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A professora que se disponibilizou a fazer parte da pesquisa foi extremamente cordial, atenciosa e colaborativa durante todo o processo de levantamento de dados. A seguir, são apresentados alguns aspectos de sua história de vida considerados importantes para possibilitar uma melhor compreensão de seu percurso e de sua formação como docente.

No momento da coleta de dados, Cássia12 tinha 37 anos, era casada e mãe de dois filhos: um menino de 17, que também gostaria de seguir carreira no magistério, e uma menina de 15. Essa professora lecionava para o 1o ano do Ensino Fundamental em uma escola municipal, na qual atuava havia oito anos, sempre em séries iniciais, ou seja, como professora alfabetizadora. Sua carga horária era de 40 horas semanais. Antes disso, Cássia havia trabalhado, durante um período de sete anos, como professora de classes multisseriadas em uma escola rural de um povoado localizado nos arredores de Lençóis.

Segundo seu relato, um dos principais fatores que a levaram a decidir-se pela docência foi sua trajetória como estudante, fortemente marcada por uma professora que desempenhou

 

um papel fundamental nessa história. De acordo com Cássia, essa professora era muito carinhosa e, ao mesmo tempo, empenhava-se muito para que todos os alunos aprendessem. Trabalhava segundo o método tradicional, utilizando a cartilha como principal material pedagógico, mas ensinava também valores e princípios éticos, opondo-se radicalmente, por exemplo, à forte discriminação racial que existia dentro e fora da escola. Segundo Cássia, essa professora lhe despertava muita admiração, fator determinante em sua escolha pela profissão docente.

Outro aspecto fundamental no processo de escolha de Cássia foi a falta de opções profissionais no município de Lençóis. Fica evidente em seu relato que, apesar de gostar muito de ser professora, caso fosse mais amplo seu escopo de opções profissionais, sua primeira opção não seria a docência. Comentou seu interesse e sua admiração pela profissão de enfermeira, que escolheria caso lhe fosse possível. Disse, ainda, que a desvalorização da docência em termos de remuneração salarial era um fator que a faria considerar outras profissões, uma vez que seu salário não era suficiente, por exemplo, para manter os filhos em uma boa faculdade. Antes de começar a trabalhar como professora, Cássia atuou como cozinheira, atendente de hotel e recepcionista da Secretaria de Educação. Desempenhou essas atividades profissionais até aparecer uma oportunidade como professora na zona rural em um povoado nos arrabaldes de Lençóis, como já mencionado.

Dessa forma, Cássia deu início a sua carreira docente sem nenhuma formação específica para isso. Inclusive, até o momento em que se realizou o levantamento de dados para a pesquisa, ela ainda não contava com tal formação. Estava cursando o 7o semestre da faculdade de Pedagogia, e lhe faltava ainda um ano para que se graduasse como pedagoga. Assim, não havia concluído nem a formação inicial, apesar de atuar como docente há quase 15 anos. Fica bastante claro, no discurso de Cássia, que o curso que realizava estava contribuindo para seu desempenho na atividade docente: “Mas, aí, depois que eu entrei na faculdade, muita coisa melhorou... E, aí, eu pude investir mais nisso, com embasamento teórico, né? Fui percebendo que eu estou indo na linha certa”. De fato, por algumas vezes ao longo da entrevista, a professora reiterou que a faculdade estava lhe fornecendo os subsídios teóricos para refletir sobre sua prática em sala de aula e aperfeiçoá-la. Quando indagada sobre a importância da formação inicial para sua atividade docente, respondeu:

Essa importância, assim, de que a gente não trabalha aleatoriamente: você tem um embasamento para trabalhar e você tem o conhecimento para estar entendendo melhor o aluno... Essa vinculação da teoria com a prática...

Tudo que eu aprendo lá, eu tento colocar em prática. [...] Ajuda bastante

mesmo, uma coisa que eu quero entender. E vou fazer psicopedagogia também, depois que eu concluir a faculdade.

Cássia também ressaltou, na entrevista, que desde o início de sua trajetória docente, sempre preferiu trabalhar com classes de alfabetização, por considerar que esta constitui a base fundamental do ensino. Sua preferência por ensinar crianças entre cinco e sete anos vinha ainda do fato de considerá-las mais respeitosas e compreensivas do que os alunos mais velhos ou adolescentes. Afirmou que via seus alunos “como seres pensantes, que já trazem muito conhecimento” e que considerava importante sempre valorizar e compartilhar esses conhecimentos. Mencionou, inclusive, que essa valorização dos conhecimentos prévios dos alunos era justamente um dos pontos positivos de sua prática como professora .

Ao ser indagada sobre aquilo de que gostava em sua atividade profissional, Cássia relatou:

Eu gosto de trabalhar com crianças... Eu sei que é desvalorizado, é muito desvalorizada essa nossa classe [profissional], mas eu gosto de trabalhar,

eu me sinto muito satisfeita ao ver que as crianças estão aprendendo...

Estão aprendendo de uma maneira diferente, mas estão aprendendo... E de valorizar isso também, a sala de aula como um todo... Porque, antigamente, a gente trabalhava de outra maneira, trabalhava com a cartilha... E, hoje em dia, a gente pode trabalhar o mesmo conteúdo, sem precisar da cartilha, e sem precisar também dizer: “fulano sabe mais do que sicrano”!

No que se refere às aulas observadas ao longo da pesquisa, foi possível constatar que Cássia era uma professora bastante dinâmica, que imprimia em suas atividades um tom lúdico, pois frequentemente utilizava músicas, parlendas, brincadeiras e jogos como recursos pedagógicos. Além disso, muitas vezes as atividades propostas aos alunos eram realizadas em duplas ou grupos, cujos resultados eram, quase sempre, socializados com toda a classe ao final. Foi possível perceber também que o relacionamento da professora com seus alunos era muito afetuoso, sem deixar de ser firme quando necessário. Sua relação com os demais docentes da escola, bem como com a equipe gestora e os funcionários, pareceu bastante cordial e respeitosa.