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de García Márquez

Nas obras de García Márquez, personagens como o coronel Aureliano Buendía derivam de uma necessidade do autor de trasladar para o espaço da literatura as experiências vivenciadas em família e também com amigos. O avô Nicolás Márquez e o general liberal Rafael Uribe Uribe69 condensam as características dos generais e coronéis que têm papel relevante em vários de seus livros, com destaque para sua representação em Cien años de soledad. “Don Nicolás y Uribe son el modelo de toda una genealogía en el mundo ficticio de García Márquez: los coroneles.” (VARGAS LLOSA, 1971, p. 23-24).70 Ou como explica o autor peruano em outra parte de seu estudo:

La gran figura histórica de la guerra de los mil días es Rafael Uribe Uribe, junto a quien combatió don Nicolás, y cuyo nombre y cuyas hazañas escuchó García Márquez mil veces en boca de su abuelo. El general Uribe Uribe es también modelo de los coroneles, y, por lo menos en un caso, de manera premeditada. Hasta Cien años de

soledad, Aureliano Buendía es un nombre y algunas anécdotas; sólo

en esa novela conocemos su cara y lo vemos de cerca. García Márquez describió físicamente a Aureliano Buendía utilizando como modelo los retratos del célebre caudillo liberal que murió asesinado a hachazos en las calles de Bogotá. (VARGAS LLOSA, 1971, p. 135).71

Em suas conversas com Plinio Apuleyo, García Márquez esclarece que, para a representação do coronel Aureliano Buendía, ele teria recorrido a características do general Uribe Uribe e não de seu avô, como muitos, inclusive o próprio Apuleyo, consideravam.

69“Uribe Uribe combatió en las guerras civiles de 1885, 1895 y 1899, de las cuales saldría derrotado. Su

papel como general estaría marcado por importantes victorias durante la Guerra de los Mil Días desde el punto de vista táctico, las cuales le dieron una reputación como el principal general liberal [...].”

Disponível em: http://es.wikipedia.org/wiki/Rafael_Uribe_Uribe. Acesso em: 11 de set. 2014. “Uribe

Uribe combateu nas guerras civis de 1885, 1895 e 1899, das quais sairia derrotado. Seu papel como general estaria marcado por importantes vitórias durante a Guerra dos Mil Dias sob o ponto de vista tático, as quais lhe deram uma reputação como o principal general liberal [...].”

70 “Dom Nicolás e Uribe são o modelo de toda uma genealogia no mundo fictício de García Márquez: os

coronéis”.

71 “A grande figura histórica da Guerra dos Mil Dias é Rafael Uribe Uribe, junto a quem combateu dom

Nicolás, e cujo nome e cujas façanhas escutou García Márquez mil vezes da boca de seu avô. O general Uribe Uribe é também modelo dos coronéis, e, pelo menos em um caso, de maneira premeditada. Até Cem anos de solidão, Aureliano Buendía é um nome e algumas anedotas; somente neste romance conhecemos sua cara e o vemos de perto. García Márquez descreveu fisicamente Aureliano Buendía utilizando como modelo os retratos do célebre caudilho liberal que morreu

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[...] El coronel Aureliano Buendía es el personaje opuesto a la imagen que yo tengo de mi abuelo. Este era rechoncho y sanguíneo, y era además el comilón más voraz que recuerde y el fornicador más desaforado, según supe mucho más tarde. El coronel Buendía, en cambio, no sólo responde más bien a la estampa huesuda del general Rafael Uribe Uribe, sino que tiene su misma tendencia a la austeridad. (EOG, 1993, p. 10).72

Figura inteligente, introspectiva e insensível, o coronel Aureliano Buendía é ao mesmo tempo o combatente obstinado que lutou em mais de 30 guerras civis, o eterno inimigo dos conservadores, o filho muitas vezes frio e sarcástico, o sujeito que despistou a morte em mais de uma ocasião, o homem que se apaixonou por uma menininha, o pai de 17 filhos ilegítimos, o artista primoroso, o ex-militar que dispensou uma vitalícia pensão de guerra; enfim, o homem de palavra, que não se impressionava com os convites e bajulações dos políticos poderosos, nem tampouco suportava os advogados vestidos de negro que sempre o assediaram: “[...] los abogados de trajes oscuros que en otro tiempo revolotearon como cuervos en torno al coronel.” (CAS, [s/d], p. 89).73

El coronel Aureliano Buendía representa la dignidad del combatiente que se hace fuerte en la derrota [...]. En su progresión como personaje

él llega a tener el poder absoluto, lo que se traduce en una soledad absoluta, que está representada en la novela por medio de un círculo

de tiza que lo separa del resto de los hombres. (DELGADO, 2008, p. 301, grifos meus).74

