A unidade da Igreja não deve ser compreendida como a simples soma dos membros ou quiçá das Igrejas cristãs. Seu princípio e fundamento estão para além dos elementos funcionais, estão no próprio Deus Triuno que reúne seu povo em Jesus Cristo pelo Espírito Santo. O Evangelho de João evidencia isto ao testemunhar a oração de Jesus ao Pai pela unidade: “a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 21).
Em Cristo, que revela o plano salvífico encarnando-o, manifesta-se o modo humano de responder ao plano de Deus. Segundo Küng, ele “aboliu não só a contradição entre o homem e Deus, mas também a inimizade entre os homens; Ele é o fundamento da unidade da sua Igreja”.337 Assim sendo, o fundamento da Igreja está numa esfera para além das divisões e
335 KASPER, W. A Igreja Católica: essência, realidade e missão, p. 204. 336 KASPER, W. A Igreja Católica: essência, realidade e missão, p. 157. 337 KÜNG, H. A Igreja, p. 21.
distanciamentos. Ela “brota dum só acontecimento salvífico e duma comunidade de discípulos, de testemunhas e de servidores”.338
Cabe observar como esta questão da unidade tem sido alvo de críticas diante das inúmeras divisões. Ou “poderemos nós estranhar que o mundo, que um observador teologicamente desprevenido, verifique concretamente não só a divisão da cristandade, mas também da Igreja de Jesus Cristo?”339 – interroga Küng. Como colocar-se diante destas
críticas e, ainda mais, poder testemunhar tal unidade?
Lançar a questão para o campo de uma escatologia desligada da história concreta poderia levar a uma espécie de fuga. É preciso enfrentar a questão. Entender que “a unidade da Igreja nada tem a ver com a magia mitológica do número um, com a fascinação da unidade considerada em si mesma”.340 Não se trata de uma questão meramente moral, sociológica,
uniformista ou mesmo ideológica.
Fundamentá-la em exterioridades seria reduzi-la ao funcional e desconhecer sua verdadeira fundamentação. A unidade implica compreender que “não é, antes de mais, unidade dos membros entre si, o seu fundamento último não está em si mesma, mas sobre a unidade do próprio Deus, a qual é eficaz através de Jesus Cristo, no Espírito”.341 Situada na
unidade trinitária, esta nota Ecclesiae supõe uma plural-singularidade.
A unidade, em termos cognitivos, “não é um número, mas a medida dos números e, desse modo, da pluralidade”342, diz Kasper. Por isso, fundamentado na Trindade, concebida
como unidade plural e intimidade relacional no amor, o agir cristão, ao assumir em sua identidade esta nota Ecclesiae, torna-se mundo contemporâneo sinal (graça) e instrumento (tarefa) primordial de relação e diálogo.
Assim, entende-se que, “apesar de sua origem transcendente, a unidade, enquanto tarefa dos cristãos na Igreja, deve crescer até a perfeição escatológica”.343 Este crescimento
não se restringe à vida cristã apenas ad intra, mas implica numa vivência também ad extra, o que torna esta nota Ecclesiae uma nota christiana com indicativo relacional. Daqui decorre o sentido de todo o esforço cristão pela paz e pela verdadeira concórdia (cf. Ef 4,3), fundado na Trindade.
Vê-se de fato que unidade é uma questão mordente na humanidade, que precisa cuidar para não confundi-la com uniformidade, mas vê-la como uma plural-singularidade.
338 KÜNG, H. A Igreja, p. 21. 339 KÜNG, H. A Igreja, p. 20. 340 KÜNG, H. A Igreja, p. 24. 341 KÜNG, H. A Igreja, p. 24.
342 KASPER, W. A Igreja Católica: essência, realidade e missão, p. 207.
Esta pluralidade remete à grande família humana, como evoca a Declaração Universal dos Direitos Humanos no primeiro artigo344, quando faz entender que, assim como “nenhuma
pessoa em si é um absoluto, também não o é nenhuma nação”.345 Tal princípio, sinalizado pela
fraternidade, revela o anseio humano por um convívio pacífico e pelo reconhecimento da singularidade de cada membro da família humana.
Por isso, a incidência dos conflitos é sempre lastimável, pois “é a comunidade de pessoas, o concerto das nações, conjuntamente, que assegura intra-historicamente as possibilidades humanas”.346A situação dos refugiados e das inúmeras regiões em conflito, por
exemplo, mostram como a unidade precisa ser, de fato, assumida como caminho de superação, uma vez que comporta o diálogo, a singularidade, a pluralidade e a reconciliação.
Diante deste quadro, a nota Ecclesiae da unidade corrobora a participação cristã na vida social como exercício de cidadania. O bem comum, como expressão dos bens sociais a serem salvaguardados e conquistados, é um exemplo do quanto esta nota Ecclesiae tem relevância social e consequência na expressão de fé.
Da unidade emerge a fraternidade e, nela, a solidariedade como um compromisso que se “concretiza através de gestos, fatos e pessoas expressivas no concerto global dos povos, bem como no concerto cotidiano e rotineiro de todo os grupos e pessoas”.347 Desperta
no cristão o entendimento de que a unidade para a qual é chamado a colaborar não é um isolamento elitista, mas trata-se, sobremaneira, de um empenho humanitário em “meio a tensões in-humanizantes e in-humanas”.348
Ser sinal da unidade passa pelo fundamento bíblico de que a humanidade participa do mesmo destino que não permite indiferenças e apatias perante as urgências do mundo, pois “de um só ele fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra” (At 17,26). Destino este que já contou com a empresa de grandes nomes, como Luther King, Teresa de Calcutá, Charles de Foucault, Chiara Lubich e tantos outros.
344 “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de
consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. ONU. Declaração universal dos
direitos humanos, art. 1.
345 RIBEIRO, H. A condição humana e a solidariedade cristã, p. 56. 346 RIBEIRO, H. A condição humana e a solidariedade cristã, p. 56. 347 RIBEIRO, H. A condição humana e a solidariedade cristã, p. 61. 348 RIBEIRO, H. A condição humana e a solidariedade cristã, p. 110.