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Esta seção tem como objetivo apresentar os procedimentos adotados para analisar os dados levantados. Busca-se, neste momento da pesquisa, articular as informações produzidas por meio das técnicas de coleta descritas, ou seja, observação, entrevistas e autoconfrontação simples e cruzada, sempre à luz do referencial teórico adotado. É importante lembrar que, na pesquisa qualitativa, o processo de análise ocorre de forma interpretativa, como argumenta Rey (2005, p. 47): “o conhecimento se produz em um processo construtivo-interpretativo do pesquisador sobre as expressões múltiplas e complexas dos sujeitos estudados”. Assim, o processo de análise constituiu-se em um movimento analítico-interpretativo, no qual, como bem salienta Soares (2011, p. 137), “a análise é sempre histórica e determinada pelos sentimentos e emoções de quem analisa”.

O processo de análise e interpretação dos dados foi realizado de acordo com a proposta de Aguiar e Ozella (2006), denominada “Núcleos de significação como instrumento para a apreensão da constituição dos sentidos”, com o intuito de buscar uma maior aproximação dos sentidos e significados constituídos pela professora em relação às dificuldades de aprendizagem. Ao discorrer sobre essa proposta metodológica, Soares (2011, p. 138) afirma que, nela, “o pesquisador tem a obrigação de não apenas descrever, decompor e articular dados empíricos, mas, também, a partir da manipulação teórica desses dados, penetrar as zonas de sentidos do sujeito e, com isso, inferir e explicar os movimentos da realidade investigada”.

A análise teve início com sucessivas leituras “flutuantes” do material gravado e transcrito da entrevista com a professora e das sessões de autoconfrontação simples e cruzada. Pretendia-se, com isso, alcançar uma boa familiarização e apropriação de seus conteúdos. Essas leituras permitiram destacar e organizar os pré-indicadores, ou seja, identificar os vários temas presentes nos relatos analisados e, ainda, sua frequência na fala do sujeito, seja por repetição ou reiteração, por apresentarem uma carga emocional ou, ainda, por suas contradições. Os pré-indicadores foram bastante numerosos e compuseram um quadro amplo de possibilidades para serem aglutinados em indicadores, de acordo com a orientação de Aguiar e Ozella (2006). O critério básico para filtrar os pré-indicadores foi o de sua importância na compreensão do objetivo da investigação. Vale ressaltar que o levantamento de pré-indicadores foi realizado com o material transcrito da entrevista e de cada sessão de autoconfrontação separadamente, ou seja, ao fim desse procedimento, contava-se com três

 

diferentes quadros de pré-indicadores, cada um deles com material proveniente de uma determinada técnica de coleta e produção de dados (ver anexos 5, 6 e 7).

Os pré-indicadores levantados foram reunidos com base nos critérios de similaridade, complementaridade, contraposição ou contradição, dando origem aos indicadores. Esses critérios, vale lembrar, não são mutuamente excludentes nem necessariamente isolados entre si, de modo que podem ter significados diversos em condições específicas: “Os indicadores só adquirem significado quando inseridos e articulados na totalidade dos conteúdos temáticos apresentados, ou seja, na totalidade das expressões do sujeito” (AGUIAR; OZELLA, 2006, p. 13). O número de indicadores, expressivamente menor do que o de pré-indicadores, permitiu caminhar em direção à constituição dos núcleos de significação. Segundo Aguiar e Ozella (2006, p. 229), “este momento já caracteriza uma fase do processo de análise, mesmo que ainda empírica e não interpretativa, mas que ilumina um início de nuclearização”. Ainda em relação aos indicadores, eles foram aglutinados com base nos pré-indicadores advindos das falas da entrevista e das autoconfrontações separadamente, originando, assim, três quadros distintos.

Teve início, então, o processo de organização e articulação dos indicadores, o que levou à constituição dos núcleos de significação. Os indicadores que possibilitaram a identificação dos conteúdos presentes na fala (e suas múltiplas relações), revelando e objetivando a essência dos conteúdos expressos pelo sujeito, foram também articulados com base nos mesmos critérios: semelhança, complementaridade, contraposição e/ou contradição. É importante mencionar que foi tomada a decisão de formar os núcleos de significação a partir dos indicadores encontrados por meio de instrumentos distintos: a fala da professora na entrevista, na ACS e na ACC. Embora esses indicadores sejam provenientes de três técnicas diferentes de coleta de dados, caracterizando três momentos e três contextos bastante distintos e específicos da fala da professora, optou-se por reuni-los. Essa decisão se deu porque, uma vez realizadas as leituras do material transcrito e definidos os pré-indicadores e indicadores provenientes de cada uma dessas técnicas, percebeu-se a semelhança, a complementaridade, a contraposição ou a contradição existentes entre eles.

