Por considerarmos o conteúdo de alfabetização como um objeto socialmente contextualizado, fez-se inevitável, no desenvolvimento deste trabalho, a reflexão sobre os pressupostos histórico-culturais dos conteúdos do Livro de Leitura De Pé no Chão/RN nos remetendo, também, à função educativa assumida pela Prefeitura de Natal/RN (1961-1964), por meio da Campanha de Pé no Chão/RN. Esta pretendeu erradicar o analfabetismo em Natal/RN no início da década de 1960, com o trabalho pedagógico de conscientização das condições educacional, cultural e políticas das camadas populares desta cidade.
Nesta pesquisa, descobrimos que existia no Livro de Leitura de alfabetização de adultos da Campanha de Pé no Chão/RN, proposições de Freire (2002) de uma concepção de educação popular que pretendia dar conta, em termos de intervenção educacional, da transição do estado colonial da cultura brasileira, mobilizada por uma mudança do pensamento da cultura popular, ao encontro de uma perspectiva conscientizadora de desenvolvimento da condição política e social dos alfabetizandos atendidos por aquela proposta político-pedagógica.
Como vimos, nossa investigação partiu de uma abordagem histórico-cultural, relacionando nosso objeto de estudo: os conteúdos da alfabetização popular no início da década de 1960, mais precisamente daqueles reproduzidos no Livro de Leitura De Pé no Chão/RN.
Logo, confirmamos nossa hipótese de pesquisa sobre a existência de uma concepção nacional-desenvolvimentista, permeada pelo pensamento político- romântico, presente no Livro de Leitura De Pé no Chão/RN.
Esta concepção estava relacionada com a possibilidade da transição de uma consciência intransitiva e ingênua para uma transitiva-crítica, ao encontro do que dissemos que Freire (2002) entendia pela transição do estado colonial brasileiro para o estado nacional desenvolvimentista no início da década de 1960.
Percebemos nos pressupostos histórico-culturais, presente no Livro de Leitura De Pé no Chão/RN, que a cultura e educação popular se hibricaram com os valores e ideários político-românticos nacional-desenvolvimentistas daquele cenário político-intelectual.
Identificamos que houve uma gama de características românticas hibricadas neste documento, dentre elas: a recusa daquela realidade social, a sensação de perda da cultura popular, a nostalgia de uma cultura popular, a busca do espírito do povo, da linguagem originária, do caráter nacional, do encontro com um futuro diferente do presente, portanto, de uma nova sociedade.
Portanto, a finalidade educativa da educação popular para com os alfabetizandos atendidos a partir daquele documento era de dar conta da transição do estado colonial da cultura brasileira mobilizada por uma mudança do pensamento da cultura popular, na perspectiva do ideário nacional-desenvolvimentista brasileiro que valorizava um Estado atuante, protagonista do desenvolvimento nacional e soberano.
Ao longo deste trabalho, considerando os pressupostos histórico-culturais do pensamento nacional desenvolvimentista presente no Livro de Leitura De Pé no Chão/RN, trabalhamos nosso aprendizado sobre as condições de avanço da indústria nacional, admitindo um processo de integração social, junto com a possibilidade de transição da consciência popular já idealizada por Freire (2002) que, em última análise desembocava na visão de um modelo capitalista industrial voltado para os interesses do Estado brasileiro. O avanço de sua proposta pedagógico-filosófica se situa na integração deste tripé que seria primeiro: o trânsito para a capacidade de dialogação do povo, gerada em sua proposta de educação popular; segundo: o Estado nacional; e, por último, é claro, o modelo capitalista industrial. Nesta pesquisa, nossa atenção se voltou para o primeiro suporte deste tripé de modo que, conseguimos compreender nesta abordagem histórico-cultural, como a visão freiriana de cultura popular foi trabalhada pedagogicamente na Campanha de Pé no Chão/RN. Como dissemos ao longo deste trabalho, Paulo Freire dizia que:
Na medida em que o homem amplia o seu poder de captação e de respostas às sugestões e às questões que partem de sua circunstância e aumenta o seu poder de „dialogação‟ não só com o outro homem, mas com o seu mundo, se transitiva. Seus interesses e preocupações se alongam a esferas mais amplas do que à simples esfera biologicamente vital. (FREIRE, 2002, p. 35).
Conseguimos, nesse sentido, compreender que nesta abordagem teórico- metodológica o modo como a visão freiriana de cultura popular foi trabalhada pedagogicamente na Campanha de Pé no Chão/RN, demonstrado em seu Livro de Leitura, nos possibilitou ver esse instrumental de leitura com muitas possibilidades teóricas, pois nos mostrou avanços pedagógico-conceituais nos conteúdos de sua alfabetização, representados em suas palavras-chave. Estas tinham significativa relação com os modos de vida, os valores construídos historicamente, a visão de mundo da cultura popular, construindo pedagogicamente uma possibilidade da transição de uma consciência ingênua para uma conscientização crítica da realidade cultural e política historicamente vivida, integrando as classes populares urbanas e rurais à perspectiva econômico-social da época.
