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5.5 Rt.2003 s. 1814
já haviam sido fixadas com o Embaixador norte-americano no Bra
sil, faltando ainda estabelecer os termos finais para a concessão
do auxílio financeiro. Ficava evidente desde então o interesse norte
americano quanto à importação de minerais estratégicos brasileiros,
CONTRADIÇÃO OU COERENCIA: ANÁLISE DE ALGUMAS POÜTICAS GOVERNAMENTAIS 161
nos quais se concentra grande parte das negociações. Já no início de 195 1 , João Neves da Fontoura declara estar estudando uma res posta a ser dada aos Estados Unidos quanto à venda desses mine rais. Segundo ele, o Brasil deveria demandar preços reais para esses produtos. assim como financiamentos para a construção de indús trias de guerra.
Em nota aprovada por Vargas e enviada à Embaixada norte americana, João Neves refere-se à boa vontade do Governo brasi leiro em contribuir com " matérias-primas nacionais para a econo mia de emergência dos Estados Unidos"; em contrapartida. esse pais deveria conceder "prioridades de fabricação e créditos bancá rios a termo médio e longo, para a imediata execução de um pro grama racional de industrialização e de obras públicas ao qual serão consagrados os principais esfÇlrços da administração brasileira". O Governo dispunha-se a iniciar negociações bilaterais que colocassem ao alcance dos Estados Unidos as matérias-primas nacionais, e para tal estava disposto a criar um organismo brasileiro-norte-americano. O Brasil pleiteará junto aos Estados Unidos financiamentos e fornecimentos para as seguintes prioridades: planos hidrelétricos para o alto São Francisco, para Minas Gerais e para o Rio Grande do Sul, e de aproveitamento econõmico do vale do São Francisco, principalmente de Paulo Afonso; refinarias de petróleo, usinas de azoto sintético e de álcalis, siderurgia, portos, navios e transportes. Pleiteará também a implantação no Brasil de indústrias que utilizem nossas matérias-primas, possibilitando a exportação de manufatura
dos e não das próprias matérias-primas, e ainda a criação de compa nhias mistas para o "estudo das riquezas naturais do país, pesquisa e lavra de jazidas" . 16
A nota é discutida em reunião de fevereiro de 195 1 , que conta com a presença de Miller, Secretário Assistente do Governo norte americano, do Embaixador dos Estados Unidos e de Francis Trus low, autoridade econômica encarregada das conversações no Brasil. João Neves da Fontoura enfatiza a tradição política brasileira de colaboração e cooperação e lembra que os Estados Unidos vêm, nos últimos anos, voltando todos os seus cuidados para a Europa Ocidental e relegando a América Latina ao esquecimento. Os repre sentantes norte-americanos concordam em que os projetos básicos contidos na nota brasileira necessitam de apoio financeiro dentro de uma " política econômica caracterizada pela reciprocidade" . ficando estabelecido que o Banco Internacional e o Banco de Impor tação poderiam abrir uma conta de financiamento ao Brasil no valor de 250 milhões de dólares para os problemas mais urgentes.
162 O SEGUNDO GOVERNO VARGAS
Embora Horácio Lafer sugerisse um empréstimo no montante de 500 milhões de dólares, considerado ousado demais por Miller e João Neves, fica estabelecido preliminarmente que a quantia de 250 milhões será o início do financiamento visando a recuperação econômica do Brasil. Da parte do Governo brasileiro, haveria dispo sição para facilitar a remessa de manganês in natura e de matérias primas de interesse estratégico, com a contrapartida de o Governo norte-americano ou de empresas privadas desse país montarem aqui fábricas para a industrialização dessas matérias-primas, particu larmente de areias monazíticas. Quanto ao café, discute-se a fixa ção de um preço-teto que atenda aos interesses do Brasil, ficando, contudo, adiada essa questão até a Conferência de Washington. [7
As preparatórias das negociações bilaterais encontram-se nessa etapa quando da realização da Conferência de Washington, em fins de março. O Banco Internacional promete todos os financiamentos, sob a condição de que a Comissão Mista estabeleça prioridades para os projetos. Incentivam-se então os preparativos para a forma ção dessa Comissão, sendo Francis Truslow nomeado para dirigir a seção norte-americana, cnja instalação é prevista até o final de abril,
mas
que efetivamente só se instala a 19 de julho de 1951. O Banco Internacional, por sua vez, promete nomear um representante petmanente no Brasil por 18 meses para acompanhar a preparação dos projetos. Embora exija uma previsão global do montante de recursos necessários, promete que não os limitará para os projetos aprovados pela Comissão. [8Dois novos fatores aparecem mais claramente nas conversa ções: a insistência do Brasil em aumentar em 50 milhões de dólares o valor do empréstimo e a solicitação explícita do Secretário de Estado, Dean Acheson, no sentido de que o Brasil envie uma divi são militar para combater na Coréia -as despesas de equipamento.
