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O tratamento de Rosa foi realizado dentro do serviço público de saúde mental, propriamente, num Centro de Atenção Psicossocial – CAPS II. Nesta instituição, situada na cidade de Ijuí, no interior do Rio Grande do Sul, são recebidos pacientes em sofrimento psíquico em estado grave, com “transtornos mentais severos”, conforme denominação do Ministério da Saúde. Os tratamentos são realizados por uma equipe multiprofissional: psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, técnicos de nível médio e oficineiros.

Nessa instituição, onde trabalhei por doze anos, recebi Rosa. Seu tratamento comigo durou aproximadamente três anos, com sessões semanais, sendo atendida também pelas áreas da psiquiatria e da enfermagem. Trata-se do caso de uma mulher com a ocorrência de uma loucura passional. Por mais de trinta anos, o eixo de sua vida centrou-se na sua “grande história de amor”, que foi da convicção de que amava Alfredo à certeza delirante de que ele a amava, tal como se pode acompanhar na trajetória da construção clínica.

No decorrer deste trabalho, manteve-se, em alguns momentos, a denominação de “história de amor”, pois assim Rosa a ela se refere; entretanto, nas considerações e tentativas

de elaborar conceitualmente esse fenômeno clínico, indica-se esta história numa dimensão da paixão, ou, mais propriamente, de uma loucura no plano da paixão amorosa, de uma loucura passional. O termo loucura se refere à incidência de um estado de enlouquecimento, de desmesura pulsional, podendo estar tanto no campo das neuroses como no das psicoses. Essas desmesuras da passionalidade contêm uma ideia delirante. Interessa, assim, verificar formações psíquicas que compõem um núcleo delirante passional desencadeante de tais enlouquecimentos.

Quando chegou ao tratamento, Rosa estava aproximadamente com cinquenta anos. É a terceira filha de uma família de cinco irmãos. Ela veio de uma família de origem germânica, sua avó paterna veio da Alemanha. A paciente residia com uma irmã, que não casou e que não teve filhos. Por muito tempo, Rosa trabalhou como vendedora ambulante de roupas.

Rosa conheceu Alfredo quando tinha dezoito anos e, por mais de trinta anos, fora sua amante, tendo um filho com ele. Sua história é marcada pelo encontro com esse homem. Conheceu-o na sua cidade de origem: na época, ele era casado e pai de seis filhos. Ela acabará ocupando um cargo de empregada na empresa dele – uma loja de confecções de roupas - e, rapidamente, se torna amante daquele homem. Essa relação é reprovada, como Rosa diz: “amaldiçoada”, por sua mãe.

Entre encontros e separações, Rosa acreditou que Alfredo a amava incondicionalmente, mesmo que ele a tivesse abandonado em diversas situações de vida. Entre elas, em um momento delicado: durante sua gravidez; outra situação ocorreu na última vez em que foram morar juntos: ele a mandou embora. Naquele momento, ela retornou à sua cidade, começando a apresentar os primeiros desencadeamentos de crises delirantes.

Diante daquele abandono, Rosa, não tendo suporte para tal perda, produziu crises delirantes, que foram desde alucinações a delírios persecutórios. Juntamente com aquele acontecimento, ocorreram outros processos de rupturas: parou de trabalhar como vendedora ambulante e muitos clientes começaram a não efetuar o pagamento das mercadorias, assim, Rosa foi contraindo dívidas, tendo que se desfazer, inclusive, de seu carro. Seu filho foi embora para estudar em outra cidade. Também, uma irmã, que era “como uma mãe” para ela, em fase terminal de câncer, faleceu. Rosa cuidou dela até a morte e, não aceitando o fato, se dirigia todos os dias ao cemitério, tentando desenterrá-la, passando a usar a identidade da irmã falecida. Em estado de enlouquecimento, Rosa foi internada pela primeira vez, e iniciaram seus tratamentos.

Após essa introdução, situa-se que a história clínica de Rosa apresenta-se em três momentos do tratamento. Inicialmente, aquele que será denominado como O despertar de

uma amnésia passional, referente a fatos relatados por Rosa que retornam após um tempo de esquecimento (ou apagamento) de sua história com Alfredo. Nesse momento, destacaremos a forma como Rosa se apresenta: numa certeza absoluta de saber o que é o amor, enquanto se dirige às pessoas, entre elas, eu, como aquelas que “não sabem o que é o amor”.

O segundo tempo do tratamento é aquele em que Rosa apresenta desencadeamentos delirantes e alucinatórios, ocorridos após o retorno das lembranças. Esse estado de enlouquecimento também se produziu após uma visita de Alfredo, que, há muito tempo, Rosa não avistava. Após esse encontro, diante da espera de um retorno de Alfredo, ela construiu delírios e alucinações. Entretanto, foi através da vivência e saída daquelas crises delirantes que lhe foi possível o início de construções narrativas acerca de sua história passional. Entre essas narrativas, destacam-se duas situações reportadas por Rosa: quando ganha uma boneca de seu pai e, outra, quando conta sobre a forma como “se apaixonou por Alfredo” – as quais se denominam Cenas originárias da paixão.

O estágio do final do tratamento, que compôs o terceiro tempo da história clínica, foi demarcado, precisamente, pelo encontro da paciente com obras literárias, em especial, com o romance, O tempo e o vento, de Érico Veríssimo. Nesse momento, pôde-se supor que ela experienciou uma forma de autoria de sua história, assim como, aqueles enredos serviram como exercícios de uma posição sexual no feminino, ou seja, formas de inscrições, mesmo que suplementares, de significantes que denotam a diferença sexual.

Assinalam-se pelo menos três perspectivas pelas quais transcorreu esse encontro de Rosa com a literatura: primeiro, através da identificação com as personagens femininas – ela concebe aquelas mulheres como “fortes e corajosas, que vivem grandes histórias de amor”; segundo, ocorreu uma transposição do que fora o prazer da escrita de sua história para o prazer da leitura; por fim, o fato de que Rosa encontrou, na estrutura das narrativas, vozes dissonantes polifônicas nas quais transitam a diferença sexual. Nessa experiência de leitora- autora daquelas vidas e vozes ficcionais de O tempo e o vento, aquela mulher enlouquecida foi encontrando um lugar de transposição e apaziguamento para sua desmesura passional.