O tema Tecnologia de Informação nas organizações é objeto de pesquisas há mais de 50 anos, desde que o processamento eletrônico de dados se tornou ferramenta essencial ao mundo dos negócios. O tópico de alinhamento estratégico, no entanto, é evidenciado como objeto de interesse de pesquisadores diversos desde a década de 1990, quando evoluíram as pesquisas para avaliar o retorno dos investimentos em TI para as organizações (BRODBECK; HOPPEN, 2003).
Com o crescimento dos investimentos em TI e a forte relação da área com o ambiente de negócio, aumentaram na mesma proporção a expectativa dos executivos e o interesse dos acadêmicos em determinar na prática os reais benefícios que tais investimentos trariam para as organizações. Mesmo que a literatura seja unânime em apontar a importância da TI como ferramenta de apoio para estratégia de negócio e arma competitiva (PORTER,1999), a experiência vivenciada pela maioria dos executivos não era muito satisfatória. Pelo contrário, a maioria das organizações se defrontava com problemas relacionadas à ideia do paradoxo da produtividade, que pode ser definido como a dificuldade em associar os investimentos em TI com resultados positivos para a organização.
As origens dessa discussão remontam aos meados da década de 1980, quando as primeiras pesquisas realizadas não encontraram nenhuma relação entre os investimentos em TI e aumento de produtividade nas empresas ou na economia como um todo (ROACH, 1987; STRASSMANN, 1990; LOVEMAN, 1994 apud DEDRICK et al., 2003). Esses estudos consideravam a TI como ferramenta que, por si, deveria ensejar resultados positivos para a organização, e mediam esses resultados por indicadores financeiros tradicionais, como ROI3 (Returno On Investment) ou curva ABC4 (Activity
3 “Retorno em Investimento”. Expressão muito utilizada para medir a relação custo/benefício em sistemas de informática
4 Custeio Baseado em Atividades. Método contábil que permite a empresa adquirir melhor entendimento sobre como e onde realizar seus lucros.
Based Costing). As suas conclusões motivaram uma discussão que ficou conhecida na literatura como paradoxo da produtividade (SOLOW 1987 apud STRASSMANN, 2004 ).
Autores como McGee e Prusak (1994), porém, questionam a validade desses estudos que provaram o paradoxo, ao acentuarem que os investimentos em TI não podem criar vantagem competitiva pela simples aquisição de um equipamento ou implantação de um SI de última geração. É o uso que se dá à tecnologia que cria o valor competitivo, pela aplicação diferenciada do recurso da informação na organização. Mencionados autores reforçam ainda a ideia de que a tecnologia não é a solução mágica dos problemas e sim parte da solução, que depende de outras variáveis, como as pessoas e a estrutura organizacional.
Percebendo que a investigação do paradoxo da produtividade era mais profunda, em decorrência da complexidade inerente ao uso da TI e suas relações com o ambiente organizacional, emergiu a necessidade de uma nova abordagem, por parte dos pesquisadores, que fosse capaz de mensurar o impacto dos investimentos em TI distribuído entre os vários elementos do desempenho organizacional — financeiros, estruturais, humanos e culturais. Sob esse ponto de vista, dever-se-ia medir os efeitos dos investimentos da TI no médio e longo prazo, combinando os fatores técnicos e medidas tradicionais com outros elementos mais intangíveis, tais como: gestão de negócio, melhoria de processos, capital humano, qualidade de produtos (TURBAN; McLEAN; WETHERBE, 2004; REZENDE; ABREU, 2006).
Essa nova perspectiva deu origem a uma série de pesquisas, mais detalhadas, como a de Brynjolfsson (1993 apud STRATOPOULOS; DEHNING, 2000) e Brynjolfsson e Hitt (2000), que refutaram a validade do paradoxo. Esses estudos identificaram uma relação positiva entre investimentos em TI e ganhos de produtividade, tanto no contexto da economia global como no plano individual das organizações. Tais pesquisas atribuíram grande parte do bom desempenho das empresas, no final da década de 1990, aos pesados investimentos em recursos de TI e no uso da Internet.
Passadas duas décadas, permanece vigente na literatura o debate sobre a validade do paradoxo, traduzido em um volume expressivo de artigos, livros, teses, pesquisas. Na perspectiva de Maçada e Becker (2001) e outros autores (GRAEML, 2000; LAURINDO, 2000; STRATOPOULOS; DEHNING, 2000), toda essa literatura não esgotou o assunto porque ainda não se tem um resultado que comprove o impacto
estratégico e econômico dos investimentos em TI para o desempenho e competitividade alcançados pelas empresas e pela economia como um todo.
Ponderando sobre a continuidade da polêmica em torno do paradoxo, Graeml (2000) diz que ela é motivada principalmente pelo fracasso dos elevados investimentos em tecnologia, especialmente os projetos de SI, realizados nos últimos anos, que coincidiram com uma queda de produtividade nas empresas. O grupo Genesys de consultoria, por exemplo, fornece dados que reforçam essa afirmação: 31% dos projetos de TI são cancelados antes de serem terminados; 50% dos projetos de TI consomem o dobro de seu orçamento inicial; apenas 16% dos SI são concluídos dentro das previsões (prazo, objetivos e orçamento) (STRATOPOULOS; DEHNING, 2000).
