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E ROSJON FRA PUNKT OG LINJER – METODE OG RESULTATER

Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra [...] Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo (GSV, p. 76).

Mircea Eliade (2016, p. 8) afirma que, de fato, “se quisermos delimitar e definir o sagrado, ser-nos-á necessário dispor de uma quantidade conveniente de sacralidades, isto é, de fatos sagrados”. Para exemplificar a discussão e análise proposta neste capítulo, tomaremos a poética ontológica de Gaston Bachelard (1884 – 1962) como um eixo de diálogo para análise dos elementos geográficos do romance pelo empréstimo figural do sótão e do porão bachaleriano para a análise das geografias de Deus e do Demo no Sertão riobaldiano: veredas altas e baixas, chão bem marcado no livro e na cultura brasileira, uma fronteira em elaboração na vida e nos dilemas do homem humano.

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Mundo, o em que se estava, não era para gente: era um espaço para os de meia- razão. Para ouvir gavião guinchar ou as tantas seriemas que chungavam, e avistar as grandes emas e os veados correndo, entrando e saindo até dos velhos currais de ajuntar gado, em rancharias sem morador? Isso, quando o ermo melhorava de ser só ermo. A chapada é para aqueles casais de antas, que toram trilhas largas no cerradão por aonde, e sem saber de ninguém assopram sua bruta força. Aqui e aqui, os tucanos senhoreantes, enchendo as árvores, de mim a um tiro de pistola – isto resumo mal. Ou o zabelê choco, chamando seus pintos, para esgaravatar terra e com eles os bichinhos comíveis catar. A fim, o birro e o garrixo sigritando. Ah, e o sabiá- preto canta bem. Veredas. No mais, nem mortalma. Dias inteiros, nada, tudo o nada – nem caça, nem pássaro, nem codorniz. O senhor sabe o mais que é, de se navegar sertão num rumo sem termo, amanhecendo cada manhã num pouso diferente, sem juízo de raiz? Não se tem onde se acostumar os olhos, toda firmeza se dissolve. Isto é assim. Desde o raiar da aurora, o sertão tonteia. Os tamanhos. A alma deles (GSV, p. 330, 331).

Ler um sertão que tonteia, tanto o de sem razão, quanto ao de meia e alta razão, é um desafio complexo de espaços e existências que convivem com a ambiência do sagrado e do profano na fauna e flora tão peculiar àquela espacialidade. Para tal empreitada, é necessária uma análise das projeções do literário-geográfico-sagrado em suas possibilidades ficcionais, mesmo porque tanto a literatura quanto as paisagens precisam de interpretação pois o texto literário, que é de natureza ficcional, produz um sistema elaborado de interpretações. Já as paisagens, que existem antes do literário, tardiamente tomaram o seu espaço a fim de ocupar a colocação de ser objeto de estudo, principalmente em terras brasileiras. Partimos do entendimento de que nossos dois objetos de estudo nesse momento, romance e paisagens, margeiam dentro das travessias conceituais do real e do ficcional contido no imaginário sócio-religioso das Gerais. O teórico inglês Wolfgang Iser (1926 - 2007) substitui a relação opositiva usual entre realidade e ficção pela tríade do real, fictício e do imaginário, sendo esta relação triádica a propriedade fundamental do texto ficcional onde:

o fictício oferece agora ao imaginário a possibilidade de que este se faça presente no produto verbal do texto, na medida em que a própria a língua é transgredida e enganada, para que, no engano da língua, o imaginário, como causa possibilitadora do texto, se torne presente (ISER, 1996, p. 33).

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A ficção e as paisagens serão percebidos em seus atos intencionais, reais ou não, naquilo que escondem e nos revelam. As paisagens também fingem, quando assim o fazem superam fronteiras e operam novas significações, pois como o fictício não é idêntico à obra, a paisagem, da mesma forma, possibilita também o algo inventado, como evidencia de sua não originalidade ante aos atos hermenêuticos de seus analistas. Como não há representação sem performace, e a origem deste desempenho é sempre distinta daquilo que é representado, o fictício e as paisagens podem tornar-se uma categoria básica de compreensão antropológica do homem.

