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KAPITTEL 15 MANDAT OG PROSESS

15.2 P ROSESSEN

Descrevemos até aqui o corpo como ser-para-si. Importa agora tomarmos como objeto de estudo o corpo numa outra dimensão: o corpo-para-outrem. Todo este percurso, relembramos, para chegar à última dimensão desta tríade ontológica do corpo e a mais complexa: «Existo para mim como conhecido por outrem.» (Sartre. 1993, p. 357).135

Mas antes, o que é este corpo-para-outro? Diz-nos Sartre que o corpo do Outro, quando o encontro, é revelação, é «o desvelamento como objeto-para-mim da forma contingente tomada pela necessidade dessa contingência.» (Sartre. 1993, p. 350).136 O outro revela-se

como contingente na medida em que possui um determinado rosto e não outro em particular, ou órgãos sensíveis, ou cor, raça, altura. A própria carne é contingência da presença, que disfarçamos com roupas, cortes de cabelo ou maquilhagem, embora estes disfarces se desfaçam ao longo da convivência, restando a contingência pura da presença, conseguindo uma intuição pura da carne. Nesta intuição em que apreendo uma contingência absolta experiencio um tipo particular de náusea.

Não percebemos o corpo do outro como um objeto isolado, como um mero pedaço de carne em relação de exterioridade: «Mas outrem é-me originariamente dado como corpo em situação. Não há então, por exemplo, primeiro corpo e ação em seguida.» (Sartre. 1993, p. 350).137 O corpo do outro aparece, pois, na forma de se relacionar significativamente com a

sua totalidade, a sua vida em situação. Relaciona Sartre vida e ação:

Como a ação, a vida é transcendência-transcendida e significação. Não há diferença de natureza entre a vida concebida como totalidade e a ação. (…) A vida é o corpo-fundo de outrem, por oposição ao corpo-forma, enquanto este corpo-fundo pode ser apreendido, já não pelo para-si de outrem a título implícito e não-posicional, mas justamente de maneira explícita e objetiva por mim: ele surge então como forma significante sobre fundo de universo, mas sem cessar de ser fundo para outrem e precisamente enquanto fundo. (Sartre. 1993, p. 351).138

135 «J'existe pour moi comme connu par autrui (…).» (Sartre. 1993, p. 392).

136 «Le corps d'autrui, en tant que je le rencontre, c'est le dévoilement comme objet-pour-moi de la

forme contingente que prend la nécessité de cette contingence.» (Sartre. 1943, p. 383).

137 «Mais autrui m'est originellement donné comme corps en situation. Il n'y a donc pas, par example,

corps d'abord et action ensuite.» (Sartre. 1943, p. 384).

138 «Comme l'action, la vie est transcendence-transcendée et signification. Il n'y a pas de différence de

nature entre la vie conçue comme totalité et l'action. (…) La vie est le corps-fond d'autrui, par opposition au corps-forme, en tant que ce corps-fond peut être saisi, non plus par le pour-soi d'autrui à titre implicite et non positionnel, mais précisément explicitement et objetivement par moi: il paraît alors comme forme signifiante sur fond d'univers, mais sans cesser d'êtrefond pour autrui et précisément

Somente através deste corpo-fundo captamos o outro como vida: não é o simples captar de um órgão, mas o captar da totalidade sintética que o outro é para mim. Isto significa que o outro tem de ser captado estando em situação, para que apareça como totalidade. E assim, percebemos que a minha percepção do corpo do outro é, na sua raiz, completamente diferente da percepção das meras coisas e utensílios. Percebemos assim que ser objeto-para- outro ou ser-corpo equivalem, da mesma forma, ao ser para-outro do para-si. Mas este corpo do outro não deve ser confundido com a sua objetividade: «A objetividade de outrem é a sua transcendência como transcendida. O corpo é a facticidade dessa transcendência. Mas corporeidade e objetividade de outrem são rigorosamente inseparáveis.» (Sartre. 1993, p. 357).139

Passamos agora para a terceira e última dimensão ontológica do corpo: o corpo-para-outrem. Numa primeira dimensão percebemos que existo o meu corpo: o corpo-para-si. Seguidamente notámos que o meu corpo é utilizado e conhecido pelo outro: o corpo-para-outrem. Vamos agora debruçar-nos sobre a terceira e mais complexa dimensão ontológica do corpo: o facto de que existo para mim mas sou conhecido pelo outro: a relação de alteridade a partir do meu corpo.

Como vimos anteriormente, no ponto respeitante ao olhar, quando experimento a visão do outro sinto a revelação do meu ser objeto: da minha transcendência como transcendida. Este eu-objeto é uma fuga de mim mesmo para o outro: eu estou-aí para o outro. Este ser-aí é, de facto, o meu corpo:

O choque do encontro com outrem é uma revelação em seco para mim da existência de meu corpo, lá fora, como um em-si para o outro. (…) A profundidade de ser do meu corpo para mim é este perpétuo "fora" do meu mais íntimo "dentro". (Sartre. 1993, p.

358).140

O meu corpo está-aí para a omnipresença do outro, numa objetividade do meu ser. Nesse momento em que experimento a minha presentificação frente ao outro, o meu corpo torna-se alienado. Provo esta alienação através de estruturas afetivas como a timidez. O nervosismo, o embaraço, a transpiração, o enrubescer do tímido nada mais são do que a consciência do que o seu corpo é para o outro. A consciência, portanto, do seu corpo-alienado: «Parece-nos

139 «L'objetivité d'autrui est sa transcendance comme transcendée. Le corps est la facticité de cette

transcendance. Mais corporeité et objectivité d'autrui sont rigoreusement inséparables.» (Sartre. 1943, p. 391).

140 «Le choc de la rencontre avec autrui, c'est une révélation à vide pour moi de l'existence de mon

corps, dehors, comme un en-soi pour l'autre. (…) La profondeur d'être de mon corps pour moi, c'est ce perpétuel "dehors" de mon "dedans" le plus intime.» (Sartre. 1943, p. 392).

então que o outro realiza para nós uma função de que somos incapazes, e que, não obstante nos incumbe: vermo-nos como somos.» (Sartre. 1993, p. 359).141

No próprio corpo, se toco com a minha mão na perna, ou se com ela tento sentir as costas, esta mão não é mais do que um objeto no meio dos outros objetos, um objeto apreensível que indica o meu corpo como centro de referência. Percebemos que o nosso corpo nos escapa quando podemos agir sobre ele sob o mesmo ponto de vista do outro. Entendemos ainda que a percepção do meu corpo acontece, cronologicamente, depois da percepção do corpo do outro, tal como uma criança que procura com o olhar a mão que ele próprio retirou do seu campo de visão mas que espera, ainda assim, voltar a ver sem para isso fazer gesto algum. «O corpo é o instrumento que sou.» (Sartre. 1993, p. 364).142 O corpo é esta facticidade de ser no meio do mundo, onde as estruturas do corpo se ordenam de um ponto de vista diferente ao dos outros objetos.