5. Challenging Scientific Norms: ConCiencias vs. Capitalist Science
5.2 A Room with a View of Capitalist Science
Em Portugal, a criação da Rede de Bibliotecas Escolares, doravante RBE, é finalmente assumida como uma necessidade incontornável, por parte dos Ministérios da Educação e da Cultura. O estudo A Literacia em Portugal: resultados de uma pesquisa extensiva e monográfica, coordenado por Ana Benavente, veio reforçar a ideia da necessidade urgente de implementar uma rede de bibliotecas escolares, encarada como um recurso da máxima importância na redução dos baixos níveis de literacia. Assim, em Dezembro de 1995 é decido pelos Ministros da Educação e da Cultura adotar uma política com vista a promover os hábitos de leitura da população portuguesa, através da criação de uma rede de bibliotecas escolares, inserida numa política de incentivo da leitura pública – despacho conjunto nº 43/ME/MC/95 de 29 de dezembro.
Em 9 de janeiro de 1996, através do Despacho Conjunto nº 5/ME/MC/96, foi constituído um grupo de trabalho1 que tinha como missão não apenas efetuar um diagnóstico da situação em que se encontravam as bibliotecas escolares, mas também
1 Constituição do grupo de trabalho: Isabel Veiga (coord.), Cristina Barroso, José António Calixto, Teresa Calçada e Teresa Gaspar.
estabelecer princípios, linhas de orientação e o programa de lançamento de uma rede de bibliotecas escolares. O referido despacho menciona que o grupo de trabalho deverá analisar e propor medidas que visem:
(…) o incentivo à utilização do livro nas metodologias de ensino e na
organização do tempo escolar, e o desenvolvimento de bibliotecas escolares, integradas numa rede e numa política de incentivo da leitura pública mais ampla, que apoie e amplifique a ação da escola e que se mantenha ao longo da vida.
Num período de três meses, o relatório ficou concluído, vindo a constituir-se um documento fundamental para a implementação de uma nova fase nas bibliotecas escolares - Lançar a Rede de Bibliotecas Escolares (Veiga, et al., 1996). Neste relatório, para além de ser efetuado o diagnóstico da situação em que se encontravam as bibliotecas escolares, foram enunciados princípios gerais, estabelecidas bases de referência e linhas de orientação para as BE, desenhando-se, desta forma, o Programa para a implementação da RBE.
Na parte introdutória do relatório, confirmam-se as preocupações expressas na legislação e na literatura pedagógica, considerando as BE como recursos básicos, para além de se destacar a relação entre a acessibilidade a espaços e recursos de leitura e o nível de desempenho dos alunos.
Num mundo em que a informação e o conhecimento científico se produzem a um ritmo acelerado e em que é indispensável formar pessoas capazes de acompanhar a mudança, cabe às escolas e às suas bibliotecas a função essencial de criar e desenvolver nos alunos competências de informação, contribuindo assim para que os cidadãos se tornem mais conscientes, informados e participantes, e para o desenvolvimento cultural da sociedade no seu conjunto (Veiga et al., 1996, p. 16).
A biblioteca deve ser um espaço apelativo e estimulante onde os alunos encarem o livro e a informação não só como uma necessidade do dia-a-dia, mas também como fonte de prazer e desenvolvimento pessoal; onde possam alimentar o prazer de ler e de se informarem tendo à sua disposição fontes documentais disponíveis em vários tipos de suportes; e onde possam, ainda, habituar-se a selecionar e a gerir informação, e adquiram competências e autonomia no domínio da informação escrita, digital e multimédia.
No referido documento é sublinhada a centralidade da informação no currículo. Como tem vindo a ser referido, o aumento exponencial da informação, a diversidade de meios de difusão e a acessibilidade às fontes, permitida pelas tecnologias da informação, fazem com que seja necessário desenvolver nos alunos competências no domínio da seleção, tratamento, produção e difusão da informação; por conseguinte, qualquer medida que vise desenvolver os meios de acesso à informação nas escolas, assim como a capacidade de alunos e professores a utilizarem com fins educativos, deve sempre ser encarado como uma inovação pedagógica; o que, obviamente, implica mudanças nas estruturas existentes, nas atitudes dos professores e alunos.
A biblioteca escolar, entendida como centro multimédia onde a informação com fins educativos é tratada, integrada, disponibilizada e
produzida em diferentes suportes (…) constitui, por isso mesmo, um dos
principais recursos para o desenvolvimento curricular (…) (Veiga et al., 1996, p. 29)
Para que a biblioteca possa cumprir a sua função, necessita que os espaços, equipamentos e que a gestão e qualificação do seus técnicos obedeçam a critérios e normas rigorosas. No entanto, estas especificidades não devem ser motivo de exclusão face ao todo que é a escola, pelo contrário, a biblioteca deve ser encarada como uma unidade orgânica da escola, e o seu plano de atividades deve estar integrado no planeamento global da escola assim como no seu projeto educativo. Por outro lado, e no sentido de potenciar os seus recursos próprios e de complementar as suas atividades, as BE devem articular-se em rede; sendo importante que essa rede vá para além dos muros das escolas e acompanhe a evolução das políticas educativas que promovam a articulação entre os equipamentos da escola e outros equipamentos sociais da localidade.
Neste sentido, qualquer mudança que decorra numa BE, não deve ocorrer sem estar integrada num projeto pedagógico que vise novas formas de relação com o saber, novas formas de estruturar as situações de aprendizagem dos alunos e processos de formação dos professores. As mudanças que ocorrem numa biblioteca podem conduzir a mudanças da escola em geral; no entanto, como anteriormente referimos, essas transformações não podem ser impostas do exterior, devem corresponder a uma necessidade da própria escola; isto é, deve resultar de um processo endógeno, mas estimulado do exterior, e que seja flexível à sua apropriação por parte de professores e alunos, de acordo com as suas necessidades e dinâmicas.
Do relatório Lançar a Rede de Bibliotecas Escolares, de Veiga et al. (1996), faz parte um diagnóstico efetuado à situação das bibliotecas escolares em Portugal, dando nota de uma série de problemas a vários níveis, problemas esses, que já vinham sendo detetados por alguns autores que se debruçavam, já nessa altura, sobre a temática das Bibliotecas Escolares. As bibliotecas encontravam-se instaladas em espaços reduzidos e com deficiente localização; apesar de as escolas disporem de equipamento audiovisual, este, raramente era utilizado; o equipamento informático era insuficiente; mesmo quando a escola disponha de computadores, estes não estavam integrados na biblioteca; por outro lado, não existia software específico nem acesso a bases de dados à distância; o fundo documental era reduzido e pouco diversificado, as bibliotecas não possuíam orçamento próprio que lhes permitisse enriquecer o seu fundo documental, os recursos humanos eram insuficientes e não tinham formação específica para exercerem funções nas BE. No que dizia respeito ao tratamento do fundo bibliográfico, verificava- se que os procedimentos de catalogação não estavam normalizados, e os catálogos não eram eficazes no apoio à pesquisa bibliográfica efetuada por alunos e professores. No entanto, e apesar de todas as dificuldades e carências, dava-se nota do dedicado empenho por parte de muitos professores que se encontravam à frente das bibliotecas escolares, no sentido de divulgarem as potencialidades das bibliotecas e de dinamizarem os serviços que disponibilizavam. Em síntese: “pode afirmar-se que existe dinâmica pedagógica nas escolas visando estimular o interesse pelo livro e pela leitura, [a qual] decorre do empenho dos professores (…) (Veiga et al., 1996, p. 27).