Para STIERLE (2006, p. 9), “o fictício é uma instância da transformação que dá ao imaginário sua determinação e, deste modo, ao mesmo tempo conduz ao real”. A categoria do espaço, mais especificamente, as paisagens literárias se inserem no mundo, logo são movediças e evocativas, a qual:

na esteira de Foucault, para quem estamos vivendo a “época do espaço” (1984), pode-se considerar que a literatura, na virada do século XIX, se vem espacializando, em sua opção por enredos geográficos. Mais especificamente, a literatura de última extração, pós-romântica e pós-realista, vem explorando o espaço como núcleo de uma hermenêutica que se irradia de dentro da construção literária mesma. Aqui o suporte geográfico leva ao nível das imagens, da semântica, da etimologia, do imaginário trans-histórico, constituindo um sistema de articulação onde vários processos acontecem, simultânea e reciprocamente. Nessas “narrativas de espaço” – a categoria ficcional do espaço constitui o eixo dinamizador de todo o sistema literário.79

A fisicidade dos lugares sob o fluxo do imaginário produz reconfigurações espaciais e remete a uma ontologia das imagens criadas, portanto, o ficcional se espacializa. A paisagem se qualificou, no âmbito dos estudos literários, como categoria para o estudo dos signos do espaço e para promover uma nova epistemologia do texto estético, aplicadas à investigação de paisagens concebidas pelo imaginário. As paisagens possibilitam uma fonte de inspiração para a poiesis literária, que as transformam em expressões verbais de acordo com a imaginação e a cosmologia de seus hermeneutas.

79 Ad tempora. In: Texto de aula Professora Dra Carlinda Fragale Pate Nunez (UERJ). Citando

FOUCAULT, Michel. “Outros espaços”. Conferência no Círculo de Estudos Arquitetônicos. 14 de março de 1967). Architecture, mouvement, continuité, no 5, outubro de 1984, p. 46-49.

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As alusões ao espaço geográfico se tornam objetos de estudo para os geógrafos culturais e dos teóricos em literatura que desejarem registrar e interpretar a geograficidade nos textos onde Guimarães Rosa pode ser citado como um exemplo de autor que faz a obra nascer daquilo que é a sua própria vivência, na experenciação dos sertões de Minas Gerais.

A ontologia do espaço em Gaston Bachelard80 percebe que “a

comunicabilidade de uma imagem singular é um fato de grande significação ontológica (BACHELARD, 1978, p. 184). O ato da consciência criadora está associado à imagem poética. Como teorizador de uma ontologia poética do espaço romanesco Bachelard nos propõe uma fenomenologia da imaginação poética, onde “o não saber não é uma ignorância, mas um ato difícil de superação do conhecimento” (BACHELARD, p. 194). O autor deseja examinar “as imagens do espaço feliz” (p. 196), ou seja, uma espécie de topofilia, para a determinação do valor humano nos espaços de posse e de pertença.

Gaston Bachelard toma a casa81 para exemplificar possibilidade de um plano

filosófico da literatura em que ler a casa é interpretar “um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade” (1978, p. 208). Ao distinguir as imagens nos é revelada a alma da casa, imaginada em sua verticalidade pela polaridade do porão e do sótão.

Todos os pensamentos que se ligam ao telhado são claros. No sótão, vê-se, com prazer, a forte ossadura dos vigamentos. Participa-se da sólida geometria do carpinteiro. Para o porão encontramos sem dúvida, utilidade. Nós o racionalizaremos enumerando suas comodidades. Mas ele é em primeiro lugar o ser obscuro da casa, o ser que participa das potências subterrâneas. Sonhando com ele, concordamos com a irracionalidade das profundezas (BACHELARD, 1978, p. 209).

Bachelard faz referência ao psicanalista Carl Gustave Jung para servir-se da imagem dupla do porão e do sótão para analisar os medos que moram na casa. A imagem é a seguinte:

80BACHELARD, Gaston. A Poética do espaço. Os Pensadores. São Paulo: Abril, 1978.