armamentos e transportes ficariam por conta dos Estados Unidos, e o treinamento, por conta do Brasil. 19
A medida que cresce a ofensiva americana pela participação militar do Brasil na Coréia, aumentam também as exigências brasi leiras quanto às bases das negociações. A 9 de abril, o Presidente Harry Truman escreve a Vargas pedindo que considere a necessi dade de enviar uma Divisão de Infantaria para a Coréia, e dias depois John Thompson escreve a Osvaldo Aranha sobre a boa opor tunidade que a participação nesse conflito tra
z
ao Brasil em termos de treinamento das forças mili
tares brasil
eir
as. 20Na presença do Secretário de Estado, João Neves da Fontoura expõe as
disposições
e as exigências doBrasil.
Opaís
se propunha:CONTRADIÇÃO OU COE�CIA: ANÁLISE DE ALGUMAS pOLínCAS GOVERNAMENTAIS 163
fornecer até 500 mil toneladas anuais de manganês de Urucum; esta belecer acordo sobre areias monazíticas, desde que os Estados Uni dos se dispusessem a receber a maior parte já manufaturada e uma parte mínima das exportações
in
-natura; conlumar os compromis sos quanto ao manganês do Amapá; e exportar minério de ferro e outras matérias-primas estratégicas não-iudustrializadas. O pais exi gia: que os Estados Unidos, através de seus representantes no Banco Internacional, aprovassem um crédito de 300 milhões de dólares para financiamento de programas básicos de desenvolvimento; a obtenção de armamentos indispensáveis às três Armas nas mesmas condições que os países do Pacto do Atlântico Norte; eqnipamen tos para as fábricas militares e um fornecimento proporcional à dimensão das tarefas do Brasil na questão da defesa comum; ajuda armamentista independente do empréstimo de 300 milhões de dóla res; cooperação para as refinarias e a industrialização do petróleo; exclusão do Amapá, U rucum e outros interesses exclusivos dos Esta dos Unidos desse financiamento; e suprimento de matérias-primas norte-americanas para a indústria nacional. ZIGetúlio Vargas insiste para que o crédito de 300 milhões seja aceito como quantia minima, mas João Neves e Santiago Dantas, membros da delegação, afirmam que essa quantia é o máximo que pode ser conseguido, assim como é o máximo que o Brasil pode pagar. 22 O avanço da discussão faz com que se separe, na prática, a ajuda para o desenvolvimento econômico da cooperação eminen temente militar. Esta, que compreende desde a segurança interna das nações até a segurança do continente e do hemisfério ocidental, será objeto do Acordo Militar, cujos entendimentos ocorrem nessa mesma época.
Como conclusão das negociações bilaterais, João Neves apre senta um balanço destacando que tudo o que se conseguiu foi inde pendente da "cooperação brasileira nas medidas coletivas das Nações Unidas em relação à Coréia", embora, no seu entender, essa colabo ração pudesse levar o Brasil a resultados "mais categóricos". Ressalta ainda que o empréstimo ao Brasil é oriundo do Banco Internacional, ficando o Eximbank disponível para o financiamento de ontros proje tos independentes.23 Apesar de essas resoluções estarem desvinculadas formalmente da questão militar da Coréia, esta continuará em pauta nas relações entre Brasil e Estados Unidos e terá em João Neves um dos defensores do envio de tropas brasileiras.
Após instalada oficialmente a Comissão, a
19
de julho de195 1 ,
prosseguem as negociações visando os financiamentos já pro metidos, bem como novos empréstimos junto a bancos oficiais.'" o SEGUNDO GOVERNO VARGAS