5.2 Konklusjon
6.1.5 Rt.2002 s. 1368
A história do Ambulatório da Ribeira começa com o projeto “Proposta de Reorganização da Atenção em Saúde Mental no Município de Natal” (1992). Desde este período, a SMS já propunha a criação de ambulatórios especializados em Saúde Mental, que naquele período eram denominados de Serviço de Referência em Saúde Mental.
“Os ambulatórios estão dentro de uma visão territorial e comunitária, dentro da forma pela qual a Secretaria de Saúde foi criada e a forma pela qual a Saúde Mental foi se inserindo nessa construção dessa atenção integral. Era fundamental naquele momento que nós visualizássemos um desenho, uma cartografia, geograficamente falando, territorialmente falando, do Distrito Sanitário. De que dentro daquele território tivesse as unidades básicas de saúde contornando e dentro do Distrito tivesse um serviço de referência em Saúde Mental. Que nós poderíamos estar chamando de ambulatório, mas, mais precisamente era essa a terminologia: serviço de referência em Saúde Mental” (Elizabete Freitas, psicóloga, supervisora institucional do Ambulatório da Ribeira)22.
O objetivo da SMS de Natal era criar uma rede de serviços que oferecesse suporte à demanda de Saúde Mental, em cada Distrito Sanitário (Norte, Sul, Leste e Oeste). Haveria as unidades básicas, os NAPS23 e os serviços de referência em Saúde Mental, isto é, os ambulatórios. Tais serviços de referência seriam implantados nas unidades que funcionavam com plantão 24 horas, como as localizadas nos bairros de Cidade Satélite, Rocas, Felipe Camarão e Cidade da Esperança. Previa-se que esta rede funcionasse da seguinte forma:
22 As falas dos sujeitos aqui citadas estão grafadas em itálico e entre aspas, de modo a configurar que são extratos das entrevistas feitas.
“Compatível com outras diretrizes e princípios que estavam sendo pensados e delineados na implantação da Reforma Psiquiátrica em Natal, nós sempre contemplamos a inserção, dentro do desenho da rede, do ambulatório. Que ele fosse um campo de continência intermediária entre os NAPS, naquela época, e a necessidade de internação psiquiátrica. Nesse sentido, nós começamos a visualizar em cada Distrito Sanitário de Natal, o desenho configurado, naquele momento, com, no mínimo, um NAPS, com as unidades básicas funcionando, com o trabalho de referência em Saúde Mental nas unidades básicas, lugares que eram referência no trabalho dos psicólogos. Além de todo o trabalho de articulação institucional e comunitário, mas que nós tivéssemos esses ambulatórios como referência por cada Distrito” (Elizabete Freitas, psicóloga, supervisora institucional do Ambulatório da Ribeira).
A proposta assistencial da SMS não se efetivou como era desejada; assim, os serviços de referência em Saúde Mental não foram criados. Posteriormente surgiu a idéia de instalação de um ambulatório de Saúde Mental, que funcionasse 24 horas e tivesse leitos de curta permanência. Uma das causas desta configuração foi a cobrança, por parte da área judicial, para a construção de um serviço substitutivo em Saúde Mental que dispusesse de leitos para internações breves. Entretanto, a SMS não dispunha de meios materiais e de recursos humanos que tornassem possíveis a construção de um serviço dessa natureza.
Nos ambulatórios especializados a equipe de Saúde Mental deverá desenvolver ações que contemplem os atendimentos individuais, de casal, da família, de terapia ocupacional, em grupo, terapia medicamentosa, visitas domiciliares, exames, dentre outros (Natal, 1992, p. 15).
“Nós vimos que a idéia inicial, criar um ambulatório, inserir dentro desse local próprio, que também funcionasse vinte e quatro horas, que ele pudesse ter alguns leitos de observação e de curta permanência, que pudesse ter atenção integral” (Elizabete Freitas,
psicóloga, supervisora institucional do Ambulatório da Ribeira).
“No setor jurídico, pela demanda, pela necessidade, pela aflição que eles vivem no dia-a-dia, eles queriam que nós tivéssemos, tanto ambulatório quanto leito, que déssemos conta daquela necessidade deles. Mas nós tínhamos que ver a nossa realidade, a realidade sanitária, a realidade dos recursos humanos e o que seria possível. Então as discussões duraram muito tempo, nós realmente fomos persistentes, discussões com a comunidade, com o conselho, com o secretário saúde (...)” (Elizabete Freitas, psicóloga, supervisora institucional do Ambulatório da Ribeira).
Paralela às discussões e planejamentos que objetivavam aliar os interesses para a construção desse ambulatório, foi realizada uma pesquisa epidemiológica no Distrito Sanitário Leste com o intuito de identificar os casos de doença mental na região e daí decidir qual o melhor local para a instalação do serviço.
