Chapter three: ResultsChapter three: Results
3.2. Results of the qualitative study
3.2.5. The role of the health personnel
Para a gerente geral do Mussulo Resort o empreendimento foi responsável “pela geração de empregos, crescimento do turismo na região, treinamento e capacitação de seus colaboradores, além da promoção do destino” e fortalecimento do turismo em nível nacional e internacional. O emprego é justificado quando afirma que 80% da mão de obra do resort é local (mesmo percentual indicado pelo secretário de turismo), ocupando diversas funções, que não foram reveladas. Entretanto, acredita-se que o empreendimento não compra seus produtos no município, embora tenha sido confirmado apenas que eles não possuem parceria com agricultura familiar. Apesar de não confirmarem de onde provinham os produtos, declararam apenas que o “processo de compras segue a regras próprias pré-estabelecidas em procedimento interno”. Supõe-se, então, que o empreendimento siga as regras de concorrência do mercado.
A líder da Associação de Turismo Costa de Conde também acredita que o Mussulo contribuiu para a divulgação do destino na medida em que “colocaram o nome do município no mapa nacional”, pois o empreendimento tem condições de
divulgar o destino em espaços mais onerosos como revistas nacionais e internacionais. Para ela, não existe uma concorrência desleal com o resort, já que o público alvo é totalmente diferente. O impacto positivo citado por ela com a chegada dos resorts na região é o emprego e o negativo estaria ligado à questão ambiental, dependeria da área onde fosse construído.
Por outro lado, o líder dos barraqueiros da Costa de Conde acredita que nas condições atuais de infraestrutura do município o impacto do Mussulo e demais resorts é negativo, uma vez que “o município não está preparado para receber”. Ele explica que o resort “está gerando exclusão social, aumenta a violência porque existe uma revolta social” pelo empreendimento não trazer reais benefícios à comunidade e ao município. Ele explica que como a cidade não oferece nenhum atrativo para o turista, este último só se desloca no máximo para João Pessoa, não movimentando o comércio local. Lembra também que as compras do resort não são feitas no município e por questão do preconceito estes turistas não frequentam nem mesmo as barracas da praia, uma vez que possuem um ponto deles na praia. Como membro do Comitê Orla, ele afirma, inclusive, que o restaurante à beira mar não possui “nenhuma licença do projeto orla”, mas que “a questão financeira está mandando e deixando ele alí”. Ele acredita que este investimento foi pensado como um potencial para o futuro, inclusive pela aproximação da Copa do Mundo. Um fato curioso, entretanto, foi citado apenas por este entrevistado:
O Mussulo tem uma carga de energia que prejudicou toda a costa de Conde, como ele precisa de muita energia, de vez em quando tem um apagão. A energia que ele puxa para ali é da metade da costa de Conde. A Energisa não se preparou pra receber aquilo ali. Se instalar esses resorts todos em um ano a gente vai ter um colapso energético, um apagão na cidade.
Contudo, este entrevistado se mostrou favorável aos resorts se as condições de infraestrutura melhorar: “Se organizar o município pra receber eu sou a favor”, enfatizando que também é preciso pensar no “crescimento sustentável” do município.
Tanto a líder da ATCC como o líder dos barraqueiros tinham conhecimento dos projetos em andamento para a construção de outros resorts na região, e ambos são contra apenas o complexo da Reserva de Garaú, pela localização, isto é, por estar situado dentro de uma APA. Neste aspecto, o líder dos barraqueiros alertou: “Se continuar dessa forma, nós não vamos ter reserva ali, mata nenhuma”.
Numa visão mais radical encontra-se o líder da Associação Tambaba Nua, que acredita que os impactos trazidos com os resorts são apenas negativos. Considera ainda que os resorts não geram emprego e renda, e se gerar seria muito pouco frente aos impactos ambientais, desconhecendo inclusive qualquer membro de sua comunidade que trabalhe no Mussulo. Para ele, enquanto comerciante de Tambaba, os resorts também não aquecem o comércio local porque o turista de resort fica apenas dentro do estabelecimento, só gerando renda para eles. Aliado a isto, ele também afirmou que as compras de um resort não são feitas na comunidade: “Isso já vem tudo de fora, pelas distribuidoras” e que o dinheiro vai para fora do país, como é o caso do Mussulo que é angolano, lembrando ainda que os resorts que querem vir para a região, geralmente, são de grupos estrangeiros. Por tais motivos e, sobretudo, pela questão ambiental, o entrevistado se mostrou totalmente contra os resorts na região, embora só tivesse conhecimento do projeto da Reserva de Garaú. Em relação a este empreendimento, especificamente, ele explicou que tipo de impactos ambientais seriam causados:
Nós vamos perder a nossa mata, tem muita coisa em extinção, nós temos um dos cajueiros mais velhos do mundo aqui, nós temos a sucupira branca aí dentro, nós temos muitos animais, nós temos macacos, cobras jiboias [...] tatu, muitos animais mesmo silvestre e eles não vão ter para onde ir. No sábado eu estava aqui e tinha um camaleão a dois metros aqui andando, coisa linda, o saguim vem comer aqui, nós temos não sei quantas famílias de saguins. É uma coisa que vai desaparecer. Seus netos não vão chegar a alcançar isso se fizer esse resort.
Como a comunidade naturista é bem engajada com as questões ambientais e bastante mobilizada a nível nacional e internacional, podemos deduzir que a entrada desse complexo pode trazer um grande conflito socioambiental, visto que a comunidade está contra e já fez um abaixo-assinado há três anos quando a discussão ainda era incipiente. Este líder de associação explicou que o complexo traria um impacto muito grande, acrescentando que “não existe um projeto desse tamanho” no Nordeste e enfatizando seu posicionamento a favor de um desenvolvimento sustentável para o turismo.
Os quatro representantes do setor privado garantiram empregar mão de obra local em seus estabelecimentos, mas quando questionados se compravam produtos dos comerciantes locais, o Mussulo não quis responder e a ATCC afirmou comprar esporadicamente, quando encontra os produtos. Quando é peixe, por exemplo, ela afirma que os pescadores nunca têm a quantidade que precisam, afirmando que
eles não seriam auto-suficientes e que estariam comprando de fora também. Esta questão foi contestada pelos pescadores locais.
Desta forma, existe uma divergência de opiniões no setor privado em relação a esses resorts. Para a Associação de Turismo Costa de Conde, que inclui pousadas, restaurantes e o próprio Mussulo resort, estes empreendimentos devem trazer mais impactos positivos do que negativos por ajudarem a promover o destino e trazerem emprego e renda para região. Por outro lado, para os comerciantes e barraqueiros locais os impactos são mais negativos pelo fato dos turistas de resorts não terem contato com outros serviços fora os fornecidos pelo empreendimento e pelos problemas ambientais que provocam.