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Rubbish and pollutants – a new challenge

In document The Arctic (sider 27-30)

Em Dos meios às mediações, Jesús Martín-Barbero (2009) expõe que um gênero é uma estratégia de comunicabilidade. Não é algo que ocorre no texto, mas pelo texto. A perspectiva do autor pretende ir além da noção literária de gênero, que o vê como propriedade de um texto, além de se contrapor a uma “redução taxinômica, empreendida pelo estruturalismo” (MARTÍN- BARBERO, 2009, p. 303).

O gênero, no ponto de vista do autor, é a chave para a análise dos textos massivos. Mas para tanto, é necessário que deixe de ser considerado como puramente literário e que não seja mais reduzido a uma receita de fabricação ou etiqueta de classificação. Os gêneros não podem ser estudados, propõe, sem que se leve em conta a redefinição da concepção de comunicação. O autor se refere a uma mudança na perspectiva dos estudos de comunicação, da qual fez parte de certa maneira, no sentido de abandonar uma visão mecânica, transmissiva, para um modo de se enxergar a comunicação como um processo em que tanto a produção quanto a recepção envolvem produção de sentido. Ele diz sobre esse aspecto: “[...] a competência textual, narrativa, não se acha apenas presente, não é unicamente condição da emissão, mas também da recepção” (MARTÍN-BARBERO, 2009, p. 304).

Em outra oportunidade, Martín-Barbero (1995) observou que o gênero não é só uma estratégia de produção. É tanto, ou mais, diz ele, uma estratégia de leitura. A compreensão, nesse sentido, estaria condicionada pela identificação do gênero ao qual o produto está relacionado. Os gêneros não são só narrativas, mas são também lugar de cruzamento de transformações culturais com movimentos sociais e políticos. “O gênero é um estratagema de comunicação, completamente enraizado nas diferentes culturas, por isso, geralmente, não podemos entender o sentido dos gêneros senão em termos de sua relação com as transformações culturais na história e com os movimentos sociais” (MARTÍN-BARBERO, 1995, p. 65).

Os estudos sobre a história social e cultural dos gêneros é, de acordo com Martín- Barbero, uma das quatro chaves do que chama de trama conceitual da investigação da recepção na América Latina28. O autor segue, segundo ele mesmo afirma, a proposição de Paolo Fabbri, de que o gênero é uma unidade de análise própria da cultura de massa. Dentro do mapa das mediações, propõe Martín-Barbero, o gênero é chave para a compreensão de como as matrizes culturais estão articuladas com os formatos industriais.

28 Segundo Martín-Barbero (1995), as outras três chaves conceituais são: os estudos da vida cotidiana; os estudos

Não é fato desconhecido que a proposta analítica de Martín-Barbero está relacionada à televisão. De qualquer forma, as considerações que ele faz a respeito do gênero podem ser estendidas a outros tipos de gênero, como é o caso do gênero musical. Se, para Martín-Barbero, a dinâmica cultural da televisão atua pelos seus gêneros, infere-se que o mesmo se aplica à música. Essa questão será discutida na segunda parte deste capítulo.

A definição do gênero não se dá, apenas, a partir de suas características formais e internas, mas precisa levar em conta aspectos externos que têm envolvimento com o texto. Discutindo as questões propostas, entretanto, Itânia Gomes (2011) observa que parece haver, em Martín-Barbero, uma hesitação entre tratar o gênero como uma categoria textual ou como uma categoria cultural. Ela afirma que o autor acaba por consolidar o gênero como categoria cultural, considerando que atravessa tanto as condições de produção quanto as condições de consumo (MARTÍN-BARBERO, 2004). Com essa argumentação, Martín-Barbero articula os quatro âmbitos que constituem sua proposta de análise das relações entre comunicação, cultura e política.

Na leitura que Gomes faz da perspectiva de Martín-Barbero, o gênero ocupa um lugar central no mapa das mediações, uma vez que é uma estratégia que articula tanto as lógicas de produção com as competências de consumo quanto as matrizes culturais e os formatos industriais. As consequências dessa centralidade são tanto teóricas quanto metodológicas, afirma a autora.

Compreender o gênero como uma categoria cultural e colocá-lo no centro do mapa das mediações tem a vantagem de permitir compreender os gêneros em sua relação com as transformações culturais, numa perspectiva histórica, e a enfrentar o desafio metodológico implicado na ambição de adotar uma visão global e complexa do processo comunicativo (GOMES, 2011, p. 127)

Em uma oportunidade anterior, ao propor um diálogo entre os estudos culturais e os estudos de linguagem, Gomes (2002) sugeriu que os gêneros fossem pensados como estratégias de interação. Para a autora, Stuart Hall, no texto que seria chave para os estudos de recepção – Encoding/Decoding, publicado em 1980 –, teria trazido para o âmbito dos estudos culturais a noção de que o processo comunicativo não estabelece unicamente uma relação de estímulo e resposta, mas de mensagens organizadas e consumidas por meio de códigos. Gomes lembra, contudo, que o caráter essencialmente estruturalista e a ênfase na noção de código implicam limites na contribuição dos estudos de linguagem. Decorre dessa ressalva a opção por um viés

dos estudos de linguagem menos engessado, baseado na apropriação que Umberto Eco teria feito da semiótica de matriz peirceana29.