É sabido que o Livro de Leitura De Pé no Chão/RN não se constituiu por uma proposta original, mas de uma adaptação do Livro de Leitura Para adultos do MCP/PE, às condições de Natal, desdobrando seu olhar para a própria realidade local. Desse modo, foi criado no âmbito de uma concepção de educação popular, onde alfabetizar e conscientizar se confundiam, apresentando temas que abordavam a realidade cultural, política e social das camadas populares em processo de alfabetização.
Constatamos que o Livro de Leitura estudado imprimiu em suas lições de alfabetização o ideário nacional-desenvolvimentista veiculado pelos dirigentes dos Movimentos estudados no presente trabalho. Há nesse material alfabetizador um sentido de busca de consciência popular, de propriedade da nação, da liberdade do povo, na defesa de uma identidade nacional, da defesa dos direitos dos brasileiros (povo), do estímulo ao esporte como representação nacional, da necessidade de depositar confiança nos políticos nacionalistas para representação dos interesses populares e defesa do fortalecimento das indústrias nacionais. Existe também o reconhecimento da cultura popular, no sentido de revelação e respeito às idéias populares, nacionais.
Não obstante, tomando por base o que Moacyr de Góes (1963) registrou no Livro de Leitura da Campanha de Pé no Chão/RN e Germano (1982) reforçou em sua análise, cabe aqui ressaltar: para que a libertação do povo brasileiro, à luz do ideário nacional-desenvolvimentista, fosse possível, deveria esta se dar através da busca das raízes culturais populares.
Vemos, contudo, que a educação seria um instrumento de internalização simbólica desses valores culturais. Tendo a cultura o papel sine qua non de fomentar a libertação do povo brasileiro da alienação cultural no sentido que Thompson (1998) destaca, o projeto imperialista (entenda-se norte-americano) pretendeu implantar fortemente no Brasil no início da década de 1960.
Dessa maneira, as lições presentes no Livro de Leitura De Pé no Chão/RN, redizemos, contêm trechos como: “um povo analfabeto é um povo sem liberdade. A cultura na mão do povo é arma na luta pela liberdade” [...] “democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo. Em uma verdadeira democracia o povo tem paz, tudo que é indispensável a uma vida digna e meios para ampliar sua cultura” (RIO GRANDE DO NORTE, 1963, p. 37). Por este viés, identificamos a cultura popular revestida de um caráter nacional-desenvolvimentista e de resistência ao imperialismo norte-americano.
Retomamos ainda Germano (1982), para considerar que esse viés nacionalista, certamente, tem suas debilidades na medida em que tende a fundir, tanto as classes populares (operários e/ou proletários dos meios rural e urbano), quanto as classes dominantes, no conceito ambíguo de nação. Desta feita, sentimos a ausência de uma discussão no que concerne a reformas estruturais da sociedade brasileira ligadas às lutas de classes, não somente discutindo, de forma mais profunda, a situação dos trabalhadores rurais e urbanos, mas também o modo como as relações capitalistas de produção submetem o trabalho urbano e rural, os quais produzem mais-valia apropriada por interesses que visam o lucro, sem falar da segregação espacial e da situação de miséria em que se encontrava o Nordeste brasileiro naquela época.
Isto também ocorreu no MCP/PE e, no momento em que houve necessidade de se repensar as práticas pedagógicas da Campanha de Pé no Chão/RN, as forças armadas no poder, juntamente com alguns setores reacionários da sociedade civil brasileira, com o intuito de conter essas mobilizações político-ideológicas voltadas para as classes populares, tomaram esses Movimentos de cultura e educação popular como uma iniciativa ameaçadora à ideologia da segurança nacional. Ocorreu uma violenta desarticulação destes com a deflagração do golpe de Estado em abril de 1964. Portanto, não houve espaço político para a implementação do projeto de reforma da nação que esses Movimentos defendiam e imprimiram em
seus Livros de Leitura de alfabetização popular, a exemplo do Livro de Leitura De Pé no Chão/RN.
Cabe aqui registrar que pretendemos dar continuidade a esta pesquisa em nível de doutorado, utilizando fontes documentais do Arquivo Nacional, escolhendo duas vertentes de pesquisa, a saber:
a) o “crime” e o “castigo” imposto aos idealizadores e executores do Livro de Leitura da Campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, no Estado do Rio Grande do Norte (1961 - 1964), tomado como um instrumento necessário à prática da liberdade, por falarem ou agirem em nome da educação popular daquele período;
b) o conhecimento da cultura praticada naquele Movimento de Cultura Popular assentado no saber Ler e Escrever como ação criminalizada pelo governo militar para coibir as ações de seus idealizadores.
Por fim, esperamos que o caminho delineado em um projeto de pesquisa, possa promover o aprofundamento das questões envolvidas na temática que vimos construídas sobre educação popular, movimento de alfabetização e cultura, unificada pela visão de cultura e embasada pelo pensamento político-romântico do ideário nacional-desenvolvimentista do início da década de 1960.
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