• No results found

Síntomas negativos durante

De acordo com Facundes (2000), apurinã é o nome utilizado no Brasil para se fazer referência ao povo indígena pupỹkarywakury e à língua falada por ele. Há outras muitas denominações encontradas para este povo, contudo, este termo é o mais utilizado pelos membros dessa etnia para a sua autodenominação quando falam português.

O povo apurinã está localizado às margens do rio Purus, no Sudeste do Estado do Amazonas, espalhados em mais de vinte comunidades, número que vem aumentando em função da constante migração desses índios. Por exemplo, alguns índios, que tinham fixado residência na cidade, decidiram formar novas comunidades apurinã, em uma área denominada por eles de Kaititu, nas redondezas da cidade de Lábrea. É o que mostra o depoimento de um professor da aldeia São José:

Talvez por eu estar na cidade e procurar os costumes antigos.... que eu fazia... na época... quando eu morava com a minha mãe... e eu::: comecei a

81 pensar nisso... aí... a mamãe veio pra cidade também...e... formou uma comunidade nossa mesmo .... e:: ela começou a incentivar nós ... filhos dela ...que já tava morando tudo na cidade:: a vim se juntar voltar o costume antigo...e::: aí...eu...eu...como é.... perto da cidade nossa comunidade... eu... vim... procurar... e me dediquei a morar lá mesmo ...e::: num quis mais viver na cidade não. (Anexo 3)

De acordo com Schiel (2004), o território outrora ocupado por este povo era restrito ao Médio Purus. Mas como o povo apurinã possui uma conduta nômade, seu território, atualmente, compreende desde o Baixo Purus, no estado do Amazonas, chegando até Rondônia. O mapa abaixo, extraído de Facundes (2000, p. 5), mostra a localização de algumas comunidades apurinã.

Figura 01: Localização dos Apurinã

Fonte: FACUNDES, 2000, p. 5

1. Area Km 124 (BR 317, Rio Branco, AC), 2. Area Km 45 (BR 317, Boca do Acre, AM), 3. Areas Camicuã and Monte Verde (Purus River, Boca do

82 on the Água Preta stream, Pauini, AM), 6. Area Mipiri and Inhari (including Mipiri on the Purus River, and Inhari on the Inhari River, Pauini, AM), 7.

Area Guajahã (Purus River, Pauini, AM), 8. Area Catipari (Cacuri and S. Jerônimo both on the Cacuri and Catipari lakes, Pauini, AM), 9. Area Mamoriá (Mamoriá River, Pauini, AM), 10. Area Seruini (Including Bom Jesus, Marienê, and Mixiri, on the Seruini River, Pauini, AM), 11. Area Tumiã (Tumiã River, Lábrea, AM), 12. Area Marahã (Marahã Lake, Lábrea, AM), 13. Area Japiim (Paciá River, Lábrea, AM), 14. Area Tawamirim

(Ipixuna River, Tawamirim AM), 15. Area Jatuarana (Manacapuru River, Manacapuru, Amazonas)

Pelo fato dos Apurinã serem um povo muito espalhado, são bastante imprecisas as estimativas que existem quanto ao número de indivíduos que, atualmente, formam esta etnia. Facundes (2000) afirma que há mais de dois mil índios apurinã, mas não precisa ao certo. Já, segundo os dados do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), até 2002, havia cerca de um mil seiscentos e cinquenta indivíduos apurinã. Já a Fundação Nacional de Saúde estima que, até 2003, existiam aproximadamente quatro mil e cinquenta e sete apurinã.

O contato do povo apurinã com os não índios, de acordo com Kroemer (1985 apud SCHIEL, 2004), iniciou-se nos anos de 1870, por ocasião da extração das chamadas drogas do sertão, como o cacau, a copaíba, a borracha, entre outras, que eram extremamente abundantes na região amazônica.

Chandless (1867 apud FACUNDES, 2000), foi o primeiro a registrar em forma impressa informações sobre esse povo. Em suas asserções, ele diz que os “Hypurinãs” eram afeiçoados à guerra, e viviam em constantes embates com outros povos e até mesmo entre as suas próprias tribos. Essa característica de povos guerreiros e que lutavam entre si é apontada como uma das principais causas para a diáspora deles, já que lutavam até a morte do último membro de um dos lados envolvidos na batalha, e a única forma de evitar o extermínio total era através da fuga.

O povo apurinã possui uma organização social que se divide em dois grupos. Segundo Schiel (2004), existem os Xiwapurynyry e os Meetymanety. A principal distinção destes dois grupos tem a ver com os hábitos alimentares apenas, pois estes grupos podem conviver num mesmo espaço geográfico. Por exemplo, os Meetymanety não comem um determinado tipo de

83 porquinho do mato, enquanto os Xiwapurynyry são proibidos de comer nambu, um tipo de ave. Portanto, essas proibições constituem tabus culturais.

Todos os membros de um grupo são considerados irmãos e por isso só podem se casar com pessoas de grupos diferentes. O pertencimento de um indivíduo a um determinado grupo é determinado pela linhagem paterna.

Para os Apurinã, de acordo com os estudos de Kroemer (1985), o Tsurá é o deus criador de todas as coisas existentes. Na visão cosmológica apurinã, a criação do mundo, inicia-se com a figura de Maiuryperu, cuja imagem é de uma mulher velha e monstruosa que enviou fogo para matar todos os índios. Quando o fogo cessava, ela comia os ossos dos que eram maus, pois eram moles, e enterrava os ossos dos bons, de onde se originaram a batata e a mandioca. Desse fogo escaparam duas mulheres que subiram em arvores, mas apenas uma sobreviveu, Iakuneru. Esta foi engravida de pelo mexikana (espécie de canudo feito da perna de um pássaro e usado para aspirar o rapé, uma mistura de ervas trituradas preparada pelos índios) do pajé, que assumia a forma humana durante a noite. Iakuneru foge para a casa de seus parentes, mas acaba se perdendo e vai parar na aldeia dos Katsamãũtero, onde as mulheres a escondem, contudo os homens acabam descobrindo e a matam. Tiram, porém, de seu ventre a bolsa fetal, que é atirada para a floresta. De lá nascem quatro crianças: Ypurũky, Ixirũky, Arutã e Tsurá, este último embora mais fraco, era dotado de grande inteligência e muito engenhoso. Depois de adultos, os meninos voltam e vingam a morte da mãe, matando todos os seus assassinos. No fim dessa batalha, apenas Tsurá sobrevive e na fuga acaba encontrando sua tribo de origem. Lá é proclamado chefe e conquista com seus guerreiros muitas vitórias. Após sua morte, seu corpo é arrebatado para as nuvens e desde então, ele é considerado o herói do povo apurinã. De acordo com Kroemer (Idem: 120)

Por causa desses mitos suspeita-se de que o registro do mesmo só possa ter sido feito em regiões assoladas por incêndios de savanas, e nunca em regiões

84 inteiramente cobertas por floresta virgem, densa e úmida, onde atualmente se repetem enormes inundações, como no Purus. Este fato leva a conclusões de que os Apurinã receberam ou trouxeram o seu mito de regiões distantes, situadas em zonas de campos, ou do sudeste da Guiana ou das savanas da Bolívia oriental.

Na próxima seção serão apresentadas informações sobre a língua apurinã relacionadas à fonologia e à escrita dessa língua.