“Foi feito um perfil, de quantas pessoas, seus estilos de vida, qual era a disfunção, quanto tempo ela tinha sido internada, onde, foi todo um levantamento (...). Nesse primeiro levantamento epidemiológico tem um desenho da necessidade: quem são? Qual o tipo de vida? Diversas instituições da Ribeira, Centro Clínico da Ribeira, o Pronto Socorro das Rocas (....) e nesse ínterim, nós começamos a fazer oficinas: O que é ambulatório? O que é Saúde Mental? O que significa sofrimento psíquico? O que significa trabalho em equipe? O que é cuidado? O que é loucura? O que é cidadania? O que é inclusão social? Existe cura? Existe alta?” (Elizabete Freitas, psicóloga, supervisora institucional do Ambulatório da Ribeira).
Como a intenção da Secretaria Municipal de Saúde de Natal ao implantar um ambulatório era, dentre outros fatores, instalar leitos 24 horas para o atendimento aos usuários em período de crise, o Centro Clínico das Rocas foi escolhido para sediá-lo,
visto que, neste local, funcionava um serviço de pronto-socorro e isso facilitaria a implantação dos leitos.
Assim, o Ambulatório de Saúde Mental iniciou suas atividades no ano de 2001, permanecendo durante cerca de cinco anos no Centro Clínico das Rocas e sendo transferido para o Centro Clínico da Ribeira em 2005, onde funciona atualmente.
O Ambulatório foi pensado como um serviço de referência em Saúde Mental para o Distrito Sanitário Leste, devendo atender aos usuários egressos dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e hospitais psiquiátricos. Os objetivos do Ambulatório abrangiam, também, o acolhimento dos sujeitos em situação de vulnerabilidade/crise, evitando internações ou re-internações psiquiátricas. As ações deveriam abranger consultas psiquiátricas, grupo terapêutico, grupo de familiares, oficinas terapêuticas e atividades de re-inserção social dos usuários.
“Então, assim, o Ambulatório foi criado para dar assistência, ser uma referência em Saúde Mental para o Distrito Leste. Então, teoricamente, a gente atenderia os casos mais graves do Distrito Leste, os pacientes egressos dos hospitais psiquiátricos, dos CAPS. E justamente assim, a gente tentando evitar uma primeira internação, acolher aquelas pessoas que estão numa situação mais perigosa, digamos assim, de maior conflito, e tentar evitar essa primeira internação, como também as re-internações. Porque a gente sabe a história de usuários que passam a vida inteira, que não conseguem sair desse ciclo vicioso do hospital, de internações, re-internações. Então a gente foi pensado pra atuar mais ou mesmo nesse sentido” (Cristiane Marcelino, psicóloga do Ambulatório).
Embora funcionando apenas como ambulatório, pois a proposta inicial dos leitos 24 horas não vingou, a dinâmica do serviço adquiriu características semelhantes aos CAPS, como, por exemplo, a realização de oficinas terapêuticas, grupo de familiares,
grupo terapêutico, ou seja, atividades que extrapolam as consultas psiquiátricas convencionais.
Devido à falta de recursos materiais, de profissionais que integrassem uma equipe e ao espaço físico inadequado, o processo de organização e estruturação do Ambulatório de Saúde Mental se desenvolveu lentamente. Objetivando compor uma equipe, a SMS nomeou duas profissionais, uma psicóloga e uma psiquiatra, mas, em razão da demora no início das atividades, a psiquiatra saiu do serviço. A solução encontrada foi convocar profissionais que já trabalhavam no Centro Clínico das Rocas para formar uma equipe, que foi composta por uma psicóloga, uma fisioterapeuta, uma psiquiatra e uma terapeuta ocupacional.
A carência de serviços de Saúde Mental e a elevada demanda por consultas psiquiátricas tornaram a procura pelo Ambulatório muito grande, sem que o mesmo tivesse capacidade de absorver a quantidade de usuários que buscavam atendimento. Um dos fatores para isso era o fato de que o serviço enfrentava dificuldades que comprometiam seu funcionamento, tais como: a equipe era pequena, a estrutura física era precária, faltavam materiais para as atividades, dentre outras.
A estrutura física do Ambulatório era imprópria para a realização das oficinas e grupos terapêuticos; as salas eram quentes, mal cuidadas, não dispunham de uma boa ventilação e apresentavam um mau cheiro que dificultava o cumprimento das atividades. Casas vizinhas ao Centro Clínico eram usadas por moradores de rua e acumulavam grande quantidade de sujeira, lixo, insetos e ratos, o que ocasionava mau cheiro e obrigava os profissionais a manterem as portas e janelas do serviço fechadas. Como não havia ventilação, também não era possível suportar o calor.
“Lá nas Rocas era um espaço físico completamente inadequado. Era um espaço fechado, mal cuidado, tinha um problema de mau cheiro horrível, dava náusea mesmo. Era insuportável atender nas salas fechadas” (Cristiane Marcelino, psicóloga do Ambulatório).
A mudança para a Policlínica da Ribeira foi bastante favorável para o funcionamento do Ambulatório, pois houve melhorias em relação à estrutura física, à possibilidade de ofertar novas atividades e atender mais usuários. É sobre isso que falaremos a seguir.