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4.3 Særskilte tema
Propusemos-nos neste trabalho a compreender as diferentes formas de representação dada à mulher nas páginas de revistas e jornais de Minas Gerais num contexto de profundas transformações políticas, econômicas e sociais. Entendemos que a imprensa é uma fonte muito rica para o entendimento das relações sociais e da mentalidade de uma época, uma vez que ela apresenta um espaço de representação de aspectos particulares de realidade. No contexto aqui analisado a imprensa por meio de representações femininas apresentadas como adequadas ou não para o convívio social refletia as normas e valores morais e sociais dominantes na vida cotidiana das elites mineiras, especial das mulheres.
Apreender as representações da mulher mineira na imprensa significa compreender as relações de gênero que se faziam presentes na sociedade e a sua importância no convívio social dos membros da elite. No contexto analisado neste trabalho, as relações de gênero associavam-se diretamente à relação de dominação do homem sobre a mulher. Amparado nas teorias científicas e sociológicas que buscavam legitimar a condição de inferioridade feminina, atribuiu-se a ela determinadas características consideradas como naturalmente intrínsecas a sua condição física e mental, determinando a sua condição social. Ou seja, a mulher era considerada biologicamente inferior ao homem e esta condição natural de inferioridade era automaticamente repassada ao contexto social.
Eram vistas como qualidades intrínsecas à mulher: a fraqueza, a sensibilidade, a doçura, a indulgência, o recato, a submissão. Esta imagem destacava a sua fragilidade física da qual derivavam a sua delicadeza e debilidade moral. A
natureza inferior da mulher justificava-se pelo predomínio das faculdades afetivas o que a impedia de realizar atividades intelectuais. Por ser considerada intelectualmente incapaz, foi negado ao sexo feminino o acesso à instrução. Para as meninas bastava o conhecimento das atividades domésticas, uma vez que o espaço do lar era o único ambiente permitido a elas. As escolas eram lugar reservado apenas aos homens, pois a eles era dada a responsabilidade de conduzir e desenvolver a sociedade. As poucas mulheres que tiveram acesso à educação pertenciam à elite e só o fizeram de forma limitada, em ambientes religiosos ou dentro de suas próprias casas.
Somente em finais do século XIX no Brasil, as atenções voltaram-se para a necessidade de se instruir as mulheres. Apoiado nas proposições positivistas e em autores como Tito Lívio de Castro223, os argumentos em favor da necessidade de instruir as mulheres ganharam espaço entre os intelectuais, no governo e na imprensa. Em relação à última, destacamos a importância do jornal O Sexo Feminino, publicação feminista, editado por uma professora que defendeu abertamente a necessidade de se instruir a mulher. Neste periódico, a inferioridade atribuída à mulher era considerada conseqüência de seu estado de ignorância por não ter acesso à instrução como os homens. Ela era representada como um ser dotado de habilidades intelectuais iguais às do homem e com condições de desempenhar diversas funções além das realizadas no espaço doméstico. Os papéis de esposa e mãe mantiveram-se como primordiais, mas não poderiam ser vistos como empecilhos para a emancipação intelectual e sim como incentivadores, pois a mulher era responsável por educar os filhos. A designação de primeira educadora das crianças na esfera do lar incentivou os defensores da emancipação intelectual da mulher a defenderem que ela freqüentasse as Escolas
Normais e se tornasse professora. Fato este que proporcionou uma conquista para as mulheres, pois o ofício de professor nas séries iniciais de aprendizado ficou aos poucos unicamente a cargo delas. Com isto, elas conquistaram um meio de trabalho e de maior acesso ao espaço público o que foi fundamental para uma maior conscientização das mulheres quanto à sua condição social e à necessidade de reestruturá-la.
Nos primeiros anos do século XX, a mulher ganha cada vez mais espaço na esfera pública. O aumento do nível de instrução do sexo feminino, associado às modificações em áreas diversas de toda sociedade, decorrentes da onda de modernização que ocorria nas principais cidades brasileiras, afetou diretamente os costumes, o cotidiano, o comportamento das mulheres. A constante presença das mulheres no espaço público provocou mudanças no seu modo de agir de pensar. Nas primeiras décadas do século XX, influenciadas pelas tendências internacionais, as mulheres transformaram sua forma de se vestir e de se comportar em público. Diminuíram o comprimento das saias e vestidos, as longas madeixas foram substituídas pelos cortes à la garçonne. Freqüentavam clubes de dança, teatro e cinema, adquiriam diplomas universitários e trabalhavam. Tudo isso gerou um descontentamento entre os setores mais conservadores da sociedade que utilizaram a imprensa para mostrar a sua indignação.
Defensores do discurso predominante que exaltava como verdadeiras qualidades femininas àquelas vinculadas ao recolhimento e à fragilidade, viram estas mudanças como uma ameaça para as estruturas familiares e sociais e levaram para as páginas dos jornais e revistas o que seria a mulher ideal para a sociedade mineira. Ela deveria ser bela, amável, recatada; precisava ser habilidosa com as práticas
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domésticas e educada o necessário para ser uma boa esposa e criar bem os filhos e não demonstrar interesses por assuntos políticos. Porém, as constantes críticas ao afastamento das mulheres deste tipo ideal, revelaram-nos que algumas não mais aceitavam esta imagem e reivindicavam por mudanças. As representações da mulher na imprensa geralmente não faziam referência à mulher que se via, mas àquela que se queria ver.
