4.Case Study
4.3 Route Input Data
O Aeroporto de Fortaleza parece ser um dos espaços que representam bem hoje na Cidade aquilo que Giddens (1991) denomina de desencaixe, ou seja, os processos sociais responsáveis pelo deslocamento das relações sociais dos “contextos sociais de interação” e que são estendidas a relações tempo-espaciais ilimitadas. As relações assim desencaixadas, afirma o autor, só conseguem se manter se, entre os sujeitos que experimentam essas mudanças no espaço e no tempo na “alta modernidade”, existir reciprocidade dos sentidos atribuídos aos sistemas simbólicos, garantindo assim confiança no sistema. Todavia, embora sejam evidentes as análises de Giddens sobre a sociedade contemporânea, é preciso também observar como essas relações são reterritorializadas em contextos sociais particulares e como grupos e camadas sociais experimentam de modo distinto essas transformações por meio do uso.
Além de ser apresentado como um marco da imagem contemporânea da Cidade o Aeroporto de Fortaleza tem atuado na formação de sociabilidades efêmeras de atores sociais específicos que desenvolvem suas práticas tendo-o como referente espaço-temporal. Como pude observar nas minhas idas ao campo, “vendedores ambulantes”, “meninos de rua”, “catadores”, os grupos do viaduto, meninos que “batem bola” em campos improvisados, além de idosos, equipes de futebol, “atletas” que praticam exercícios físicos “no calçadão do Aeroporto” durante todos os dias, têm àquele espaço como significativo. Além destes nem sempre visíveis, outros segmentos identificados quase sempre através de objetos que comunicam poder e ordem estão presentes no espaço do Aeroporto (Imagens 15 e 16): soldados do Exército, Polícia Rodoviária Estadual, Agentes do Dert, policiais militares, segurança privada do Aeroporto e empresas que transportam cargas aéreas.
Imagem 15. Policiais militares em treinamento no Aeroporto. Foto do Autor.
Imagem 16. O vernacular e a paisagem. Entre eles vigilância e controle exercido pelo carro patrulha do Dert. Foto do Autor.
Além desses atores que espacializam disciplina, outras práticas são significativas para a demarcação e reforço de fronteiras simbólicas que parecem conferir ao Aeroporto uma certa distinção em relação ao “entorno”. É comum encontrar, sobretudo nos períodos de alta estação, equipes em operação do Dert, realizando capinagem, limpeza e pintura dos fios de pedra e dos canteiros centrais da Avenida Carlos Jereissati. Além dela, as vias de acesso ao Aeroporto são alvos também da operação, quase sempre as muretas pichadas por atores que escolhem outros horários para atuar. Mas é na avenida principal que o investimento é mais intenso. Como pude observar, é grande a regularidade com que carros de vigilância da Infraero estacionam na avenida, do lado do Aeroporto, bem como, a presença de viaturas da polícia militar por toda a extensão da via, distribuídas por pontos estratégicos.
Contudo, observando o desenrolar das ações no espaço do Aeroporto, suas regularidades e pontos de apoio, durante o dia, um conjunto mais diversificado de grupos para lá converge. Pela manhã, observo bem cedo “catadores” que partem ou chegam dos inúmeros trajetos percorridos pela Cidade, em “carros” cheios de material selecionado, feitos com carcaças de geladeiras reaproveitadas. No bairro Serrinha, onde existem muitos “depósitos” de reciclagem, é comum encontrar “carros” de todos os tamanhos, até porque não é difícil encontrar crianças empurrando um. Nesse mesmo horário, dezenas de funcionários que trabalham no Aeroporto, em regime de turno, chegam em carros, bicicletas ou mesmo a pé. Nesse tempo, as empresas que transportam cargas e combustíveis parecem repetir um trabalho ininterrupto de entrada e saída do Aeroporto.
As ruas e avenidas próximas ao Aeroporto passaram a comportar outros espaços que lhe fazem referência. Após a sua inauguração em 1998, várias empresas que transportam cargas aéreas passaram a ocupar alguns imóveis, em particular, no bairro Serrinha. Desde o início desta pesquisa, pude identificar várias empresas, dentre elas a VariLog, Voex – encomendas aéreas, InterCargas, NewLog e a Brasil Cargas Aéreas, que competem espaço com residências e outros imóveis.
Os bairros próximos ao Aeroporto têm se tornado, da mesma forma, referência para estabelecimentos comerciais freqüentados por moradores do “entorno”, como o Aero Pizza e o Aero Drinks, no bairro Serrinha, ambos fechados há pouco tempo. No bairro Vila União, é possível encontrar o clube e o lava-jato Pista de Pouso, ambos próximos ao antigo Aeroporto, além do Palheta, que oferece serviços de restaurante para o Aeroporto. Antes da construção do atual Aeroporto havia também a Boite Boing, próximo à Lagoa do Opaia.