81 Op. Cit. p. 200: “A casa é nosso canto do mundo. Ela é, como se diz frequentemente, nosso

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A consciência se comporta como um homem que, ouvindo um barulho suspeito no porão, se precipita para o sótão para constatar eu aí não há ladrões e que, por consequência, o barulho era pura imaginação. Na realidade, esse homem prudente não ousou aventurar-se ao porão (BACHELARD, 1978, p. 209).

Por quê? No porão, há escuridão dia e noite, mesmo com velas vê-se sombras, lugar onde o inconsciente do homem manifestar seus medos. No sótão, a verticalidade luminosa atinge seus partícipes. Há um sótão e um porão no sertão? Para entendermos esta imagem poética é necessário perceber o emergir da consciência como um produto do ser humano.

Guimarães Rosa traz a mesma referência em relação ao sertão:

- Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se ouviu -; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. [...] O senhor tolere, isto é sertão (GSV, p. 23).

Acima está o primeiro parágrafo de Grande Sertão; veredas. O que é o sertão? Lugar de barulhos entre o lá e o aqui, os diálogos do além – humano. Lugar em que Deus esteja e onde determinam: é o Demo. Lugares de interlocuções entre o narrador do romance e seu ouvinte silencioso. O objetivo deste capítulo é analisar alguns elementos geográficos na obra de Guimarães Rosa em seu romance Grande Sertão: Veredas. Componentes do sótão e do porão, a casa do homem humano no sertão riobaldiano.

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O Sótão e o Porão do Grande Sertão

Há em Grande Sertão: Veredas, como n’Os Sertões, três elementos que estruturam a composição narrativa: a terra, o homem e a luta. Uma obsessiva presença física do meio; uma sociedade cuja pauta e destino dependem dele; como resultado o conflito entre os homens. Mas a analogia pára aí; não só porque a atitude euclidiana é constatar para explicar, e a de Guimarães Rosa inventar para sugerir, como porque a marcha de Euclides é lógica e sucessiva, enquanto a dele é uma trança constante dos três elementos, refugindo a qualquer naturalismo e levando, não à solução, mas à suspensão que marca a verdadeira obra de arte, e permite a sua ressonância na imaginação e na sensibilidade (COUTINHO, 1991, p. 295, 296).

Guimarães Rosa se debruça sobre o sertão brasileiro, afastado do litoral, cujos personagens se movem do norte de Minas Gerais ao sul da Bahia e de Goiás, tendo como referência essencial o Rio São Francisco. Onde fica o sertão? A narração de Riobaldo ao Doutor, desde as primeiras linhas romanescas, tenta estabelecer o cenário movente da obra: o sertão. Este cenário é o périplo de Riobaldo e Diadorim. No início de Grande Sertão: Veredas, após um esclarecimento sobre os tiros ouvidos e o caso de um bezerro cara de gente e do Demo, Riobaldo esclarece os fatos ao interlocutor:

O senhor tolere. Isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! (GSV, p. 23).

Segundo Kathrin H. Rosenfield, já “nos dois primeiros parágrafos do romance, a palavra inventada, o sertão, o demônio e a invenção poética são a verdadeira matéria vertente” (1993, p. 178). Neste palco, o sertão, os personagens vivenciarão suas inquietações metafísicas numa geografia bem delimitada, contudo ainda a ser descoberta.

Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões do oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de

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grossura, até ainda virgens dessas lá-há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda parte (GSV, p. 24).

O sertão, mais que um espaço físico, mais que um tempo cronológico, é uma projeção daquilo que é universal, perspectivas do imaginário vivido em cronotopias distintas, lugar de congregação de dimensões opostas, é um ponto físico correlacionando-se em um ponto cósmico onde medo e coragem são as ambivalências da existência. Luiz Costa Lima diz que:

O sertão então se transmuda. Ele não é apenas geografia em que pisara, mas a geografia ao dispor do homem. O sertão não é apenas mineiro, é o caminho da criatura. É o cosmos humanizado. Cosmos que não se vê ou se imagina de fora, pois que é dito por alguém cercado por ele, nele submerso e procurando direção (1969, p. 75).