As críticas relacionadas com o novo modo de agir e de pensar das mulheres aumentavam ainda mais quando as idéias feministas e sufragistas se espalharam entre as mulheres de elite e atingiram a imprensa. A organização das mulheres em torno do movimento sufragista foi considerada pelos mais conservadores como uma depravação dos costumes e da sociedade. Na tentativa de impedir os avanços das propostas sufragistas, muitos procuraram associar a imagem da mulher feminista a estereótipos masculinos. A mulher era acusada de renegar a sua feminilidade, sua função de esposa e de mãe ao requerer direitos concedidos apenas aos homens, como por exemplo, o exercício de profissões de maior status como o direito e a medicina e o direito ao voto. Mas, mesmo diante de forte oposição, as brasileiras, em particular as mineiras, organizaram-se em torno do movimento sufragista e reivindicaram por direitos até então negados a elas.
Antes mesmo de Bertha Lutz propor a realização de uma campanha organizada, muitas mulheres mineiras lutaram sozinhas pelo voto, mas nada conseguiram. Cada vez mais conscientes da sua importância na sociedade, algumas mulheres fundaram jornais para neles reivindicar a emancipação do sexo feminino. O jornal Voz Feminina nos primeiros anos do século XX era uma publicação que se dedicava a esse propósito e apesar da pequena duração, tornou-se uma evidência do
desejo das mineiras de participar mais ativamente da espera pública. A publicação e a circulação de periódicos feministas por todo o estado permitiu que as reivindicações femininas ganhassem o apoio de mulheres em diversas cidades do Estado e se fortalecessem ao longo dos anos.
Destacamos a atuação de Elvira Komel enquanto líder do movimento sufragista mineiro e a realização do I Congresso Feminista Mineiro que, devido à ampla cobertura da imprensa, permitiu-nos analisar como a mulher feminista foi representada pelos periódicos mineiros. A feminista mineira era uma mulher que defendia os valores familiares acima de qualquer questão; considerava o casamento e a maternidade como essenciais e reivindicava por direitos que não interferissem nesta condição. As mesmas questões que os opositores do sufrágio feminino utilizavam para impedir o seu estabelecimento eram vistas por estas feministas como incentivo. Para elas, quando mais a mulher fosse instruída e ativa na vida pública do país, mais ela poderia contribuir para a estruturação da família e da sociedade.
A mineira Maria Lacerda de Moura que teve uma breve passagem pelo movimento sufragista, era uma exceção neste quadro. Para ela, para ser emancipada por completo a mulher deveria se libertar das amarras morais, intelectuais e sexuais impostas pela Igreja, pelo Estado e pela sociedade. E isto significava uma mudança ampla nas estruturas sociais que vigoravam havia séculos e que nem mesmo as outras feministas admitiam modificar. Por isso, suas propostas foram consideradas radicais e inadequadas e não receberam tanto destaque na imprensa.
Numa sociedade que se orgulhava de ser chamada de tradicionalista e conservadora, algumas mulheres sentiram a necessidade de romper com certos valores e normas que as impediam de participar da vida pública, e mesmo sem propor uma
revolução das práticas e costumes, reivindicaram para si uma participação mais atuante na sociedade. As conquistas femininas nesse primeiro momento foram fundamentais para a ampliação dos horizontes femininos. A partir do momento em que as mulheres conquistam o direito à instrução em todos os níveis, de exercer diversas profissões até então vedadas e o direito à participação política pelo voto, por exemplo, elas aumentaram sua atuação na esfera pública ganhando maior visibilidade perante a opinião pública.
Esta primeira onda feminista no Brasil não rompeu com as representações e práticas que legitimavam a divisão social entre os gêneros, uma vez que não questionou as conseqüências de se impor à mulher a responsabilidade total pelas atribuições domésticas e maternais. A maior participação na esfera pública não provocou numa reformulação no domínio das obrigações familiares. Grande parte das mulheres continuou a ter sua vida limitada ao espaço doméstico, longe das instituições escolares e das bancadas políticas. O ambiente doméstico continuou como o mais conveniente à mulher o que gerou segundo SOIHET, “uma mulher dividida, culpada, quando obrigada a trabalhar fora do lar, considerando sua atividade profissional como algo secundário em relação à atividade principal de esposa e mãe, dando lugar à discriminação salarial, profissional e sindical224”. Somente a partir da década de 1960 é que estas questões seriam retomadas e uma nova onda feminista invadiria o país, reivindicando o fim desses paradigmas sobre a inferioridade feminina.
224 SOIHET, Rachel.VIOLÊNCIA SIMBÓLICA: Saberes masculinos e representações femininas. In: Revista Estudos Feministas. Vol 5 n. 1/97: IFCS/UFRJ, 1997.p.26