Após desistir de lutar em guerras que já não faziam mais sentido para ele, o coronel Aureliano Buendía se afasta totalmente das questões políticas para se dedicar exclusivamente à ourivesaria. Em sua “soledad absoluta”, o ex-militar passa a desprezar qualquer tentativa de ser homenageado pelos poderosos:

Lo que más le indignó fue la noticia de que el propio presidente de la república pensaba asistir a los actos de Macondo para imponerle la Orden del Mérito. El coronel Aureliano Buendía le mandó a decir, palabra por palabra, que esperaba con verdadera ansiedad aquella

72“[...] O coronel Aureliano Buendía é o personagem oposto à imagem que eu tenho de meu avô. Este era

rechonchudo e sanguíneo, e era também o comilão mais voraz que eu me lembre e o fornicador mais desaforado, segundo soube muito mais tarde. O coronel Buendía, em compensação, não só responde melhor à imagem ossuda do general Rafael Uribe Uribe, como tem sua mesma tendência à

austeridade.”

73“[...] os advogados de terno escuro que em outra época esvoaçavam como corvos em torno do coronel.”

(CAS, 1996, p. 207).

74“O coronel Aureliano Buendía representa a dignidade do combatente que se faz forte na derrota [...].

Em sua progressão como personagem, ele chega a ter o poder absoluto, o que se traduz em uma solidão absoluta, que está representada no romance por meio de um círculo de giz que o separa do

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tardía pero merecida ocasión de darle un tiro no para cobrarle las arbitrariedades y anacronismos de su régimen, sino por faltarle el respeto a un viejo que no le hacía mal a nadie. (CAS, [s/d], p. 45).75

Além de explicitar o rígido caráter do coronel, a passagem acima dá realce à ironia do personagem.

Ainda que o próprio coronel Aureliano tenha cometido uma série de arbitrariedades em suas mais de três dezenas de guerras (inclusive sendo injusto com seu companheiro de armas, o coronel Gerineldo Márquez), outros generais, coronéis e oficiais de alta patente personificam com muito mais propriedade o poder de implacáveis ditadores que conduziram com mão de ferro a política de seus territórios e povoados. Figuras que trazem a morte na ponta de suas armas e de suas canetas, esses militares têm propósitos descabidos, e a ambição desmedida os transforma em verdadeiros tiranos.

Arcadio Buendía (filho de Pilar Ternera com José Arcadio) corresponde a tal perfil. Após ser nomeado chefe civil e militar de Macondo (em uma rebelião contra o poder conservador), o jovem, com seus companheiros de escola, passa a exercer um domínio cruel sobre as pessoas do povoado, até que, algum tempo depois, acaba por ser fuzilado em praça pública. No ímpeto de mandar, Arcadio comete excessos próprios dos que acreditam ser superiores a tudo e a todos, como atesta o seguinte trecho:

Pero una noche, al entrar Arcadio en la tienda de Catarino, el trompetista de la banda lo saludó con un toque de fanfarria que provocó las risas de la clientela, y Arcadio lo hizo fusilar por irrespeto a la autoridad. A quienes protestaron, los puso a pan y agua con los tobillos en un cepo que instaló en un cuarto de la escuela. “¡Eres un asesino!” Ŕle gritaba Úrsula cada vez que se enteraba de alguna nueva arbitrariedad. [...] Arcadio siguió apretando los torniquetes de un rigor innecesario, hasta convertirse en el más cruel de los gobernantes que hubo nunca en Macondo. (CAS, [s/d], p. 45).76

75 “O que mais o indignou foi a notícia de que o próprio Presidente da República pensava em assistir aos

atos de Macondo para lhe oferecer a Ordem do Mérito. O Coronel Aureliano Buendía mandou-lhe dizer, palavra por palavra, que esperava com verdadeira ansiedade aquela tardia mas merecida ocasião de lhe dar um tiro, não para cobrar as arbitrariedades e anacronismos do seu regime, mas por faltar

com o respeito a um velho que não fazia mal a ninguém.” (CAS, 1996, p. 207-208).

76“Mas certa noite, ao entrar na taberna de Catarino, o trompetista da banda saudou Arcadio com um

toque de fanfarra que provocou o riso da clientela, e Arcadio o mandou fuzilar por falta de respeito à autoridade. Aos que protestaram, pôs a pão e água, com os tornozelos no tronco que instalara num quarto da escola. „Você é um assassino!‟, gritava-lhe Úrsula cada vez que sabia de alguma nova arbitrariedade. [...] Arcadio continuou apertando as cravelhas com um rigor desnecessário, até se

48 Note-se que a “genealogia” dos coronéis repercute em várias obras do colombiano e está interligada aos aspectos históricos e violentos (em contraposição ao mítico, lendário etc.) presentes em sua narrativa. Livros como El coronel no tiene quien le escriba e El otoño del patriarca associam a figura do militar a dois modos distintos, e até antagônicos, de representação nas narrativas.

