Por utilizar-se da dúvida metódica para adquirir um conhecimento certo, Descartes recebeu inúmeras críticas como a de ser ateu e cético... O que poderá se dizer é que seu legado em relação à dúvida o credencia como forte combatente aos céticos da modernidade o que abriu grandes discussões às quais ele não esteve alheio. Toda citação sobre a questão da dúvida feita por vários autores da modernidade, obrigatoriamente tem que se referir-se Descartes. Com isso, percebe- se que não se pode dissociar que a dúvida, especialmente a hiperbólica, está ligada ao próprio Descartes.
É pertinente observar que o objetivo principal do ceticismo é a dúvida das coisas postas à sua frente e de maneira incisiva elevada ao grau de “suspensão dos juízos.”
Para os céticos, a dúvida era o único caminho para se ter uma atitude coerente diante da quantidade de opiniões contraditórias, bem como diante dos erros reinantes do conhecimento sensível. Então, era muito próxima a ideia de que Descartes fosse confundido como sendo cético. Em certo sentido, ele se aproxima de muitos deles quando se utiliza dos mesmos argumentos, com a diferença de que o objetivo que Descartes tem, é claro: o alcance da verdade. Ele até retoma muitos dos argumentos postos pelos céticos acadêmicos, como também, recebeu forte
influência de Michel Montaigne no século XVI. Porém, Descartes se distinguirá de todos eles, conforme afirma Silva (2005, p. 41):
Descartes se distingue dos céticos acadêmicos na medida em que não julga que a certeza seja impossível de atingir. Para ele, a matemática é a prova de que a razão humana é compatível com a verdade. O projeto de reconstrução do saber só tem sentido a partir da convicção de que o intelecto humano é capaz de atingir a verdade.
Descartes não utiliza a dúvida apenas para constatar que não é possível atingir a verdade. Para ele, a dúvida é metódica (e metodológica), possui caráter provisório e tende ao objetivo de encontrar a verdade. O cético suspende os juízos por não acreditar que a verdade esteja ao alcance de ninguém. É a dúvida pela dúvida, pois, segundo argumentam, que ao homem é impossível o conhecimento. Diferentemente, a postura de Descartes, é que a dúvida é instrumento, método, meio para se chegar a um ponto a ser alcançado. Tem caráter purificador das mazelas das incertezas, rumo ao conhecimento verdadeiro. Ele, (DM III, 1973, p. 52) diz:
...efetuando particular reflexão, em cada matéria, sobre o que podia torná-la suspeita e dar ocasião de nos equivocarmos, desenraizava, entrementes, do meu espírito todos os erros que até então nele se houvessem insinuado. Não que imitasse, para tanto, os céticos, que duvidam apenas por duvidar e afetam ser sempre irresolutos: pois, ao contrário, todo o meu intuito tendia tão somente a me certificar e remover a terra movediça e a areia, para encontrar a rocha ou a argila.
Note-se aqui que Descartes está de toda forma tentando se livrar dos erros que estão arraigados na vida desde o princípio do entendimento, de tudo que se recebe durante todo o tempo em que se é educado nos saberes transmitidos pela tradição. Nessa empreitada de procurar a verdade nas ciências, Descartes contesta o ceticismo ressurgido na modernidade25, por se apresentar irresoluto sem
perspectivas de chegar à certeza das coisas. A dúvida que Descartes apresenta vai
25
Pode-se destacar aqui a forte influência de Montaigne exercida sobre o pensamento cartesiano. Em sua obra Ensaios “... a característica mais marcante é antes o exercício da dúvida que a enumeração das certezas.”
além da simples radicalização dela própria, diferente da dúvida exercida entre os céticos. Ele a utiliza como importante instrumento para elaboração científica. Por isso, Gaukroger (2002, p. 382) ao comentar o papel da dúvida e dos céticos, diz:
Dado o papel do ceticismo e da dúvida epistemológica no pensamento maduro de Descartes, é importante apreciarmos as diferenças entre a dúvida antiga e a cartesiana, sobretudo uma vez que elas foram amplamente obscurecidas na literatura sobre a história do ceticismo. A dúvida cartesiana tem sido tratada, simplesmente, com uma versão radical de um projeto tradicional, quando, na verdade, ela é muito diferente do pirronismo.
Não se percebe de maneira evidente como o projeto pirrônico seria executado, apenas na possibilidade de uma dúvida relativista. O pirronismo, segundo Gaukroger (2002, p.383) tem o papel de questionar “a capacidade de escolher entre aparências diferentes e, talvez, conflitantes. O objetivo desse exercício era mostrar que as condições para distinguir a percepção verídica e inverídica nunca podem ser satisfeitas”. Para os céticos pirrônicos, há um objetivo evidente em sua busca: a suspensão dos juízos26 a tranquilidade e imperturbabilidade do espírito através de uma viagem intelectual. Assim, Gaukroger (2002, p. 384):
O projeto pirrônico baseia-se na existência de um conflito de opiniões que não admite resolução. O conflito de opiniões leva à suspensão do juízo, e essa suspensão do juízo, quando realizada a contento, leva o pirrônico ao estado de tranqüilidade que ele busca.
Está bem claro a diferença do tipo de dúvida que há entre o ceticismo pirrônico e Descartes. Comentando sobre isso, Gaukroger (2002, p. 417), diz que:
Ao introduzir o ceticismo, Descartes usa o método pirrônico tradicional. O cético deixa que seu oponente faça uma asserção de conhecimento e, em seguida, mostra que a asserção não atende aos requisitos de conhecimento do próprio oponente, evidenciando que não existe a justificação necessária para ela.
26 Segundo Gaukroger (2002, p. 383) a suspensão dos juízos, a chamada ataraxia ou apatheia proposta pelos céticos é a “isenção de perturbações, a tranquilidade – alcançada através de uma ‘viagem’ intelectual”.
E por isso, ao percorrer os passos desse método cético, Descartes o fará perceber que existe algo além do próprio duvidar das coisas. E usa as próprias armas dos céticos contra eles mesmos. Gaukroger (2002, p. 417) continua:
Mas Descartes vira a mesa e usa esse método contra o próprio cético. Para ser cético, antes de mais nada, o sujeito tem que se empenhar na dúvida cética, e Descartes usa a existência dessa dúvida para mostrar ao cético que, afinal, existe algo de que ele não pode duvidar, a saber, o fato de estar duvidando.
Entende-se que Descartes não é cético como muitas vezes o quiseram enquadrá-lo. Sabiamente toma emprestado o caminho da dúvida usado pelos céticos com um objetivo a ser alcançado. Ele não está buscando uma ataraxia, uma suspensão do juízo apenas, procura sim, desvendar toda falsidade a que submeteram o saber e prova a possibilidade do conhecimento a partir do Cogito. Com isso, vai além do ceticismo vigente, superando-o.