Assim, notou-se que, se fossem formados núcleos isolados para cada um desses momentos da fala da docente, eles trariam conteúdos bastante repetitivos e, em especial, não dariam conta de articular a complexidade dos sentidos atribuídos pela professora às “dificuldades de aprendizagem” dos alunos. Apesar da compreensão acerca das peculiaridades relativas a cada um desses diferentes contextos de fala da professora,

considerou-se que eles tratam da mesma atividade e dos mesmos conteúdos, situação que possibilita articular, em núcleos conjuntos, indicadores provenientes de distintos momentos. Acredita-se que essa junção proporcionou mais e melhores articulações entre os indicadores, algo que dificilmente se obteria caso os dados produzidos por meio de diferentes técnicas fossem analisados separadamente.

Estabelecida a organização dos núcleos, foi possível verificar algumas transformações e contradições que ocorreram no processo de constituição de sentidos e significados relativos às dificuldades de aprendizagem. Considera-se que, desse modo, foi possível alcançar uma análise mais consistente, capaz de ir além da aparência, por considerar as condições subjetivas, sociais e históricas do sujeito e de seu ofício naquele momento e local. Nesta etapa do processo, esperava-se um número bem reduzido de núcleos, a fim de evitar o retorno aos indicadores. De acordo com os propositores dessa forma de análise:

[...] é nesse o momento em que, efetivamente, iniciamos o processo de análise e avançamos do empírico para o interpretativo. Os núcleos resultantes devem expressar os pontos centrais e fundamentais que trazem implicações para o sujeito, que o envolvem emocionalmente, que revelam as suas determinações constitutivas. (AGUIAR; OZELLA, 2006, p. 230).

Seguindo a proposta dos autores, a nomeação dos núcleos foi extraída da própria fala da professora, utilizando uma ou mais de suas expressões, de modo a compor uma frase curta, que ilustrasse tanto a articulação realizada na elaboração dos núcleos quanto o processo e o movimento do sujeito. Dessa forma, os nomes dos núcleos expressaram o que eles tinham de central, ou seja, o que, a partir do movimento interpretativo da análise, foi percebido como essencial em sua compreensão. A análise dos núcleos de significação foi realizada, inicialmente, para cada núcleo (intranúcleo), avançando, posteriormente, para uma análise capaz de articular os conteúdos dos vários núcleos (internúcleos). Esse procedimento tentou apreender, notadamente, as contradições, pois se considera que são elas que revelam o movimento do sujeito. Tais contradições – vale ressaltar – não se encontram necessariamente expressas na fala dos sujeitos, devendo ser apreendidas por meio da análise interpretativa do pesquisador, uma vez que o procedimento adotado busca avançar do empírico para o interpretativo, isto é, da fala para seu sentido. Dessa forma:

[...] o processo de análise não deve ser restrito à fala do informante: ela deve ser articulada (e aqui se amplia o processo interpretativo do investigador) ao contexto social, político e econômico ou, em síntese, histórico, por permitir acesso à compreensão do sujeito, na sua totalidade. Assim, só avançaremos na compreensão dos sentidos, quando os conteúdos dos núcleos forem articulados. (AGUIAR; OZELLA, 2006, p. 230).

 

Os núcleos de significação foram analisados à luz do contexto social e histórico, sempre com base na teoria sócio-histórica. É importante ressaltar que, a fim de alcançar uma aproximação dos sentidos constituídos pelo sujeito, é fundamental considerar suas determinações constitutivas, suas necessidades e sua atividade. Enfim, é fundamental situá-lo sócio-historicamente. Em consonância com os pressupostos teóricos e metodológicos apresentados, a análise e a interpretação dos núcleos de significação compuseram-se por meio de um movimento que buscou articular dois referenciais teóricos: o da Psicologia Sócio- Histórica e o da Clínica da Atividade. Dessa forma, procurou-se apreender as mediações constitutivas do sujeito, suas necessidades e seus motivos, bem como os significados compartilhados com outros docentes, em busca dos sentidos constituídos pelo próprio sujeito. Pretendeu-se, também, articular a tarefa, o real da atividade e a atividade real, de forma que, partindo da realidade empírica, fosse possível apreender o movimento contraditório criado entre as prescrições da tarefa e a atividade realizada, para, assim, alcançar o real da atividade. Na análise dos núcleos, foram também consideradas as mediações do gênero e do estilo, bem como as possíveis reflexões e transformações na atividade docente geradas pelo processo de análise da própria atuação profissional ao longo do processo de autoconfrontação.

CAPÍTULO IV

APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

O presente capítulo tem como objetivo apresentar os dados coletados por meio das técnicas anteriormente descritas – observação, entrevista e autoconfrontação – bem como ilustrar o processo de análise dos núcleos de significação. Assim, o capítulo tem início com uma breve exposição do contexto da pesquisa, na qual são descritos o município e a escola em que foi realizada a coleta de dados; a seguir, é apresentada uma caracterização do sujeito da pesquisa, com base nos dados levantados durante a entrevista e a observação das aulas ministradas. Na sequência, é apresentado o quadro contendo os núcleos de significação e seus respectivos indicadores, compostos pelos conteúdos advindos da entrevista e das sessões de autoconfrontação. O capítulo apresenta, então, a análise de cada um dos núcleos de significação, ou seja, a análise intranúcleos. Finalmente, os núcleos são articulados entre si, configurando a análise internúcleos.