No primeiro caso, o coronel é uma figura quixotesca77 que com a dignidade da velhice aguarda uma pensão que nunca será recebida. Nós leitores nos sentimos conectados a essa figura que simboliza a autoridade que passa a ser desprezada, pois que esquecida por todos. A velhice, e acima dela a decrepitude, é a marca do personagem que, em sua resignada espera, não obtém o reconhecimento por seu trabalho. Isso remete aos aposentados, aos desvalidos que hoje não são a sombra daquilo que foram. Aí também reside uma crítica da García Márquez às estruturas de poder que relegam ao esquecimento aquele que um dia foi considerado um prócer da nação.

No segundo livro, a figura em destaque é a do ditador sanguinário que, após um exacerbado exercício do poder, tem como “recompensa” a decadência, a solidão e a morte. Aqui, nós leitores chegamos a nos regozijar com tal destino. É como se as truculências praticadas pelo personagem pudessem ser minimamente compensadas pela via da punição de seu autor. Essa dualidade de perfis está presente nessas obras e permite uma compreensão mais ampla da condição humana daqueles que se enveredam pelos ambíguos caminhos do poder.

Há ainda o livro El general en su laberinto, em que García Márquez mostra os últimos dias de José Antonio de la Santíssima Trinidad Simón Bolívar y Palacios, o revolucionário, em sua viagem de exílio e morte. Assolado pela tuberculose, arrebatado por febres e vitimado por delírios, já quase sem amigos, Bolívar é desenhado como um homem que prova o gosto das duas piores solidões: a de um homem que finalmente enxerga que seu sonho de libertar a América Latina estava corrompido desde o nascimento, e outra, a de quem já não tem mais o poder nas mãos.

Na cartografia do autoritarismo não é possível esquecer a ação mortal de militares de outras patentes que, em nome da “ordem”, executaram centenas e até

77 “El coronel se presenta ante el lector como un viejo hidalgo quijotesco capaz de resistir ante la

adversidad económica y política, agravada aún más si cabe por el asesinato de su único hijo [...]”.

(DELGADO, 2008, p. 300). Traduzindo: “O coronel se apresenta ante o leitor como um velho fidalgo

quixotesco capaz de resistir à adversidade econômica e política, agravada ainda mais pelo assassinato

49 milhares de trabalhadores que desafiavam o status quo. Além disso, governadores, prefeitos, papas, bispos e madres, senhores feudais, patriarcas, matriarcas, outros membros do clero e da alta sociedade são figuras frequentes e representativas da manifestação desse poder desmesurado e truculento.

Outro aspecto sintomático em várias obras de García Márquez é a presença de personagens marginalizados que, em determinadas circunstâncias, transitam em diversos espaços e camadas da sociedade, tais como: prostitutas, ladrões, vigaristas, andarilhos, anões, ciganos, videntes, índios, feiticeiros, curandeiros, escravos, mestiços, negros, viúvas, loucos, velhos, crianças, artistas, monstros e muitos outros que, por variadas razões, encontram-se distanciados do poder oficial.

Essa multiplicidade de caracteres proporciona uma visão integral do mundo com suas virtudes e defeitos, ou com mais defeitos que virtudes, independentemente da classe ou círculo social a que pertença cada personagem. Desse modo, na literatura de García Márquez é possível haver um ladrão muito mais ético que um bispo, ou uma prostituta mais amorosa e maternal que uma donzela de família.

Nesse contexto, os temas da memória, da solidão e da morte assomam como distintivas marcas do autor e são reincidentes já nos primeiros contos. Como destaca Dasso Saldívar, ao se referir ao conto “A terceira renúncia”:

[...] Era tudo isso e muito mais: o despontar e o compêndio de alguns dos principais temas e subtemas de sua obra posterior, como a casa, a solidão, o medo, a nostalgia, a morte, o afã de transcendência da morte, as mortes superpostas, a clausura (SALDÍVAR, 2000, p. 159).

Esses “temas e subtemas” são apresentados por Gabriel García Márquez de um modo bastante peculiar e fazem de sua literatura a expressão de distintas formas de relacionamento e de poder. Para compreender um pouco as especificidades de Cien años de soledad, é necessário pôr em evidência alguns procedimentos técnicos adotados pelo autor tanto num romance e num conto precedentes (como é o caso de La hojarasca e de “Los funerales de la Mamá Grande”), quanto em sua obra mestra. Antes, porém, é preciso apresentar o contexto histórico e literário que propiciou o aparecimento de Cien años de soledad e sua importância no contexto da América Latina.

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