa interface entre as tradicionais disciplinas acadêmicas e o conhecimento empírico de diferentes povos e etnias, a Etnoecologia pode efetivamente contribuir para os debates científicos atuais relativos à conservação da diversidade biológica e cultural (Pedroso Jr., 2002).

Em termos históricos, na base da preocupação de antropólogos, agrônomos e ecologistas humanos, estava a forma como os seres humanos se apropriavam dos recursos naturais, em termos de uso, conhecimento e percepção, e ainda, como os seres humanos manejavam tais recursos, sendo este conjunto de fatores a chave da abordagem etnoecológica. Desse modo, e de acordo com Toledo (1992), a Etnoecologia contou com forte influência da Etnociência, da Etnobiologia, da Agroecologia e da Geografia Ambiental, tendo como alguns dos seus precursores os antropólogos Charles Frake, Claude Lévi-Strauss e Darrel Posey.

Diversos autores apresentam diferentes definições para o campo de estudo da Etnoecologia. Para Toledo (1992) e Nazarea (1999), por exemplo, a Etnoecologia é o estudo dos conhecimentos, estratégias, atitudes e ferramentas que permitem às diferentes culturas produzir e reproduzir as condições materiais de sua existência social por meio de um manejo apropriado dos recursos naturais. Caracteriza-se como um enfoque ou abordagem teórico-metodológica no estudo da relação sociedade e natureza que enfatiza o papel da cognição no comportamento humano, apresentando-se como uma ferramenta útil para analisar problemas relacionados com o manejo, sustentabilidade, conservação e direito de propriedade intelectual. Para Marques (2001), entretanto, a Etnoecologia é definida como sendo:

O estudo das interações entre a humanidade e o resto da ecosfera, através da busca da compreensão dos sentimentos, comportamentos, conhecimentos e crenças a respeito da natureza, características de uma espécie biológica (Homo sapiens) altamente polimórfica, fenotipicamente plástica e ontogeneticamente dinâmica, cujas novas propriedades emergentes geram-lhe múltiplas descontinuidades com o resto da própria natureza. Sua ênfase, pois, deve ser na diversidade biocultural e o seu objetivo principal, a integração entre o conhecimento ecológico tradicional e o conhecimento ecológico científico. Grifo meu.

Desse modo, a importância da abordagem etnoecológica nesta investigação se dá na medida em que não apenas se pretendeu inventariar a biodiversidade de anfíbios anuros da área, mas sobretudo entender como as pessoas percebem, utilizam e manejam os recursos naturais (ver Figura 1.3).

Figura 1.3: Esquema mostrando as ideias-chave e a articulação das áreas do conhecimento que guiaram o estudo.

Abordagem sistêmica & etnoecológica Enfoque nas

Ciências Naturais Enfoque nasCiências Humanas Eixo norteador (1): Biodiversidade

(Anfíbios Anuros )

Eixo norteador (2):

Percepções, etnoconhecimentos e usos dos recursos pelos atores locais

1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5

A Biodiversidade de anfíbios anuros da ResEx Riozinho do Anfrísio é desconhecida;

Os anfíbios são excelentes bioindicadores da saúde dos ecossistemas;

Os anfíbios são animais sensíveis às mudanças ocorridas nos ambientes;

Apresentam características biológicas e ecológicas peculiares; Os anfíbios podem ser um bom modelo para estudos das influências antropogênicas sobre a biodiversidade e os ecossistemas. 1 2 3 4 5

Percepções sobre o ambiente e os recursos;

Etnoconhecimentos acerca dos diversos recursos naturais; Formas de uso e manejo dos recursos;

Dinâmicas do uso do espaço;

Fatores sociais, culturais e econômicos influenciando na conservação da biodiversidade.

Eixo norteador (3):