Antes mesmo de Chris e Linda conseguirem estabelecer contato com Marte, o almirante Bill Carey, apresentado como o homem que decifrou os códigos japoneses durante a Segunda Guerra, é enviado de Washington para se interar sobre a pesquisa. Chris, estranhando a presença do almirante, diz já ter enviado seu relatório a Washington. A partir disso, percebemos que sua pesquisa tem ligações com o governo. Nesse sentido, Ron Theodore Robin, que estudou os investimentos de organizações militares em pesquisas comportamentais durante a Guerra da Coréia, destaca que “no mundo emergente da academia no pós-Segunda Guerra Mundial, acadêmicos frequentemente vagaram entre as alamedas tradicionais da academia e as pesquisas financiadas por corporações civis e militares.”68 Robin cita ainda o setor de defesa como sendo, juntamente com a fundação
Carnegie, a principal fonte de investimento em ciência no pós-Segunda Guerra.69 O exército tinha dois institutos principais de investigação científica que associaram-se a universidades, o Human Relations Research Office, associado à Universidade George Washington, e o Operations Research Office, associada a Johns Hopkins University. Além de novos acordos feitos com fundações civis, Robin observa o surgimento de novas organizações de pesquisa ligadas às forças armadas. Entre elas o Office of Naval Research, em 1946, onde as pesquisas teriam sido rigidamente controladas pelos oficiais da Marinha estadunidense.70
Em sua visita o almirante já demonstra preocupação sobre as consequências do contato, inclusive questionando como a descoberta de utilizações energéticas de grande eficiência afetariam os trabalhadores de minas de carvão.71 Depois dos problemas causados pelas primeiras mensagens, veremos o laboratório de Chris tomado por oficiais.72 Na cena seguinte, após uma tomada da frente do prédio do pentágono, somos levado à sala do Secretário da Defesa, Sr. Sparks. Um dos generais presentes na sala diz que haviam aconselhado cautela na divulgaçãoo das mensagens, mas o Secretário lembra que o presidente os desautorizou. Quando o almirante Carey chega, o Secretário da Defesa o
68 “In the burgeoning world of post–World War II academia, scholars frequently wandered between the
traditional groves of academe and military-funded civilian research corporations.” ROBIN, Ron Theodore - The making of the Cold War enemy: culture and politics in the military-intellectual complex. Princeton University Press, 2001. p. 38.
69 Ibid. p. 20. 70 Ibid. pp. 50-54.
71 Red Planet Mars, 27m 10s. 72 Ibid., 40m 10s.
ordena que feche a central de decodificação das mensagens na Califórnia, transferindo-a para o prédio do Pentágono e ressalta que mais nenhuma mensagem deve chegar à imprensa. O Secretário, então, coloca a difícil situação da economia do país, dizendo que sua civilização está desmoronando, e que todo o ocidente está indo junto. Ressalta ainda que Chris fez mais para destruir o mundo democrático em poucas semanas que os russos em nove anos.73 Pouco depois, na Casa Branca, o Secretário da Defesa está reunido com o presidente dos Estados Unidos e um general. O Secretário defende que diante do risco de que os soviéticos em pouco tempo possam tomar o ocidente, frente ao agravamento da situação econômica do país, o melhor a fazer é uma guerra para destruir de uma vez cada centro nevrálgico do poder soviético. O general também concorda com a posição do Secretário. Mas o Presidente afirma que não passará por cima de dezoito séculos de história do país decretando uma guerra.