O sertão é, nas palavras do autor e do narrador de Grande Sertão: Veredas, um espaço tempo “onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso [...] um mar de territórios, para sortimento de conferir o que existe?” (GSV, p. 41) [...] "O sertão é do tamanho do mundo" (GSV, p. 89) [...] "O sertão é sem lugar" (GSV, p. 370) [...] "Sertanejos, mire e veja: o sertão é uma espera enorme" (GSV, p. 591).

O que é professado, negado ou ultrapassado na obra roseana? Segundo

Vilém Flusser, no texto Guimarães Rosa e Geografia82 defende a tese de que:

O sertão é para Guimarães Rosa um pretexto extremamente bom para provocar uma nova revelação do ser, a substituir uma revelação cansada e profanada da tradição do ocidente. E provocar fazendo de conta que já se deu. Os sertanejos de Guimarães Rosa não são os sertanejos do sertão atual, mas de um sertão pós-histórico, isto é, posterior a ruptura do tempo.

O sertão se torna um emblema da polifonia de ordens e desordens do contraditório do Sagrado e do Profano inscritas na experienciação e na narrativa riobaldiana. Já que o sertão está em toda parte, a matéria vertente, a quintessência das coisas são descobertas no ziguezaguear divino-diábólico no Grande Sertão: Veredas: "Remei vida solta. Sertão: estes seus vazios" (GSV, p. 47), o que preenche

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esses vazios? O que dá sentidos ao cosmos humano? Se "no sertão, cada homem

pode-se encontrar ou se perder"83. Em todo o caso, "os lugares sempre estão aí em

si, para confirmar" (GSV, p. 43), e consequentemente, "ao sertão ambivalente advêm criaturas ambivalentes: homens e demônios" (COSTA LIMA, 1969, p. 79).

Qual é a novidade no Grande Sertão? Que há de intempestivo em chamá-lo de o primeiro romance metafísico da literatura brasileira? Uma nova revelação do ser, pós-cristã, que se dá em determinada geografia concreta, num lugar caracteristicamente brasileiro onde tudo é e não é. Onde está o sótão e o porão do Grande Sertão: Veredas? Mire e veja.

E nisto, que conto ao senhor, se vê o sertão do mundo. Que Deus existe, sim, devagarinho, depressa. Ele existe – mas quase só por intermédio da ação das pessoas: de bons e maus. Coisas imensas no mundo. O grande–sertão é a forte arma. Deus é o gatilho? (GSV, p. 359).

Regiões altas e baixas no sertão do mundo, uma verticalidade (ir)racional, pensamentos metafísicos, espaços e reflexões expressas a partir do cotidiano dos homens, entre suas heranças e vivencias culturais. Deus e o Demo estão no sertão, são entes necessários como sustentáculo para a religiosidade bem alicerçada no Grande Sertão. É a arma, é o gatilho para o viver e suas respectivas circunscrições do sagrado, neste caso, não penas o Demo, mas também Deus, está no redemoinho das palavras no Grande Sertão de Guimarães Rosa, a real encruzilhada da optatividade humana, as veredas tortas e as veredas mortas:

Rumo a rumo de lá, mas muito para baixo, é um lugar. Tem uma encruzilhada. Estradas vão para as Veredas Tortas - Veredas mortas. Eu disse, o senhor não ouviu. Nem torne a falar nesse nome, não. É o que ao senhor lhe peço. Lugar não onde. Lugares assim são simples – dão nenhum aviso. Agora: quando passei por lá, minha mãe não tinha rezado – por mim naquele momento? Assim, feito no Paredão. Mas a água só é limpa é nas cabeceiras. O mal ou o bem, estão é em quem faz; não é no efeito que dão. O senhor ouvindo seguinte, me entende. O Paredão existe lá. Senhor vá, senhor veja. É um arraial. Hoje ninguém mora mais. As casas vazias. Tem até sobrado. Deu capim no telhado da igreja, a gente escuta a qualquer entrar o borbolo rasgado dos morcegos. Bicho que guarda muitos frios no corpo. Boi vem do campo, se esfrega naquelas paredes. Deitam. Malham. De noitinha, os morcegos pegam a recobrir os bois com lencinhos pretos. Rendas pretas defunteiras. Quando se dá um tiro, os cachorros latem, forte tempo. Em toda a parte é desse jeito. Mas aqueles