No “calçadão do Aeroporto”, como os moradores se referem ao espaço, por volta das 5:00 horas da manhã, é a vez dos primeiros praticantes de cooper (Imagem 17) começarem a chegar. Vindos das várias ruas dos bairros que tem o Aeroporto como zona
limítrofe ao norte, eles ocupam o “calçadão” que em poucos minutos fica tomado, em sua maioria, por idosos, donas de casa e trabalhadores que encontram um tempo para se exercitar antes de trabalhar. Até às 7:00 horas da manhã é intensa a presença de pessoas, quando ocorre gradualmente uma diminuição. Após esse horário, apenas os que “esperam” nos pontos de ônibus, os passantes de bicicleta, sem falar dos que não tem dinheiro para ir de ônibus, em sua maioria operários que vão a pé ao trabalho nos bairros do leste da Cidade, ocupam o espaço do Aeroporto. Na opinião de um morador do bairro Serrinha, o espaço do Aeroporto “é uma área livre, dá mais conforto pra gente utilizar. Às vezes acontece que eu faço pela manhã e até a tarde”.187
Imagem 17. Praticantes de cooper no “calçadão do Aeroporto”. Foto do Autor.
Durante à tarde, a partir das 16:00 horas um número maior e mais diversificado de pessoas vai ao Aeroporto para praticar exercícios ou simplesmente conversar. Como pude distinguir em várias oportunidades, é nesse período que várias das questões que têm instigado as chamadas teorias pós-modernas ganham suporte empírico. A “avenida do Aeroporto” em pouco tempo é reapropriada por times inteiros de futebol amador, identificados por seus uniformes e sempre divididos em grupos de quatro ou cinco, como pude constatar para a equipe do Santana Têxtil, do bairro Montese; por donas de casa, jovens, pessoas que aparentam um melhor porte físico, outros “atletas de fim de semana”, estudantes (Imagem 18). No viaduto em frente ao terminal de cargas do Aeroporto, onde é possível olhar os aviões
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que aterrissam e decolam, grupos, predominantemente de homens, observam as atividades que ali se desenrolam.
Imagem 18. Grupo de estudantes do colégio estadual Waldemar Barroso da Serrinha no Aeroporto. Foto do autor.
Para os “vendedores ambulantes”, que retiram seu sustento das atividades do Aeroporto, os poucos instantes que possuem para realizar alguma venda aos funcionários são marcados por tensão e imprevistos. Para um vendedor de sanduíches, que acompanhei em frente ao Aeroporto (Imagem 19 e 20), ex-funcionário durante oito meses na década de 1980 da empresa Pontual, que realiza serviços de limpeza para o Aeroporto, o trabalho no antigo
“tinha vez que dava dinheiro. Tem gente que vivia de lá, escapava lá, os guarda mandava todo mundo ir embora e depois voltava tudo de novo, eu via todo o dia a cena. Depois que o novo Aeroporto foi construído quebrou as pernas de muita gente, depois que veio pra cá”.188
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Conversa informal com um “vendedor ambulante” que vende lanche em frente ao Aeroporto de Fortaleza em 02 de março de 2005.
Imagem 19. Vendedor ambulante do bairro Vila União se dirigindo ao Aeroporto. Foto do autor.
Imagem 20. Vendedor ambulante no Aeroporto. Foto do autor.
A partir das 7:30 da manhã aquele vendedor, vindo do bairro Vila União, no antigo Aeroporto, chega ao ponto de ônibus localizado do outro lado da Avenida Carlos Jereissati, em frente ao atual Aeroporto. Acompanhando o período em que ele permanece no local, entre
7:30 às 10:00, observo um conjunto de relações que são estabelecidas com os usuários do ponto, em sua maioria trabalhadores e alguns poucos estudantes.
Como pude identificar, do outro lado da avenida, no gramado do Aeroporto, funcionários de uma empresa prestadora de serviços que realizam trabalhos de manutenção em determinados momentos da manhã fazem algum sinal para que o vendedor vá até eles vender lanche. A cada dia eles estão situados em locais diferentes, o que exige novas estratégias para se deslocar até eles por parte do vendedor. Ele, que já foi expulso várias vezes do local onde hoje é o estacionamento, segundo me revelou, atravessa a avenida e se dirige aos funcionários. Para ele,
“o ritmo é esse aqui mesmo, tem dia que é bom, tem dia que é ruim. O ritmo é só esse aqui. É diferente do local onde o cara pode ter uma base. É só eu colocar uma barraquinha lá, aí dá problema. Mas eu sou vendedor ambulante, me movo pra todo canto. Quando eles[os funcionários] estão lá em cima não dá pra vender não porque a Infraero prende a bicicleta, a merenda e o cara. Se eles não estiverem aqui, estão lá dentro, aí eles ficam sem merendar”.189
A vigilância e o controle realizado em certos espaços da Cidade voltados para promover Fortaleza aos mercados consumidores em muitos casos se dão através de práticas de intimidação e de segregação. Em alguns momentos se revela dotada de êxito ao isolar usuários não visados por meio do controle dos usos do Aeroporto de Fortaleza.