O filme ressalta a capacidade de justiça e a lealdade aos princípios democráticos por parte do presidente dos Estados Unidos, fazendo com que sua determinação de que Chris desligue seu transmissor apareça como a melhor opção diante da situação nacional. Sua posterior decisão de divulgar as mensagens religiosas também só pode estar correta. Essa intervenção do presidente acabou por mostrar-se fundamental, diante da recusa de Chris em divulgar a mensagem religiosa. Assim, o filme cria uma situação em que, no cenário da Guerra Fria, com a força da ameaça soviética, a intervenção e controle do Estado sobre as pesquisas científicas faz-se primordial para a manutenção da segurança, não apenas do país, mas de toda a civilização ocidental. Essa construção vai ao encontro do cenário que, segundo Rogin, é apresentado por historiadores com relação às fundações de pesquisa no pós-Segunda Guerra. Segundo esses historiadores, interesses políticos muito bem delineados amparavam o apoio das fundações de pesquisa. Grandes fundações teriam, assim, deliberadamente barrado questões controversas de sua agenda de pesquisas sociais. Nesse período, as fundações e organizações de pesquisa raramente apoiaram pesquisas que fizessem críticas significativas à realidade social, econômica e política, endossando uma posição de neutralidade política e a cientifização das questões humanas como artifício para a aceitação do status quo. Nesse cenário, novos métodos de pesquisa apoiados pelas fundações, evitavam questões problemáticas sobre o poder instituido ou o mal-estar social, sendo, em essência, ratificações intelectuais para teorias sociais conservadoras.74 Tendo
73 Ibid., 40m 55s – 42m 37s.
como exemplo as pesquisas comportamentais durante a Guerra da Coréia, estudadas por Robin, que fariam parte dos novos métodos de pesquisa apoiados pelas fundações no pós- Segunda Guerra, podemos destacar a observação do autor sobre o uso político muito significativo que tais pesquisas tinham dentro das políticas de Guerra Fria. Segundo ele, os “soldados acadêmicos” estadunidenses tinham conhecimento sobre as estratégias alternativas para compreender o mundo. Seus métodos se constituiam em colapsar as distinções entre o familiar e o estranho, limitar a análise histórica, e por meio da sobreposição de estratégias derivadas dos Estados Unidos sobre culturas estrangeiras, conceitualizar paisagens distantes e incoerentes de uma forma que as fizessem suscetíveis a um confortável estilo familiar de gestão de crises. Dessa maneira suas teorias não foram simples instrumentos para um mapeamento metódico de culturas desconhecidas, foram também “estratégias ativas para impor a ordem, legitimando uma visão de mundo Americana, sobre uma terra cultural e polticamente incógnita”.75 Essa percepção parece ir
ao encontro das conclusões do sociólogo Alvin Gouldner, também apresentados por Robin, de que essas organizações apoiaram uma cultura acadêmica comprometida em “fazer com que as coisas funcionem, apesar das guerras, desigualdades, escassez e trabalho degradante, em vez de encontrar uma saída.”76 Com isso, ao evitarem qualquer
questionamento significativo dos arranjos sociais e políticos existentes no Estados Unidos, as fundações e organizações de pesquisa foram apenas concessoras de uma bênção científica ao status quo.77
Esse posicionamento das fundações e a aceitação dos intelectuais dessa nova configuração das pesquisas estavam certamente ligados com o ambiente de repressão trazido pelo período macarthista. Há que se lembrar que os professores universitários foram grandes alvos da repressão macarthista. Nas universidades, centenas de professores perderam seus empregos. Mesmo aqueles que chamados a audiências do HUAC, fizeram o uso da Quinta Emenda, que garantia às testemunhas o direito de permanecerem caladas, e não tiveram, portanto, sua ligação com o comunismo provada, passaram a ser vistos como inaptos a ocupar cargos públicos e lecionar em escolas ou universidades.78 Assim, podemos perceber que essa intervenção e controle de organizações militares nas pesquisas
75 Ibid. p. 93.
76“making things work, despite wars, inequalities, scarcity, and degrading work, rather than finding a way
out”. Ibid. p. 34. Citando GOULDNER, Alvin - The Coming Crisis of Western Sociology. New York, 1971. pp.188–96.
77 Ibid. idem.
acadêmicas tinha ligação direta com as políticas de contenção ao comunismo. Diante disso,
Red Planet Mars apresenta uma situação que tende à legitimação desse tipo de ação
intervencionista do Estado sobre as pesquisas ciêntíficas, baseado nos perigos da Guerra Fria. O que, como percebemos a partir das observacões de Robin, tinha uma importância estratégica dentro do cenário social do pós-Guerra, na manutenção do statos quo e na perpetuação de políticas sociais conservadoras. Essa intervenção, em Red Planet Mars, não apenas garantiu a segurança dos Estados Unidos, como propiciou o surgimento de uma nova ordem mundial baseada na paz e nos preceitos cristãos.