83Guimarães Rosa em entrevista a Lorenz Günter. In: COUTINHO, Eduardo F. Guimaraes Rosa. Rio

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cachorros hoje são do mato, têm de caçar seu de-comer. Cachorros que já lamberam muito sangue. Mesmo, o espaço é tão calado, que ali passa o sussurro de meia noite às nove horas. Escutei um barulho. Tocha de carnaúba estava alumiando. Não tinha ninguém restado. Só vi um papagaio manso falante, que esbagaçava com o bico algum trem. Esse, vez em quando, para dormir ali voltava? E eu não revi Diadorim. Aquele arraial tem um arruado só: é a rua da guerra... O demônio na rua, no meio do redemunho... O senhor não me pergunte nada. Coisas dessas não se perguntam bem.

Assim se delineia o sótão e o porão em Grande Sertão: Veredas, a dimensão sacra e profana de um sertão tão humano quanto divino ou diabólico no qual Deus é o gatilho, em que "Deus é definitivamente, o demo é o contrário Dele" (GSV, p. 58). Não obstante, "o miolo mal do sertão residia ali" (GSV, p. 65). Walnice Nogueira Galvão (1972, p. 100) afirma que é normal toda essa discussão metafísica sobre Deus e o Diabo, porque “esses são os conceitos que estão ao alcance do narrador- personagem para efetuar a tentativa de demarcar os limites entre a liberdade humana e a necessidade imposta pelo sistema de dominação”.

Mas o demônio não existe real. Deus é que deixe se afinar à vontade o instrumento, até que chegue a hora de se dansar. Travessia, Deus no meio. Quando foi que eu tive minha culpa? Aqui é Minas; lá já é Bahia? Estive nessas vilas, velhas, altas cidades... Sertão é o sozinho. Compadre meu Quemelém diz: que eu sou muito do sertão? Sertão é dentro da gente (GSV, p. 325).

Tristão Ataíde, em O transrealismo de Guimarães Rosa, defende que o universalismo da obra roseana advém de uma poeisis que tenciona revoluciona o mundo, onde língua e religião são a mesma coisa, agentes da matéria vertente que move o sertão, e:

não é a toa que Guimarães Rosa é profundamente religioso. Dizem até místico. Isso se traduz em toda a atmosfera dos seus livros e no temperamento das suas personagens. Há sempre um mistério que cerca a paisagem, as figuras, os atos e as palavras do narrador. É uma áurea transrealista, que refoge a qualquer limitação pelos sentidos (COUTINHO, 1991, p. 143).

Para Franklin de Oliveira, no artigo A revolução Roseana, na obra roseana há uma constante referência à religião, “mas religião, para ele não era matéria teológica, sim instituição e sentimento do universo: o mundo e, nele, a radiosa

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aventura humana” (COUTINHO, 1991, p. 182). Vejamos isso em alguns casos do romance:

Riobaldo narra a história de um chamado Aleixo, homem das maiores ruindades que um dia, só por graça rústica, matou um velhinho desvalido que lhe rogava esmola. Logo, os filhos de Aleixo adoeceram gravemente, algum tempo passou e a doença se foi, contudo estavam cegos: três meninos e uma menina. E o Aleixo? Sim,

não perdeu o juízo; mas mudou: ah, demudou completo – agora vive da banda de Deus, suando para ser bom e caridoso em todas as suas horas da noite e do dia. Parece ate que ficou o feliz, que antes não era. Ele mesmo diz que foi um homem de sorte, porque Deus quis ter pena dele, transformar prá lá o rumo de sua alma (GSV, p. 28).

Logo adiante da história, mire e vejamos: tem um sujeito Pedro Pindó, homem de bem, de família, que tem um filho de uns dez anos, o Valtêi. Menino mau, que “babeja vendo, é sangrarem galinha ou esfaquear porco. - Eu gosto de matar...” (GSV, p. 29). O pai e a mãe tentam corrijí-lo, lhe dão severos castigos. Mas, a