A discussão a respeito dos gêneros seria o ponto de partida, nesse sentido. Está claro que Gomes (2002, p. 167) está mais preocupada em estabelecer uma relação entre a discussão sobre gênero com a questão dos gêneros televisivos. Por isso, ela observa que “[...] um gênero é um modo de situar a audiência televisiva (ou os leitores), em relação a um programa, em relação ao assunto nele tratado e em relação ao modo como o programa se destina ao seu público”. Na perspectiva dessa autora, o gênero é uma estratégia de interação.

Gomes lembra que os estudos culturais surgem como parte de uma iniciativa de recusa de uma concepção da audiência como passiva e indiferenciada e de uma noção de que os textos midiáticos são portadores de um sentido transparente. Sinteticamente, a autora interpreta o modo como Hall, no texto mencionado acima, opera a relação entre os estudos culturais e os estudos de linguagem nestes termos:

Hall, na pista de Eco e Barthes, mas sobretudo de Bakhtin, dirá, pois, que o processo de leitura não consiste numa atribuição simples e a-problemática de um significante a um significado através de um código. Primeiro, porque existe a polissemia das mensagens; depois, porque o processo de decodificação, tal como Eco também já supunha, é função do quadro de referência ou dispositivos de cognição que a audiência transporta (GOMES, 2002, p. 170).

A pista que Gomes deixa para relacionar essa perspectiva com a discussão sobre os gêneros é que, de acordo com ela, os gêneros permitem que o processo comunicativo seja entendido não a partir das mensagens, mas a partir da interação. Essa perspectiva ajuda a sustentar a argumentação de que a música pode ser entendida como um processo comunicativo, uma vez que, mais do que carregar uma determinada mensagem que segue num fluxo que vai do artista até o seu público, é um processo de interação entre a instância que produz a música – não se trata de uma única pessoa – e os consumidores, que dela se apropriam.

O gênero é uma noção chave nesse processo porque, conforme propõe Gomes, a atenção na questão dos gêneros é um reconhecimento de que o receptor orienta sua interação com o programa e com o meio de comunicação de acordo com as expectativas geradas pelo reconhecimento do gênero. O gênero, segundo tal ponto de vista, aciona a competência cultural dos receptores. O que muda em relação à proposta desta tese é que não se trata, aqui, de

29 As bases da semiótica contemporânea teriam sido desenvolvidas pelo filósofo estadunidense Charles Sanders

recepção, mas de consumo, adotando o que indica o circuito da cultura apresentado na introdução.

As marcas de gênero fundamentais, afirma Gomes (2006), são aquelas que se articulam ao modo de endereçamento. Na perspectiva dessa autora, o modo de endereçamento30 é o modo como um determinado programa televisivo, objeto sobre o qual ela se debruça, relaciona-se com a sua audiência. Esse relacionamento se dá, ela propõe, a partir da construção de um estilo que o identifica e o diferencia dos demais. O gênero televisivo, como já indicado, seria um modo de situar a audiência em relação a um programa, em relação a um assunto nele tratado e em relação ao modo como o programa se destina ao seu público. Está incluída nessa concepção de gênero uma preocupação com as condições de produção, com as condições de leitura e também com o texto. “O modo de endereçamento é um conceito que se refere a algo que está no texto – ou no programa, diríamos nós – e que age, de alguma forma, sobre seus espectadores imaginados ou reais” (GOMES, 2006, p. 108).

A noção de sentido compartilhado entre produtorese consumidores aparece mesmo em autores que não estão diretamente ligados à perspectiva dos estudos culturais. Na visão de Nicholas Abercrombie e Brian Longhurst (2007), um gênero se refere a um tipo de produto de mídia ou de obra de arte que é regido por regras implícitas compartilhadas pelos criadores do produto e a sua audiência. Para esses autores, cada gênero tem suas regras e convenções particulares que o distingue dos demais. Essas regras estão, em certa medida, ligadas ao conteúdo, mas também podem estar ligadas a convenções narrativas e ao estilo visual de um determinado produto. Os gêneros estabelecem, de acordo com esse ponto de vista, uma certa cumplicidade entre os produtores e a audiência.

Reitera-se, como um desdobramento dessa perspectiva, a abordagem da noção de gênero musical enquanto uma classificação que se constitui numa estratégia de endereçamento, ou dito de outra maneira, uma estratégia que articula produtores e consumidores em torno da música. As perspectivas apresentadas por Martín-Barbero (1995; 2004; 2009) e Gomes (2002, 2006 e 2011), discutidas acima, são relevantes para os interesses desta pesquisa tendo em vista que apontam para essa compreensão acerca da noção de gênero. Já a noção de Abercrombie e Lughurst (2007) reforça a existência de um vínculo entre quem produz e quem consome. Ou seja: são pontos de vista que indicam e reiteram que o gênero medeia as condições de produção

30 Gomes (2006) lembra que o conceito de modo de endereçamento surgiu no contexto da análise fílmica e tem

sido adaptado para dar conta, conceitualmente, do modo como os programas televisivos constroem sua relação com os telespectadores.

e as competências de leitura. A articulação desse debate com o universo da música é desenvolvido na seção a seguir.

In document The Arctic (sider 27-30)