Tendo em conta que existe uma variedade de mecanismos/ferramentas/estratégias para levar a cabo uma AAD mais formal, pretendemos, com esta dimensão, compreender que práticas de auto-avaliação são levadas a cabo pelos professores/educadores do Agrupamento X, auscultando-os a respeito dos instrumentos/estratégias utilizados, bem como dos momentos em que essa prática se concretiza.
Para o efeito, decidimos formular dois blocos de questões. Um primeiro bloco, composto por cinco itens, que incidia na identificação dos momentos em que, habitualmente, ocorrem os procedimentos de AAD. Um segundo bloco, constituído por dez itens, através do qual se pretendia que os docentes identificassem os instrumentos/estratégias que privilegiam e/ou devem utilizar (no caso dos entrevistados) na sua auto-avaliação. Como habitualmente, cruzaremos os dados obtidos no inquérito por questionário com as respostas dos entrevistados.
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Nos Gráficos 12 e 13 apresentamos os itens desta dimensão bem como as respectivas opiniões dos docentes.
Gráfico 12 - Momentos de realização da auto-avaliação
0,0 20,0 40,0 60,0 80,0
No final do ano No final de cada período
lectivo
No final de cada unidade didáctica
Quando finaliza a aula No momento da progressão
na carreira
Nunca Raras vezes Às vezes Muitas vezes Sempre
A leitura do gráfico permite-nos facilmente concluir que uma grande maioria dos docentes inquiridos procede à sua auto-avaliação no final do ano lectivo (73,5%), sobretudo no momento de progressão na carreira (67,2%). É igualmente relevante a percentagem de docentes que reflecte sobre a sua actuação no final de cada período lectivo (59,5%). Não deixa também de ser significativa a quantidade de professores/educadores que procede à sua auto-avaliação no final de cada unidade didáctica (33,3%) ou sempre que concluem uma aula (32,4%).
As respostas obtidas confirmam a importância atribuída a este procedimento, uma vez que os docentes, em todos os itens, se posicionaram favoravelmente à sua realização, embora em momentos distintos, com particular incidência no final de cada ano lectivo e/ou no momento em que progridem na sua carreira profissional. Tal posição corrobora as opiniões de vários autores – Airasian e Gullikson (1998), Alves e Machado (2010), Moreira (2009) e Day (2001) –, para quem a AAD se apresenta como um processo de emancipação que dá voz ao professor, envolvendo-o no seu próprio ensino, resultando daí o seu desenvolvimento pessoal e profissional bem como o desenvolvimento da própria instituição. Acrescentam, ainda, que a consciência da
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prática docente poderá servir de base para a reflexão e interpretação dessa mesma prática no sentido de uma melhoria do processo de aprendizagem dos alunos.
A média da avaliação das respostas a este bloco de questões e o seu grau de dispersão, calculado com base nos valores do desvio-padrão, encontram-se expressos no quadro seguinte:
Quadro 19 - Valores da média e do desvio-padrão relativos aos momentos de realização da auto-avaliação
Uma vez que as pontuações médias se situam entre os valores 1,39 e 2,39, somos levados a inferir que os juízos avaliativos se situam no intervalo definido para a discordância (claramente inadequados), o que demonstra que a auto-avaliação ainda não é uma prática consolidada no seio da classe docente, independentemente do período em que a mesma se realize. A este facto não é alheia a dispersão de respostas aos vários itens propostos, o que denota a não existência de uma posição unânime, por parte dos inquiridos, no que concerne aos períodos em que realizam a sua auto-avaliação. Em nosso entender, esta situação resulta de clara falta de maturidade relativa a este procedimento e consequente dificuldade de implementação do mesmo no seio da classe docente do agrupamento em estudo. Apesar disso, não podemos deixar de relevar a importância concedida à auto-avaliação pelos inquiridos.
