2 Omtale av instituttene med rapport for bruk av grunnbevilgning
2.1 Institutter som omfattes av det resultatbaserte systemet for grunnfinansiering
2.1.3 Ruralis
Desde o início deste estudo foi dito que o Cabra é um filme composto de diversos fragmentos articulados. Esta variedade de fragmentos compõe um quadro complexo de inter-relações que torna possível formar um discurso que expõe num único objeto a noção da multiplicidade de elementos envolvidos. Alguns destes elementos já foram abordados, como a narração, os depoimentos, a trilha sonora e o processo de filmagem.
Outra parte fundamental na construção do Cabra é o material da primeira filmagem, em 1964. Em algumas passagens acima comentou-se a respeito deles, porém é importante ressaltar alguns pontos.
Ao observar as cenas realizadas por Coutinho entre fevereiro e março de 1964, é possível perceber uma diferença muito grande do estilo utilizado nas filmagens da década de 80. O Cabra de 1964 se enquadraria naquilo que é chamado de docudrama48, nos moldes ideológicos do CPC, realizado com precariedade de recursos. São diversos planos independentes que nem sempre se ligam entre si. A cena do aumento do foro é uma exceção, na qual pode-se verificar a realização de planos variados, desde plano geral que engloba a casa e todos os participantes, até primeiros planos do capataz e de um camponês, um contraplano dos camponeses vistos por esse capataz, e outros quatro planos conjunto que pontuam a ação em momentos estratégicos. É uma das poucas cenas que tem início, meio e fim.
48 Docudrama é um termo utilizado no meio cinematográfico para designar filmes feitos no formato ficcional, porém baseados numa história ou conjuntura real. Além disso, é comum perceber certo engajamento por parte do realizador.
A maioria dos planos tem baixa movimentação, talvez em virtude da inexperiência dos atores e do próprio diretor na época. Muitos destes planos parecem fotos que, em algum momento, tinham movimento. Eram cenas típicas daquele ambiente (como os homens trabalhando ou Elizabeth servindo seu marido e companheiros). A falta de som dificulta a compreensão da funcionalidade dramática e praticamente transforma as cenas em imagens de arquivo.
Uma das funções mais freqüentes para os planos do Cabra 64 foi a de colocar imagens dos entrevistados na época daquela filmagem em contraposição com a da época das entrevistas, em 1981. Isso ocorre com Elizabeth, Zé Daniel, João Mariano, Cícero e outros. Outras cenas que aparecem são de membros da equipe no momento de calibração do equipamento e claquete. Quando Duda menciona que o livro que tinha guardado era de Fernando Duarte, Coutinho informa que ele era o diretor de fotografia e coloca uma imagem correspondente dele com uma cartela de gradação P&B.
Porém, o que deve ser ressaltado quanto aos planos do Cabra 64 é a sua dupla função na obra final. Na montagem, temos a inserção de partes dele, complementando informações e ilustrando outras. Mas é durante a filmagem que se encontra seu principal papel, quando é exibido para os camponeses e para Elizabeth, resgatando nas suas memórias esse tempo perdido. O Cabra de 1964, como dito antes, é um catalisador de todo o filme, com o qual Coutinho provoca uma reação em cada uma daquelas pessoas. Além disso, há um diálogo que o próprio cineasta cria entre o ato da exibição e sua montagem. Enquanto, num plano, mostra os espectadores, o projetor e a tela com a imagem projetada,
no plano seguinte coloca aquela mesma cena do Cabra 64 em tela cheia, criando um diálogo entre esses tempos distintos.
3.3.4.1. Fotos, reportagens, manchetes e imagens de arquivo
Para completar a série de fragmentos que compõe a estrutura de “Cabra Marcado Para Morrer”, temos mais quatro elementos.
As imagens de arquivo servem principalmente para contextualizar a época e os acontecimentos. A UNE Volante, o primeiro encontro com Elizabeth, as feiras populares e os comícios são mostrados na tela sempre em concordância, articulados com os outros fragmentos do filme e com a narração.
O mesmo ocorre com as manchetes e reportagens de jornais, que qualificam o que é dito pelos narradores e pelos entrevistados. São vários recortes de jornais que aparecem na tela, com fundo preto, complementando as informações. De acordo com a situação, o cineasta filmou estas imagens de formas variadas, podendo ser colocada apenas a manchete a passar pela tela, o trecho de uma reportagem destacado do resto, ou a notícia inteira.
Assim, quando Elizabeth menciona que a filha mais velha se suicidou, entra uma notícia confirmando isso. Quando Duda fala que os militares procuravam João Virgínio, vemos uma notícia a respeito de sua prisão. Sobre a imagem desta notícia, inicia em over o depoimento de João Virgínio a respeito de sua prisão. Quando Elizabeth menciona que João Pedro dizia estarem ameaçados, vemos uma manchete que noticiava isso também.
Quanto às reportagens de jornal, a cena mais importante é aquela a respeito da apreensão do material, na qual Coutinho mescla a narração de Tite de Lemos (que lê a notícia), com imagens da chamada de capa do Diário do Pernambuco, da matéria propriamente dita, da capa do jornal com a foto do material de filmagem, além das cenas do Cabra 64 que são utilizadas para contrapor aquilo que é dito.
As fotografias têm uma função muito similar às cenas do Cabra 64. Coutinho leva as fotografias de cena que foram salvas da apreensão por parte do Exército e mostra para os camponeses em 1981. No primeiro encontro com Elizabeth, são as primeiras coisas que são mostradas. Essas mesmas fotos também são levadas para o Rio de Janeiro para os filhos verem. Assim, pode-se dizer que as fotos também são catalisadoras dos depoimentos e das memórias do filme.
Outras fotos têm importância na recuperação das imagens das pessoas do filme. Isso pode ser destacado no terceiro bloco, quando Coutinho vai atrás dos filhos de Elizabeth. Torna-se padrão na montagem, quando vai abordar a história de algum dos filhos, mostrar a imagem dele quando criança numa foto junto à mãe. Esse recurso de linguagem é realizado pelo diretor na filmagem em table top da foto, na qual ele utiliza duas opções: a) iniciar com o destaque da imagem da criança e realizar um zoom out, que revelará a foto completa, com a mãe e os irmãos ou, b) iniciar com a foto completa da família e realizar um zoom in apenas na criança. As fotos utilizadas são muito parecidas, mas não é a mesma em todos os momentos.
Por outro lado, é mencionado pelo narrador que não há foto disponível de João Pedro vivo para colocar no filme. As únicas fotos que sobraram foram as de seu corpo no necrotério. A foto frontal de seu corpo, com os olhos arregalados, é usada em diversos momentos do filme.