Graeml (2000) alerta, todavia, para a noção de que, sem perder de vista a complexidade do problema, não se deve tirar conclusões prematuras, baseadas em medidas contingentes, muitas vezes insatisfatórias e incapazes de traduzir o peso da contribuição da TI para os ganhos de produtividade e eficiência.
Esse ponto de vista do autor reforça a necessidade, anteriormente citada, de se considerar no paradoxo outros aspectos abstratos e subjetivos, “[...] mais ligados à organização e sua capacidade de aceitar e suportar as mudanças organizacionais que acompanham ou precisam se fazer preceder ou suceder às mudanças tecnológicas” (GRAEML, 2000, p. 82).
Julga-se pertinente destacar essas ponderações de Graeml (2000), pois se observa, empiricamente, nas organizações, evidências da inegável contribuição dos recursos de TI, isto é, melhoria das atividades desempenhadas, maior qualidade dos serviços, motivação e satisfação das pessoas envolvidas, dentre outros benefícios. Suscita-se, portanto, como vários autores, dentre eles Graeml (2000), Albertin (2004), McGee e Prusak (1994), a hipótese de que os benefícios de natureza mais intangível, de médio e longo prazo da TI, tais como: as contribuições para a melhoria do serviço prestado, o aumento da flexibilidade e inovação, o alcance dos objetivos da organização e a melhoria dos indicadores de desempenho ainda não conseguem ser captados pela maioria das pesquisas que adotam parâmetros e metodologias mais quantitativos e lineares.
No trato do paradoxo da produtividade, destaca-se a opinião de Strassmann (2004), ao asserir que o investimento em TI, como recurso estratégico, pode ser produtivo ou improdutivo, sendo que essa produtividade é uma manifestação da forma como se faz o bom gerenciamento destes recursos; ou seja, a TI é uma simples
ferramenta e o problema do paradoxo parece não estar ligado às capacidades inerentes das tecnologias, que são imponentes, mas com a inabilidade administrativa de usá-las efetivamente (STRASSMANN, 2004).
Assim como Strassmann (2004), outros autores compartilham esse pensamento de que progressivamente as pesquisas sobre o paradoxo, mesmo trilhando diferentes caminhos, revelam que a falta de uma gestão adequada de TI comprometeria o seu potencial de acumular vantagem competitiva às organizações.
Stratopoulos e Dehning (2000), Brynjolfsson e Hitt (2000) e Rezende (2002), por exemplo, destacam a importância da qualidade do gerenciamento da TI e da adequação dos investimentos às estratégias corporativas. Rezende (2002) salienta que a forma como a organização realiza a gestão de TI é fundamental para se avaliar o retorno dos investimentos realizados e melhorar a sua contribuição para a eficiência organizacional.
Recentemente, Rezende e Abreu (2006) verificaram que as empresas não têm obtido o retorno esperado da TI em virtude da ausência de dois fatores envolvidos na sua gestão: uma estratégia de desenvolvimento e implantação das novas tecnologias, e a consideração de outros aspectos não técnicos envolvidos no processo de implantação dos projetos de TI, como impactos organizacionais.
Complementando essa ideia, Brynjolfsson e Hitt (2000) apontam como outra provável causa do paradoxo a ausência de mudanças organizacionais, que deveriam acompanhar os investimentos em TI. Para esses autores, a cada dólar gasto em hardware e software, a empresa precisa gastar até nove dólares a mais em novas práticas da gestão e organização, necessárias para tirar proveito da tecnologia disponível.
Luftman (2003) resume, dizendo que a explicação mais simples e genérica para o paradoxo da produtividade reside no fato de que os investimentos em TI não têm sido suficientemente alinhados com as metas estratégicas de negócio. Para o autor, os gerentes de negócio estão investindo em projetos ou produtos inadequados ou focados somente na tecnologia, esquecendo outros aspectos como as pessoas, a estrutura organizacional e o ambiente.
Na mesma perspectiva, Henderson e Venkatraman (1993) apontam o alinhamento estratégico (AE) entre planos de negócio e de TI como ferramenta da gestão, cujo principal propósito é alavancar as competências da empresa e maximizar seu desempenho organizacional. A falta ou deficiência nesse alinhamento entre a
estratégia de negócio e a estratégia de TI contribui, em parte, para justificar o baixo desempenho da TI na realização do seu verdadeiro potencial econômico e competitivo, isto é, dar sustentabilidade à estratégia corporativa ou de negócio.
Albertin (2004) também enfatiza a relevância do alinhamento da estratégia de investimentos em TI com as metas e objetivos de negócio, ao considerá-lo como um dos pilares para a realização dos benefícios oferecidos pela TI para a competitividade. Ele apresenta maior consciência da importância de estabelecimento de um Alinhamento Estratégico (AE) como fator crítico de sucesso para o melhor desempenho organizacional.
2.4 O Alinhamento Estratégico (AE): Bases Conceituais e Principais Modelos de