Quanto aos valores relativos ao desvio-padrão, verifica-se um consenso moderado/baixo para os itens a) e b) e um consenso baixo para os restantes itens, com especial incidência no item “No momento da progressão na carreira”, o que, paradoxalmente, traduz uma discordância evidente por parte de muitos professores em procederem à auto-avaliação nesse período.
No que concerne ao segundo bloco de questões que integrava a dimensão “Instrumentos/estratégias privilegiados na auto-avaliação”, o Gráfico 13 ilustra bem as respostas dos inquiridos:
Momentos de realização da auto-avaliação Média Dp
a) No final do ano 1,39 0,79
b) No final de cada período lectivo 1,66 1,00 c) No final de cada unidade didáctica 2,39 1,07 d) Quando finaliza a aula 2,39 1,12 e) No momento da progressão na carreira 1,91 1,47
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Gráfico 13 - Instrumentos/Estratégias de auto-avaliação
Da sua análise, podemos constatar que um significativo número de docentes (45%) privilegia, muitas vezes, como estratégia de auto-avaliação o diálogo e troca de ideias com os colegas, logo seguido do feedback dos alunos sobre o trabalho que desenvolvem enquanto professores (41,6%). Um dos docentes entrevistados apresenta exactamente a mesma opinião quando afirma que:
“(…) Podem ser utilizados diversos instrumentos consoante as funções desempenhadas pelos professores na escola: questionários feitos aos alunos sobre o seu trabalho como docente, registo de algumas opiniões de colegas (…)”.(E1)
De salientar o facto dos resultados da prestação dos alunos constituir, igualmente, para 38,5% dos inquiridos, uma estratégia de AAD.
Por outro lado, as gravações (áudio e vídeo) dentro da sala de aula, a observação de aulas por outros colegas e a redacção de diários nunca ou raramente são utilizados, respectivamente, por 88,1%, 83,5% e 54,5% dos respondentes ao questionário. Um dado que
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merece uma atenção particular é o facto de apenas 28% dos docentes inquiridos afirmar que utiliza os instrumentos previstos nos normativos legais, o que traduz o sentimento de Pacheco e Flores (1999) e de Curado (2002), para quem a auto-avaliação não deve revestir-se de um carácter meramente burocrático, mas apresentar-se como uma mais-valia para cada docente, capaz de proporcionar reflexão e melhoria da sua actuação. É nesse sentido que nos parece relevante registar as opiniões manifestadas por três dos entrevistados, que evidenciam a necessidade de uma certa uniformização dos instrumentos e parâmetros a utilizar no agrupamento a que pertencem, embora não deixem de reconhecer o protagonismo que devem assumir a esse nível:
“(…)este ano vão ser construídos novos instrumentos no nosso agrupamento, poderá talvez ser criado um documento que, pelo menos, uniformize o relatório de auto-avaliação”. (E2)
“(…)Um relatório sucinto e muito concreto da actividade desenvolvida no prazo relativo à avaliação em causa, podendo até existir um modelo base para todos os docentes de uma mesma escola. Para além disso, acho que os professores, na sua prática diária, devem elaborar os seus próprios instrumentos ou melhor, eles devem até ser elaborados a nível de departamento ou grupo disciplinar”. (E3)
“Pensando bem, parece-me que talvez um relatório crítico da prática do professor com uniformização das dimensões (parâmetros) a avaliar, ao nível da escola/Agrupamento (…) Pessoalmente costumo utilizar mais as notas pessoais e a opinião dos alunos sobre o trabalho que desenvolvo. Afinal ninguém melhor que eles para nos darem a percepção do que não está bem e precisa ser melhorado, não é?” .(E4)
No Quadro 20, são apresentados os valores das médias e do desvio-padrão relativos a este segundo bloco de questões:
Quadro 20 - Valores das médias e do desvio-padrão relativos aos momentos de realização da auto-avaliação
Instrumentos/estratégias de auto-avaliação Média Dp
a) Diálogo e troca de ideias com os colegas 2,05 0,87 b) Opinião dos pais e encarregados de educação 3,25 1,18 c) Construção de portefólios para registo da actividade 2,85 1,26 d) Redacção de diários 3,51 1,44 e) Instrumentos de auto-reflexão elaborados em departamento/grupo disciplinar 3,20 1,20 f) Gravações (áudio e vídeo) dentro da sala de aula 4,53 0,84
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A análise das médias obtidas permite-nos constatar que os itens “Diálogo e troca de ideias com os colegas” (2,05), “Resultados dos alunos” (2,04) e “Feedback dos alunos acerca do trabalho desenvolvido pelo professor” (1,94), se revelam inadequados para o processo de AAD o que, em comparação com o gráfico anterior, torna visível uma certa ambiguidade dos respondentes.
