3. LITERATURE
3.4. The role of the European Union
Na mitologia grega existe uma lenda segundo a qual Sísifo foi obrigado a realizar um trabalho que consistia em carregar uma pedra até o alto de uma montanha, de onde ela rolava sucessivamente, tornando interminável sua tarefa, ou seja, foi condenado a realizar um trabalho que, sem objetivo e sem sentido, se constitui em pesado castigo (Tittoni,1994).
O trabalho ao longo do tempo foi adquirindo vários significados para o homem. Concebido como castigo e penitência no início do cristianismo e glorificado na reforma protestante, quando passou a ser visto como virtude e salvação – visões que ainda hoje povoam o imaginário popular –, é ainda na atualidade considerado por grande parte de analistas sociais categoria central para pensar a vida social.
Dentre esses analistas podemos destacar Cristhophe Dejours (1990), que, com o desenvolvimento da psicodinâmica do trabalho, oferece elementos para a compreensão das formas de organização do trabalho e da vivência dos trabalhadores que nelas desenvolvem suas atividades e passam grande parte de sua vida. Entre suas contribuições está o conceito de sofrimento psíquico no trabalho, apontando para algo com que cada um tem que lidar em sua vida.
A psicodinâmica do trabalho considera a organização do trabalho a principal responsável pelo surgimento de experiências danosas ou não ao psiquismo do trabalhador (Dejours,1990). O trabalho prescrito é insuficiente para responder à realidade da produção. A organização do trabalho real, diferente da prescrita, para ser constituída, solicita do trabalhador o uso de sua criatividade, de sua capacidade de detecção da variabilidade e reinterpretação das tarefas, sendo resultado das
relações intersubjetivas e sociais no ambiente de trabalho. Diante da variabilidade da vida e dos limites da prescrição, os operadores são impelidos a descobrir os ajustamentos, as formas de regulação necessárias ao fluxo da produção. Assim, no cotidiano de trabalho são mobilizados pelos sujeitos processos psíquicos, relativos à invenção, imaginação, inovação e criatividade.
A distância existente entre o trabalho prescrito e o que é necessário para dar conta da produção é sentida pelos trabalhadores, que sofrem as conseqüências em seu corpo, seu psiquismo, sua vida pessoal e profissional. Na verdade, não fosse a mobilização das competências individuais e coletivas engendradas, a produção baseada apenas na prescrição não aconteceria. No entanto, cabe assinalar o fato de ser a prescrição também fundamental, pois ela é parte do patrimônio coletivo. Nossa crítica refere-se ao uso da prescrição como ficção que pretende dispensar o saber do trabalhador e negar sua competência, ditando regras como se fossem as únicas formas de realizar o trabalho. Mesmo nesse contexto os trabalhadores desenvolvem laços de cooperação entre si, nos diferentes postos de trabalho e demais serviços da empresa, subvertendo as prescrições, trapaceando as regras, em intensa atividade mental, para que a produção aconteça na quantidade e qualidade almejadas. Tudo a um custo que pode ser elevado para sua saúde, e esse é um ponto relevante para nossa análise.
O trabalho desenvolvido em certas condições exerce pressão psíquica sobre o trabalhador, gerando sofrimento devido ao embate entre expectativas e projetos de vida do trabalhador e uma dada organização do trabalho que não abra espaço para que eles sejam considerados.
É importante frisar que, segundo Dejours (1990), o homem não é necessariamente passivo diante da rigidez das regras e da relação hierárquica, sendo capaz de reagir e organizar-se mental, afetiva e fisicamente, ou seja, o sujeito investe sentido em sua relação com o trabalho, sentido esse que tem relação com sua história passada, suas experiências afetivas anteriores, além de com suas expectativas atuais.
A capacidade criadora, imaginativa e fantasiosa do sujeito para dar um sentido à situação de trabalho para si tem relação com a possibilidade de ressonância simbólica, com sua história pessoal, com sua infância, com seu relacionamento afetivo com os pais. Essa capacidade pode ser utilizada pelos trabalhadores para o enfrentamento das situações de trabalho e para se manter no campo da normalidade, constituindo-se assim um enigma: como esses trabalhadores usam essa energia psíquica para não adoecer?
A intuição do trabalhador é considerada por Dejours (1990) uma das características da inteligência prática, também denominada inteligência do corpo, que se desenvolve a partir da percepção sensível de tudo que envolve o trabalho, como o cheiro, a temperatura, o ruído, coisas que só o uso de si e a experiência permitem. Como apenas a prescrição por si só não responde às exigências cotidianas do trabalho, a inteligência astuciosa precisa ser mobilizada, até para superar o sofrimento a que essa insuficiência da prescrição submete o trabalhador.
A inteligência astuciosa necessitaria, além dos requisitos individuais dos trabalhadores, dos requisitos sociais, ou seja, da validação social que se expressa no reconhecimento por parte da hierarquia da utilidade de seu trabalho e no reconhecimento de seus pares (coletivo ou comunidade de pertença) de sua habilidade, inteligência e originalidade, o que vem a contribuir para o aumento da auto-estima do sujeito.
Dejours (1990) refere-se ainda à existência de “regras de ofício”, que são as formas de trabalhar em conjunto e que passam fundamentalmente por relações de confiança entre os trabalhadores. Essas regras são técnicas e, principalmente, éticas.
Segundo o autor, o sujeito trabalhador necessita perceber o sentido do trabalho para que a inteligência astuciosa entre em cena. O trabalho real envolve um teatro que precisa entrar em ressonância simbólica, em concordância com invocações da história singular do sujeito, de sua infância e com sua capacidade de mentalização de representações psíquicas, dos jogos infantis, dos fantasmas, do teatro interno. É preciso que haja ressonância simbólica entre estes dois teatros: o da vida amorosa e o da vida laboral. No caso das merendeiras e serventes, o fazer refeições e o higienizar os espaços podem reportar-se a lembranças de mulheres cozinhando e limpando, a aromas e sabores – afazeres domésticos que as meninas desde muito cedo são incentivadas a praticar, auxiliando suas mães no cuidar da família e alimentá-la.