Verifica-se uma situação de indefinição avaliativa nas opiniões dos professores inquiridos relativamente à “Opinião dos pais e encarregados de educação” (3,25), à utilização de
“Instrumentos de auto-reflexão elaborados em departamento/grupo disciplinar” (3,20) e de
“Instrumentos previstos nos normativos legais”, bem como à “Construção de portefólios para registo da actividade” e à “Redacção de diários” como meios eficazes para a realização da sua auto-avaliação.
Finalmente, a opinião dos inquiridos é concordante com a realização de “Gravações (áudio e vídeo) dentro da sala de aula” e com a “Observação de aulas por outros colegas”.
A quase generalizada situação de indefinição avaliativa repercute-se nos valores encontrados para o desvio-padrão, onde existem valores compreendidos entre 0,82 e 1,44, que traduzem uma concordância moderada/baixa entre os inquiridos e evidenciam uma significativa dispersão de respostas aos itens propostos. Será que, tal facto, se deve à inexistência de instrumentos de auto-avaliação normalizados, elaborados ao nível do agrupamento pelos vários departamentos curriculares?
A análise global desta dimensão permite-nos concluir que, apesar do recurso a diversos instrumentos e estratégias de auto-avaliação, os que são utilizados de forma mais consistente pelos docentes estão relacionados com o feedback que recebem dos alunos relativamente à sua actuação e com o diálogo, troca de ideias e experiências com os restantes colegas, talvez por não se revestirem de um carácter tão formal. Porém, tal posição ainda não é assumida de forma taxativa pela generalidade dos professores.
g) Feedback dos alunos acerca do trabalho desenvolvido pelo professor 1,94 0,91 h) Resultados dos alunos 2,04 0,95 i) Observação de aulas por outros colegas 4,38 0,82 j) Apenas os instrumentos previstos nos normativos legais 2,95 1,28
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Trata-se de uma situação que não nos surpreende, se tivermos em conta que autores como Barber (1990) e Day (2001) sustentam que o recurso a várias técnicas e instrumentos permitem uma auto-avaliação mais fundamentada e, por conseguinte, mais rigorosa e objectiva, aspectos, aliás, sugeridos por uma das entrevistadas:
“(…)Acho que devem ser utilizados todos os instrumentos que permitam obter dados que confiram à avaliação maior objectividade, como por exemplo modelos de avaliação de actividades, entrevistas, ficha de auto-avaliação e um relatório elaborado pelo professor no final de cada ciclo avaliativo”. (E5)
No entanto, temos consciência de que muitas das ferramentas referidas não são utilizadas. Como afirmam Airasian & Gullickson (1998, p. 22), “as exigências do ensino, o trabalho constante na sala de aula e a necessidade de tomar decisões de forma imediata, inibe o desejo do professorado levar a cabo a auto-avaliação”. Assim se compreende que o êxito deste processo não dependa unicamente do professor, estando relacionado com as condições físicas, pessoais e situacionais em que o mesmo se encontra, nomeadamente o apoio da comunidade educativa, o tempo disponível e os recursos existentes, mas sobretudo o estímulo e motivação resultantes da mudança de crenças e valores no sentido de conceder maior credibilidade à sua actuação como profissional da educação.